Paulinho e Lessa em novo duo musical

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Paulo Tapajós Gomes Filho além de cantor e compositor é produtor musical e arquiteto. Paulinho, como é conhecido no meio artístico, faz parte de um time de primeira linha de poetas da geração dos anos 60, 70 e 80, com centenas de músicas gravadas, diversos prêmios em Festivais, parceiros dos mais consagrados compositores e gravado pelos mais atuantes intérpretes da música brasileira.
É dono de uma poesia marcante e extremamente bela. Nasceu no Rio de Janeiro, em agosto de 1945. É filho do compositor, cantor e radialista Paulo Tapajós, com quem teve as primeiras noções de música, e de Norma Tapajós, e irmão do compositor Maurício Tapajós e da cantora Dorinha Tapajós. Durante sua infância, costumava freqüentar o auditório da Rádio Nacional, emissora da qual seu pai era diretor artístico. Cresceu em um ambiente musical, convivendo desde menino com vários artistas, como Emilinha Borba, Marlene e Radamés Gnatalli, que costumavam freqüentar a casa de seus pais. Na adolescência, estudou violão com Léo Soares e Arthur Verocai, que veio a ser seu primeiro parceiro.
Participou, em 1968, do "Música Nossa", projeto realizado com o objetivo de promover encontros entre compositores e cantores em espetáculos realizados no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro. Nesse ano, teve pela primeira vez registrada uma música de sua autoria: "Madrugada" (com Arthur Verocai), incluída no LP "Música Nossa", em gravação de Magda. Entre 1968 e 1970, destacou-se como compositor premiado em diversos festivais de música, com destaque para sua participação no III Festival Internacional da Canção, no qual obteve o terceiro lugar, na fase nacional, com a canção “Andança” (com Edmundo Souto e Danilo Caymmi), hoje com quase 300 gravações, e no IV Festival Internacional da Canção, no qual obteve o primeiro lugar na fase nacional e o primeiro lugar na fase internacional, com “Cantiga por Luciana” (com Edmundo Souto), hoje com mais de 100 gravações. Recentemente Paulinho lançou o CD “Tantas Canções” com o parceiro Marcelo Lessa, em que faz outro passeio pela musica brasileira e alinha nove parcerias inéditas. Para falar um sobre o novo trabalho e os sucessos antigos Tapajós concedeu está entrevista que segue:

Quanto tempo você e Marcello Lessa são parceiros?
Nos conhecemos em 2000, no Vinicius Piano Bar, e passamos a trabalhar juntos logo depois.

Vocês nunca pensaram na possibilidade de registrar essa parceria em DVD?
Talvez um pouco mais pra frente.

A música popular da década de 1970 tinha um poder psicológico, social, político, espiritual e mágico muito grande. Na sua opinião o que aconteceu com a MPB que é produzida atualmente?
É evidente que os acontecimentos históricos, políticos e sociais vão se modificando. Mas, outros surgem e outras necessidades também. E hoje ainda se faz uma música de boa qualidade, voltada para esses aspectos, por parte de alguns de nossos criadores. O que leva a crer que nada exista neste sentido é o fato de que nada do que se faz de melhor qualidade chega ao grande público. Apenas porque, nem toda, mas a grande mídia, que é quem dita o consumo, está mais interessada, como todos sabem e afirmam, em obter faturamento rápido e não em divulgar a boa cultura, mas essa mantém sua sobrevivência em vários cantos do país, e é só procurá-la que há de se encontrar.

Suas canções e composições ao mesmo tempo em que traz uma sofisticação apresenta uma melodia simples. De onde vem esse maneirismo magistral?
Não saberia dizer com certeza. Fui criado dentro da Rádio Nacional, mas além daquele vasto repertório de canções brasileiras, sempre escutei de tudo o que havia em matéria de música popular e erudita.

Por que esse título “Par e Ímpar”? Foi difícil fazer a seleção de “Tantas Canções”?
Existe também a dualidade no nosso trabalho. E ela no final resulta numa soma. É o reflexo de uma “par-ceria” ou de uma “ímpar-ceria?”. Somos dois criando uma unicidade. Paulinho e Marcello? ou Marcello e Paulinho? Inicialmente foi Viola, Violão e no prosseguimento haverá outros títulos duplos.
Sim, em parte foi difícil, já que das canções inéditas em parceria com o Marcello, o material que ficou pronto até ali foi todo gravado. Mas para as minhas canções conhecidas, que procuramos regravar, sempre fica muito difícil a escolha, pois existe muito mais material do que espaço. E desta vez não ficou nenhum espaço para as canções inéditas com outros parceiros, que ficarão para outro projeto.

Você poderia contar para a nova geração a história da música “Cantiga para Luciana”?
Ela foi feita em maio de 1969 como um gesto de carinho e também homenagem à coragem do enfrentamento de uma gravidez complicada, principalmente naquele tempo, por parte nossa grande amiga Vânia Carvalho que é irmã da cantora Beth Carvalho. Ela havia escolhido esse nome Luciana, caso nascesse uma menina, por ser apaixonada por uma valsa de Tom e Vinicius feita para a filha de Vinicius. Quando ela foi feita, Vânia estava no início da gravidez, e não sabíamos se nasceria uma menina mesmo ou um menino, já que não havia ultra-sonografia na época. Posteriormente em junho, ela foi inscrita no festival Internacional da Canção, em 1969, enquanto viajamos para a Grécia com a Beth. Eu e o parceiro Edmundo, para participar do Festival Internacional de lá. Prosseguimos viajando e acompanhamos de longe os acontecimentos da classificação da música que seria apresentada no Maracanãzinho quando chegássemos. Ela seria defendida pela Evinha que era uma menininha de quinze anos, e estava saindo do Trio Esperança para iniciar carreira solo. Vânia fez uma cesariana no final do mês de julho daquele ano, e chegamos aqui no início de agosto, numa época em que não havia internet ou celular e as ligações telefônicas eram dificílimas de serem feitas de lá da Europa para cá. Chegamos ainda sem saber se havia nascido Luciana ou Ricardo. Eles também não queriam nos dizer, pois nos prepararam uma surpresa. O resto eu creio que todos já sabem. E para quem não sabe, para a nossa alegria, a música venceu o festival em setembro daquele mesmo ano, na parte Nacional pelo voto do público e pelo voto dos jurados, e logo depois em outubro representando Brasil, venceu também a parte internacional outra vez pelo voto do público e pelo voto dos jurados. A Luciana com três meses de idade assistiu no colo da Vânia a final do Festival.

Outra canção que marcou sua carreira foi “Sapato Velho” e que ganhou neste trabalho nova versão para violões. Como se dá essa “coisa” de ter três parceiros compondo uma única música?
Como eu trabalho mais como letrista, essa melodia foi feita pelo Cláudio Nucci e pelo Mu Carvalho, e eu coloquei a letra posteriormente, que é como eu costumo fazer na maior parte das vezes em que trabalho em parceria, seja com um ou dois parceiros... Embora eu atue também como melodista em muitas canções feitas em parceria, as letras sempre cabem a mim.

Você também escreve para o público infantil. Não é isso? Como andam as produções literárias? Você parou?
Andei afastado algum tempo, mas lancei no ano passado mais dois livros infantis, que são lendas amazônicas adaptadas em versos, e que contém vocabulário tupi. São elas, a do Uirapurú, e a da Vitória Régia. Elas têm além da função lúdica, o propósito de serem adotadas pelas escolas para divulgar os costumes e o idioma de nossos índios. Esse idioma embora tenha originado muitos de nossos vocábulos, caiu em desuso e hoje é completamente desconhecido pelas novas gerações.

Um de seus livros “Verde que te quero ver” foi para televisão, num musical que levou o mesmo nome. Hoje a televisão brasileira não mais faz essas produções. O que mudou? Os valores sociais? A economia?
Não creio. Penso que principalmente mudaram as pessoas responsáveis pela programação, que não tem os mesmos valores íntimos e interesses para realizarem estas produções, já que há investimentos altíssimos em outros produtos televisivos, e tanto o público infantil, como o público que consome música, continua sendo segmentos de grande retorno comercial.

Adriana Crisanto

adriana@jornalonorte.com.br