"Deputados, senadores e vereadores são o câncer da política do Brasil"



A voz de Jorge Vercilo irá ecoar pelo litoral paraibano nesta sexta-feira (22). O cantor se apresenta na casa de shows Forrock a partir das 22h00. Os ingressos estão a venda na bilheteria da casa ao preço individual de R$ 15,00. O camarote para 10 pessoas custa a bagatela de R$ 500,00. As mesas-camarote, aquelas que ficam no meio do salão, espremendo a multidão, custam R$ 200,00 e o camarote individual R$ 50,00.
No show de logo mais o cantor e interprete apresenta as canções do DVD ao vivo, gravado em abril deste ano no Canecão, Rio de Janeiro. O show, segundo Vercilo, é uma mutação do último disco da carreira “Signos de Ar” e outras canções que se tornou sucesso na voz do interprete.
Ontem Jorge Vercilo se apresentou em Campina Grande e também ontem, cumprindo uma lotada agenda de compromissos, concedeu entrevista coletiva a imprensa e aos fãs numa agência de propaganda da Capital. Nesta entrevista o artista fala principalmente sobre o novo trabalho, mas não deixa de questionar aspectos da política e de suas canções. Leia a entrevista:

Como foi para você gravar um DVD ao vivo?
Foi e está sendo surpreendente. Porque eu sempre relutei muito em gravar um DVD ao vivo. Sempre achei que um DVD ao vivo fosse um projeto e nunca fui motivado por projetos. Até porque essa cultura de regravação que as pessoas vinham e vem fazendo não me agradava muito. Era um tanto apelativo. Ultimamente a MPB tem fugido um pouco deste perfil e eu tenho achado legal. Mas está sendo ao mesmo tempo uma surpresa agradável, porque sempre achei que fosse me realizar como interprete e cantor no disco, gravando em estúdio, porque você tem a possibilidade de gravar a voz várias vezes no mesmo canal. Sempre fui muito crítico e achava que ao vivo não iria ficar bom tecnicamente. Acabou que gostei mais dessas músicas gravadas no ao vivo do que a gravação das mesmas no disco original. Talvez porque tenha observado meu amadurecimento na voz, enquanto timbre, nas músicas mais dançantes, como também nas músicas mais lentas com a voz mais emotiva.

Não te seduz a proposta do projeto MTV acústico por exemplo?
Não sei. Até porque a MTV nunca me tocou. Nunca estive presente dentro da MTV. Sou um completo desconhecido dentro do universo da MTV. Talvez porque a empresa tenha um perfil mais pop rock. Não sei o que acontece especificamente. Nunca tive essa expectativa.

Você deixou de colocar uma música em um de seus álbuns. Por quê? Não quis misturar as coisas por estarmos em ano eleitoral?
Em deixei duas músicas de fora. Uma com conteúdo político e outra romântica. A com conteúdo político é um rap chamado “A Cidade e seus Meninos”. E esse rap bate, mete o pau mesmo, em tudo quanto é político. Principalmente os deputados, senadores, vereadores que para mim são o câncer da política no Brasil. Esse congresso que não anda, onde você tem que pagar o mensalão para que o político compareça ao plenário e faça o trabalho dele. É tanto que acho ingenuidade ou hipocrisia as pessoas que se posicionam contra o governo Lula. Você não votar pelo governo que ele vem administrando é aceitável. Agora não votar por causa do mensalão é uma loucura. Até porque já é loucura pensar que algum político seja santo. Eu votei em Lula alguns anos. Hoje tenho dúvidas se voto nele ou no Cristovam Buarque, porque acho que ele traz uma proposta importante, embora a gente saiba que neste momento não tenha tanta chances de ser eleito.
Essa música tem um refrão que falava assim: “Será que a gente esquece de quem é estando no poder”. E tinha certeza que essa frase a oposição iria usar para atingir o Lula. Me senti mal ao pensar na possibilidade de que minha música acabasse virando “jingle” eleitoreiro para muito safado colocar no interior do Brasil rodando em carrinho. Eu achei que não era o momento. Neste momento eu chego a triste conclusão de que tanto faz o Serra, Lula, Alkimim ou Buarque. Porque o sistema está tão corrompido que não sabemos em que votar. Eu penso que cidadão nenhum chegando lá, querendo fazer um bom trabalho, consegue realizar alguma coisa. O que ainda tenho fé é na pressão do povo.

E a outra música?
A outra que acabou não entrando foi o soneto “Fidelidade” de Vinícius de Moraes. Aquele poema que o mais conhecido dele: “Que não seja eterno posto que é fama. Mais que seja infinito enquanto dure”. Esse poema ficou num estilo meio bossa nova com aquela vibe de Tom Jobim. Acabou entrando na novela Páginas da Vida. Só que a família do Vinicius de Moraes brecou. Eu também fiz isso sem pedir autorização a eles. É claro que na hora de registrar no DVD nós fomos pedir autorização e eles explicaram que não era nada relacionado a mim e a meu trabalho, mas que era uma regra. Chico Buarque ligou para mim família também porque ouviu e gostou. Ana Carolina também pediu para que liberassem. Manoel Carlos também ligou pedindo para liberar. Mas ninguém conseguiu liberação. Enfim, eu não concordo com o argumento deles, mas entendo e respeito.

Você tem uma música em parceria com o paraibano Bráulio Tavares. Que canção é essa?
Se chama “Olhos de Nunca Mais”. É uma balada do meu quatro disco “Elo”. Ela não entrou neste trabalho porque não se tornou uma música conhecida. Mas é uma das músicas que dá muito prazer de cantar. É uma música forte que eu chamo lado B. Para mim as perolas da MPB ainda estão escondidas no lado B. São as música que não foram trabalhadas ainda. Bráulio é um letrista incrível. Sou fã de várias músicas dele em parceria com Lenine. Conheci o Bráulio na casa de Elba e foi quando surgiu essa parceria.

E o que você tem a dizer da crítica?
Os críticos são os que menos entendem o que eu faço. A elite da imprensa que se autodenomina "formadores de opiniões" são os que menos entendem o que faço e o que muitos fazem. Caetano Veloso, por exemplo, não fala mais com a revista Veja. Fizerem outro dia uma matéria grotesca com Vanessa Mata outro dia. Logo ela que é uma cantora ótima. Uma menina talentosa que teve o mérito de compor uma música que se tornou sucesso nacional. Estourou e atingiu a todos. Por causa desse sucesso a imprensa elitizada começou a chamá-la de chata, porque estava tocando muito na rádio. As pessoas que entendem meu trabalho é o público mesmo.

Algumas pessoas dizem que seu timbre de voz se assemelha a do Djavan. Em 2000/2001, você respondeu a crítica dizendo para as pessoas lerem o release escrito pelo Ed Motta...
Não lembro do que falei mas, na verdade, a minha resposta continua sendo a mesma. No meu site, na internet, tem como você chegar lá. É aquela coisa. Vocês é quem decidem. Eu acho Djavan um dos caras mais bacanas do planeta. Assim como gosto muito de Steve Onder, hoje minha maior influência. Só que as pessoas não percebem outras coisas. Quando eu canto Fênix está lá o Milton Nascimento, Flávio Venturini, assim como está também o Jorge Vercilo. Então... é chato sim ser comparado. Porque as pessoas não falam da qualidade do meu trabalho? A imprensa, muitas vezes, usa o Djavan para me atingir, numa mediocridade muito grande. Tem tanta coisa para se falar sobre meu trabalho. Por que sempre trazer esse assunto a baila? Eu ganhei o prêmio Tim, as pessoas estão reconhecendo meu trabalho. Isso é importante.

Adriana Crisanto

Serviço:
Show: “Jorge Vercilo ao Vivo” – com participação das bandas Auto Pista e Raízes

Local: Forrock – Tel 3331-1210
Data: 22 de setembro de 2006 (sexta)
Horário: 22hs
Preços: Pista: R$ 15,00; Camarote (p/ 10 pessoas): R$ 500,00; Mesas-Camarote: R$ 200,00 e Camarote Individual: R$ 50,00
Vendas: Forrock: 3246-5858 e CCAA: 3226-1561.
Foto: Divulgação
Matéria publicada no jornal O Norte em setembro de 2006.