Artista plástico Antônio Dias expõe na galeria de arte Amparo Sessenta em Recife no dia do artista plástico




No mesmo momento em que se comemora o Dia do Artista Plástico, nesta quinta-feira, 8, o artista paraibano Antônio Dias expõe uma série de novos trabalhos na galeria de Arte Amparo 60, em Recife, numa exposição que conta com o patrocínio da Lei de Incentivo Culturais do governo do Estado de Pernambuco. A mostra conta com obras inéditas de um respeitado artista plástico contemporâneo do Brasil e ficam expostas durante todo mês de maio. A exposição consta de múltiplos concebidos e realizados nas cidades do Recife e Olinda, durante uma série de visitas.
As obras de Antônio Dias têm como marca o rigor misturado com um certo ar de poesia. Nesta exposição são mostradas sete peças em cerâmica e bronze fundido. Uma série de casinhas de barro cozido que lembram o conjunto habitacional Cohab. Em entrevista ao caderno Show Antônio Dias explicou em nenhum momento pensou no lado sociológico da obra, mas, no mecanismo de interação entre a lógica construtiva popular e os conceitos que norteiam a produção.
A exposição tem ainda uma série de carrinhos de ferro fundido que ele a chamou “Carrinho Crítico”, moldados em areia na Fundição Capunga, no Recife, que parecem querer conceder uma modalidade física aos rígidos esquemas formais do artista. Fazem parte da mostra torres feitas em lata, uma versão sobre a apropriação dos dejetos de consumo diário do ser humano processado na forma de arte. “Há uma certa ironia no trabalho das casinhas. É um trabalho sobre idéias”, comentou. Há mais de 40 anos trabalhando com arte e uma bem sucedida carreira ele continua reinventando sua própria obra. A exposição é acompanhada de um catálogo com registro fotográfico de todas as obras expostas e texto inédito do curador e crítico Moacir dos Anjos. “Por serem os próprios objetos múltiplos, contudo, os elementos com que esboça um sistema de circulação em rede sujeito a rupturas que perturbam sua continuidade (seja a fragilidade das casas, a erosão dos carros ou a inacessibilidade às torres), terminam por também fazer, da truncada paisagem urbana que cria, modelo crítico para o circuito de arte” escreveu.
Depois de ter peregrinado por vários países o artista fixou residência na Alemanha, mas, diz que não esqueceu da Paraíba, sua terra natal. Antonio Dias nasceu em 1944, na cidade de Campina Grande. Na infância, viveu em várias cidades do Alto Sertão e da costa de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Em 1957, se transferiu para o Rio de Janeiro. Freqüentou o Ateliê Livre de Gravura da Escola Nacional de Belas Artes, sob a orientação de Oswaldo Goeldi, e começou a trabalhar como desenhista de arquitetura e gráfico, fazendo ilustrações e desenhando capas de livros. A primeira exposição individual aconteceu na Galeria Sobradinho, Rio de Janeiro. Para o artista, suas pinturas nessa época trazem "uma arte abstrata, com formas e símbolos principalmente tirados da cultura indígena." No ano seguinte, ganhou o 1º Prêmio de Desenho do XX Salão Paranaense de Artes Plásticas.
Em dezembro de 1964, expõe na Galeria Relevo, Rio de Janeiro. O texto de apresentação do catálogo da mostra "Da torre de marfim à torre de Babel" é do crítico francês Pierre Restany. Desde então, não parou mais de produzir e crescer em sua arte. Antônio Dias disse que sabe da potencialidade dos artistas da Paraíba, mas, lamenta que não haja incentivo para que eles possam se desenvolver como devem. “Num lugar onde não existe um campo de trabalho o que podemos esperar é que os artistas saiam do Estado e busquem seus próprios caminhos”, comentou.
A primeira exposição individual européia aconteceu na Galerie Houston-Brown, Paris. No ano seguinte, participou da mostra Opinião 66, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Com bolsa do governo francês, passa a morar em Paris. “A minha relação com o universo cultural francês, nessa ocasião, passava por uma fase crítica. As obras de alguns artistas, então consideradas políticas, me desiludiram naquele momento porque pareciam panfletárias. Por outro lado, percebi que existiam modos de pensar muito mais interessantes. Li os primeiros textos de Robert Smithson que me fizeram dar uma parada para pensar. Foi um período em que fiz pouquíssimos objetos, como por exemplo, Solitário e Coletivo. Percebo que eram retratos de como eu estava: cubos pretos fechados por fora e vazios por dentro”, contou.
No meio dos anos 60 até 1978, desenvolve séries de trabalhos intitulados “A Ilustração da Arte”, onde utilizou meios diversos, tais como filme, vídeo, livro, fotografia, pintura e gravura. Os trabalhos têm uma proposta irônica e questionamentos sobre a produção, a distribuição e o consumo da obra de arte. Em 1973, realiza mostra individual na Bolsa de Arte, Rio de Janeiro. O cartaz da exposição traz a poesia "Constelário para Antônio dias", de Haroldo de Campos. No ano seguinte realiza individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em que apresenta as instalações: Poeta/Pornógrafo (dois semicírculos em néon); Conversation Piece (projeção simultânea de dois filmes em super-8); O Arquipélago e as Ilhas (diapositivo projetado sobre parede) e Marcação para Intérpretes Perigosos.
Antônio Dias foi professor convidado da Universidade Federal da Paraíba, e sob o aval da UFPB fundou o Núcleo de Arte Contemporânea, um grupo de trabalho cuja proposta é a difusão da arte contemporânea, nacional e internacional. Dando um salto na trajetória do artista plástico em setembro de 2000, o Museu de Arte Moderna de Salvador inaugurou a exposição Antonio Dias: O País Inventado, reunindo trabalhos dos últimos 30 anos da carreira do artista. A mostra “O País Inventado” seguiu itinerante para a Casa Andrade Muricy, Curitiba. Em 2001, sua mostra antológica é apresentada no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 2002, a mostra O País Inventado encerra sua itinerância no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife. Para as exposições em Fortaleza e Recife publica um novo catálogo, com texto do crítico pernambucano Moacir dos Anjos, intitulado "Construção de um lugar que não acaba".
(João Pessoa - Paraíba - Jornal O Norte - Caderno Show - Data: 7 de maio de 2003).