Lenine in Cité



Desde que se lançou no mercado, em 1983, com o disco “Baque Solto”, em parceria com Lula Queiroga, que o cantor e compositor pernambucano Lenine vem se destacando com uma música criativa e contagiante. A prova está num projeto musical intitulado “Lenine In Cité” que ela acaba de lançar respectivamente em CD e DVD, ao vivo, com distribuição da BMG.
O trabalho ao mesmo tempo em que inaugura o selo Casa Nove, do qual fazem parte algumas profissionais de sua produtora e gravadora, a Mameluco, integra o projeto anual “Carte Blanche”, que como o próprio nome indica, dá carta branca para que o artista possa jogar toda sua criatividade no palco.
A assessoria de Lenine afirma que o único artista brasileiro a participar do projeto tinha sido Caetano Veloso, que convidou Lenine para uma participação especial no concerto que também contou com a presença do poeta concreto Augusto de Campos. O disco foi gravado na badalada casa de espetáculos de Paris “Cite de la Musique”, em apenas dois dias do mês de abril deste ano.
Engana-se quem pensa que o trabalho é para ser consumido apenas por “cabeças pensantes”, mas é do jeito que os europeus gostam, ou seja, misturado de sons e tendências, em que se podem ouvir a percussão de um argentino, Ramiro Musotto, com um baixo tocado por uma cubana, Yusa e a voz de um leão do norte.
No CD estão incluídas 12 canções, destas músicas sete são inéditas, todas de Lenine em parceria com outros artistas, a exemplo de Ivan Santos, Carlos Rennó, Dudu Falcão, Paulinho Moska, o eterno parceiro Lula Queiroga, Arnaldo Antunes e três canções em parceira com o escritor e músico paraibano Bráulio Tavares, como “Virou Areia” (faixa seis), que apesar de ter sido gravada pelo grupo Batacotô e por Dionne Warwick, no álbum Aquarela do Brasil (1995) aparece neste trabalho como música inédita na voz de Lenine.
O disco é dedicado a Tom Capone, ex-produtor da cantora Maria Rita, falecido em acidente de automóvel este ano após premiação do Grammy Latino e que chegou ainda a mixar algumas canções do álbum. Na música “Todas elas num só ser”, faixa oito, Lenine solta o verbo e manda dizer que agora já não canta mais Xica, nem Tereza, Tigreza, Vera Gata, Ana, Laura de Daniel, o trovador, nem Gremilda de Jackson do Pandeiro, nem homenageia mais Januária, músicas no qual contém nomes de mulheres, e que hoje ele tem todas juntas num só ser.
A canção, que por sinal é enorme, cita de Bebete a Domingas, passa por Laly de Clapton, amada amante de Roberto Carlos, as loiras do É o Tchan. No mais é só conferir as músicas do repertório como: Rosebud, Relampio, Caribenha Nação, Do It, Vivo, Ninguém faz idéia, entre outras. O encarte também é muito bem produzido com fotos de Dalton Valério, tiradas durante a gravação do disco em Paris. No DVD estão incluídas, além das sete músicas, a canção “Crença”, que segundo Lenine, não se encaixa no roteiro do disco, uma vez que ele imagina um CD como uma história a ser contada e a música “Crença” não se enquadra neste perfil. Nesta produção Lenine optou por fazer um trabalho semi-acústico, em que mistura o seu violão midi, e permite que ele converse com seu VG8, onde estão armazenados os sons que se juntaram ao baixo elétrico e a percussão. Tudo foi muito bem captado, tanto o som quanto às imagens. “Tivemos pouco trabalho de pós-produção”, disse.
Mas os fãs do Lenine podem ficar tranqüilos que tão logo terminem o processo de divulgação deste trabalho ele volta a tocar com Júnior Tostoi, Pantico Rocha e Guila, sua banda de origem, o que é uma pena, pois esse trio é deveras perfeito para ficar gravado apenas num único projeto musical. A música de Lenine está para cultura nordestina assim como funk do Rio de Janeiro está para a cultura das ruas, e vem ao longo dos anos tendo grande receptividade para a nova música popular brasileira, se é que podemos dizer assim, e este trabalho dá uma mostra da sutil mudança do comportamento do mercado e do público que tem ajudado a formar uma platéia para a música improvisada, assim como as platéias dos jovens-adultos dos anos 60 e 70, que naquela época ouvia os improvisos de Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti e ao mesmo tempo gostava de rock e da cultura popular ainda em processo de redescoberta.
A cada produção que é lançada no mercado, como está de Lenine, são mais evidentes e freqüentes nas músicas as improvisações “meia xamãs que contagiam platéias”, como se referiu uma jornalista da imprensa francesa. Isso acontece, principalmente, quando os artistas passam a ter uma bem sucedida experiência no exterior, que os ajudam a aprimorar mais está fusão e traz mais para perto, uma impossível simplicidade e ao mesmo tempo uma grande organicidade que não deixa desejar em nada aos patronos da bossa/jazz, mas se instaura numa nova categoria, uma nova língua musical expressa através da execução instrumental e apuramento da fala popular vinda do Nordeste.
Um olhar sobre a música de Lenine, que foi criado no quintal de João Pessoa ouvido os improvisos de um certo Pedro Osmar, nos dá oportunidade de passar a limpo algumas informações, e observar que a liberdade de improvisação, as elaborações de arranjos são dados cada vez mais evidentes da música brasileira básica.
###Matéria Publicada no Jornal O NORTE, Caderno Show, João Pessoa, Paraíba, em 2005.