Beato de Vila Rica


Exposição de Nivalson Miranda reúne réplicas em azulejos vitrificados dos profetas de Aleijadinho

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
Doze estátuas dos profetas do velho testamento, esculpidas pelo mestre Aleijadinho em pedra-sabão, que se encontram no Santuário Senhor Bom Jesus de Matosinhos, na cidade mineira de Congonhas do Campo (89 km a sul de Belo Horizonte/MG), foram replicadas pelo professor paraibano Nivalson Miranda, em azulejo vitrificado, transpostas para painéis, e agora estão expostas na mostra intitulada “O Aleijadinho – O Beato de Vila Rica”, que será aberta nesta quinta-feira (19), a partir das 18h00, na Associação Comercial da Paraíba, localizada no início da Rua Maciel Pinheiro, no centro histórico da Capital.
Na mostra podem ser encontradas 13 peças medindo aproximadamente 1,20m x 40 cm, desenhadas em azulejos, super aquecidos a 700 graus com uma substância oxidante (óxido de cobalto) que liquefaz a superfície e dá o efeito de vidro no plano branco do azulejo.
A idéia para composição de algo que deixasse viva a obra de Aleijadinho, segundo Nilvalson Miranda, surgiu quando visitou a cidade de Congonhas do Campo (MG), em 1970. Desde então ficou maturando a idéia de um projeto sobre o escultor, mas, só agora, cinco anos após, se debruçou nas pesquisas e leituras sobre Aleijadinho para composição da exposição.
As peças contêm o rosto dos doze profetas, pintados em azul português. Cada exemplar acompanha uma descrição, escritas em quatro idiomas. De acordo com o professor Nivalson Miranda foram quase cinco anos de pesquisas e leituras sobre Aleijadinho.
Uma exposição como está nos dá oportunidade de pesquisar com cuidado e conhecer um pouco mais sobre a obra de um dos maiores escultores brasileiros de todos os tempos. Muitas coisas foram ditas e escritas sobre Alejadinho. Nas bibliotecas, livrarias e a Internet o leitor pode encontrar textos e mais textos que falam e questionam sobre a grandiosidade da obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que nasceu em Vila Rica, hoje Ouro Preto (MG), por volta de 1730. Era filho natural de um mestre-de-obras português, Manuel Francisco Lisboa, um dos primeiros a atuar como arquiteto em Minas Gerais, e de uma escrava africana ou mestiça que se chamava Isabel.
A formação profissional e artística de Aleijadinho é atribuída a seus contatos com a atividade do pai e a oficina de um tio, Antônio Francisco Pombal, afamado entalhador de Vila Rica. Alguns historiadores dizem que a sua aprendizagem foi facilitada por eventuais relações com o abridor de cunhos João Gomes Batista e o escultor e entalhador José Coelho de Noronha, autor de muitas obras em igrejas da região. Na educação formal, nunca cursou senão a escola primária.
O apelido que o celebrizou veio de enfermidade que contraiu por volta de 1777, que o foi aos poucos deformando e cuja exata natureza é objeto de controvérsias. Uns a apontam como sífilis, outros como lepra, outros ainda por um nome cientifico esquisito: “tromboangeíte obliterante” ou “ulceração gangrenosa das mãos e dos pés”. De concreto se sabe que ao perder os dedos dos pés ele passou a andar de joelhos, se protegendo com pedaços de couro. Ao perder os dedos das mãos, passou a esculpir com o cinzel e o martelo amarrados aos punhos pelos ajudantes.
O Aleijadinho tinha mais de sessenta anos quando, em Congonhas do Campo, realizou suas obras-primas: as estátuas em pedra-sabão dos 12 profetas (1800-1805), no adro da igreja, e as 66 figuras em cedro que compõem os passos da Via Crucis (1796), no espaço do santuário de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos.
O Santuário do Bom Jesus do Matosinhos é constituído por uma igreja em cujo adro estão as esculturas em pedra sabão de 12 profetas: Isaias, Jeremias, Baruque, Ezequiel, Daniel, Oséias, Jonas, Joel, Abdias, Adacuque, Amós e Naum. Cada um desses personagens está numa posição diferente e executa gestos que se coordenam.
Toda sua obra foi realizada em Minas Gerais e ainda hoje é admirada. A obra do Aleijadinho caiu, porém no esquecimento com o tempo, só voltando a despertar certo interesse após a biografia precursora de Rodrigo Bretãs (1858). O estudo atento dessa obra, como ponto culminante do barroco brasileiro, esperou mais tempo ainda para começar a ser feito, na esteira do movimento de valorização das coisas nacionais desencadeado pela Semana de Arte Moderna de 1922.
Antônio Francisco Lisboa, segundo consta, foi progressivamente afetado pela doença e se afastou da sociedade, relacionando-se apenas com dois escravos e ajudantes. Nos dois últimos anos de vida se viu inteiramente cego e impossibilitado de trabalhar. Morreu em algum dia de 1814 sobre um estrado em casa de sua nora, na mesma Vila Rica onde nascera.

Sobre o autor

Nivalson Miranda ou professor Nivalson, como é mais conhecido, é natural de João Pessoa, além de artista plástico, é xilogravurista e um dos primeiros na Paraíba a pintar com bico de pena aquarelado e bico de pena em vista de pássaro. Formado em Farmácia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), foi bioquímico, atuou em vários laboratórios da cidade. É hoje professor aposentado da UFPB, onde lecionou as disciplinas de Física Industrial e Izimologia.
Ele conta que sempre teve paixão por arquitetura, mas, como na sua época não existia curso de arquitetura enveredou na área da farmacologia, o que foi de grande resultado, pois aprendeu a manusear com os óxidos, tirando deles técnicas para a sua arte. Nivalson Miranda já fez mais de 30 exposições. São dele os azulejos pintados com fortes do Brasil que estão expostos na Fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo, e a exposição sobre as aventuras do alemão Hans Staden, também exposta no mesmo local.
Um estudioso natural das técnicas xilográficas e um apaixonado pelo patrimônio arquitetônico do país ele diz que está sempre se aventurando em novos estudos e possui em sua casa de uma coleção em miniatura de brasões, todos pintados à mão. Atualmente vem se dedicando ao Memorial Iconográfico Histórico Brasileiro que deverá funcionar numa sala da Associação Comercial da Paraíba, ao lado do espaço destinado a exposição que ficará exposta no local até o dia 31 de março.

Serviço:
Exposição: O Aleijadinho – O Beato de Vila Rica de Nivalson Miranda
Abertura: Quinta-feira (19)
Hora:18h
Local: Associação Comercial da Paraíba, localizada no início da Rua Maciel Pinheiro, no centro histórico da Capital
Visitação: Horário comercial até o dia 31 de março