Walter Carvalho lança Moacir - Arte Bruta

Foto: Divulgação - http:/republicapureza.com.br



Adriana Crisanto


Um confronto entre o primitivo e o moderno são focos evidentes no longa-metragem “Moacir – Arte Bruta” (72 minutos, color, 35mm) de autoria do cineasta e fotógrafo paraibano Walter Carvalho lançado em junho deste ano, no circuito “Unibanco Arteplex” do Rio de Janeiro e São Paulo. O filme registra a vida de Moacir, 42 anos, um artista plástico negro, que vive isolado num recanto do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em condições de extrema pobreza.
O cineasta conta que descobriu Moacir por um acaso há cerca de 15 anos, numa de suas viagens pelo interior do Brasil e desde então acalentou o sonho de registrar a vida dele e só agora vê esse sonho realizado. A intenção do cineasta não foi identificar onde se encontra a normalidade de Moacir.
Foram sete dias de filmagem na casa do artista plástico que, segundo Walter, tem problemas sérios de audição, fala e de formação óssea, um “quasímodo”, que manifesta toda sua angústia interior desenhando e pintando figuras míticas, seres humanos, santos e beatos reproduzido dentro de um universo muito particular. Os desenhos são carregados de erotismo e sensualidade e tem impressionado os artistas plásticos pelo primitivismo e pela beleza.
O longa é todo ele pontuado por entrevistas com seus familiares que se comunicam num quase dialeto próprio, com palavras e expressões que o país desconhece. Um Brasil, segundo Walter, esquecido, não oficial, porém forte e representativo.
Moacir Arte Bruta foi dedicado a Leon Hirszman, que, em 1987, produziu “Imagens do Inconsciente”, com três artistas do Museu das Imagens do Inconsciente, dirigido na época pela doutora Nise da Silveira. A trilha sonora é de autoria do músico Léo Gandelman, com cello de Jacques Morelembaum e canção tema de Antonio Nóbrega. A direção de fotografia é do filho de Walter, Lula Carvalho, que amplia o olhar do personagem e utiliza recursos extras, como filmar por debaixo de um vidro onde o artista desenha.
O longa infelizmente não tem previsão de ser exibido na Paraíba, devido a falta de espaços destinados a exibição de filmes de arte e documentários. Está semana foi exibido em Nova York e antes de embarcar para lá o cineasta Waltaer Carvalho concedeu uma entrevista ao caderno Show do Jornal O NORTE em que fala dentre outras coisas sobre documentário “Francisco Brennand”, dirigido por Mariana Fortes e que está em fase de preparação para filmagem de numa nova produção com Laís Bodansky, em São Paulo. Além da produção de um filme documentário de “Um filme de Cinema”, em que faz uma reflexão sobre o próprio cinema. Leia:

Como aconteceu o seu primeiro contato com o Moacir?

Foi em 1988, estava filmando, quando encontrei por acaso perdido no meio da Chapada dos Veadeiros no interior de Goiás, um artista outsider, negro, isolado, com problemas de formação óssea, de audição e fala. Um quasimodo. Mas que desenhava de forma impressionante, com um traço desconcertante. Voltei em 2003 para registrar seu trabalho e sua maneira de viver.

E como se encontra o Moacir hoje?
Foi um encontro interessante porque Moacir não se lembrava do nosso primeiro encontro. Digo não se lembrava, mas é possível que nem tenha registrado nossa conversa quando da primeira vez. Era uma pessoa arredia e nitidamente uma pessoa com sua psique alteada.

Como o senhor observa, mesmo que de longe, o cinema paraibano? O que falta para ele ser mais atuante?
Acho o cinema paraibano muito atuante. Temos cineastas como Torquato Joel, Marcus Villar, Bertrand Lira e muitos outros fazedores de filmes que se destacam no panorama nacional e internacional. Não falta nada para ele ser atuante, ele já é. Alô! Eliezer e Heleno estamos aí curiosos para ver pronto o novo e maravilhoso longa paraibano.

O senhor saiu magoado da Paraíba?
Não, em absoluto não tenho tempo para ter mágoa. Viver é muito rico e não podemos permitir espaços para essas coisas. Vim morar no Rio em 68, ano em que a repressão era assustadora. Em João Pessoa, fui preso numa passeata estudantil e muito perseguido pela direção da Escola Técnica que na época chamava Escola Industrial. Mas isso são coisas do passado e citaria Darcy Ribeiro que preferia estar do lado dos perdedores.

Na sua opinião atualmente existe boicote e censura estética no cinema?
Não. Existe censura econômica. Falta grana pra se filmar. Quando houver uma política decente, um cineasta como Torquato Joel, só para citar um nome, não vai parar de filmar nunca.

O senhor tem algum projeto em andamento? Em que fase está?
Tem. Estou filmando um documentário sobre Francisco Brennand, dirigido por Mariana Fortes. Estou me preparando para filmar com Laís Bodansky em São Paulo. Estou realizando um filme documentário sobre cinema chamado Um filme de Cinema, uma reflexão sobre o próprio cinema. Já estou filmando a cinco anos e ainda vou levar mais outros cinco para terminar. É um filme que me acompanha e só filmo quando acontece. Aceitei dirigir a adaptação de Budaspeste de Chico Buarque, estamos trabalhando no projeto. Mas ainda vai demorar.

O que pretende fazer daqui pra frente?
Filmar e fotografar. Estou trabalhando em silencio num projeto de fotografia com o grande fotografo paraibano Gustavo Moura juntamente com o nosso Antonio Augusto Fontes que também mora aqui no Rio. Aliás por falar em fotografia, gostaria de recomendar dois livros de Gustavo, a fantástica leitura imagética que ele fez sobre Ariano Suassuna e a expressiva poesia visual em A primeira luz do sonho. Por um transcinema.