Tim Festival 2006



Novo local, quatro espaços climatizados para apresentações, novas bandas, uma multidão, muitos artistas e a cerveja sendo vendida a R$ 5 foram às marcas registradas na edição deste ano do TIM Festival que aconteceu neste último final de semana na Marina da Glória, no Estado do Rio de Janeiro.
O primeiro dia do Festival foi aberto às 20h20, na Tenda Tim Club, por Ivan Lins, que fez um tributo ao produtor Paulinho Albuquerque, um dos curadores do evento que faleceu em junho deste ano. Logo em seguida se apresentou Jenniffer Sanon, que só fez completar o show anterior e não trouxe nada de diferente do que os ouvidos dos jazzistas brasileiros estão acostumados a escutar. Neste palco o melhor mesmo foi o show da orquestra Maria Schneider que finalizou o show com uma canja de Ivan Lins.
Nos palcos Tim Stage e Tim Lab o público sofreu com o atraso das apresentações, o que para o carioca é absolutamente normal tendo em vista a grandeza do evento. O primeiro grande atraso foi da cantora Céu que começou sua apresentação a meia noite, uma hora depois do previsto no palco do Tim Lab. Outro atraso aconteceu no espaço Tim Stage com o show do duo eletrônico francês Daft Punk, um dos mais esperados da noite que teve seus ingressos esgotados.
O show do Daft Punk foi uma das apresentações mais colorida, lisérgica, hipnotizante, brilhante, vibrante e impressionante que assisti este ano. Eles começaram o show com as cinco notas do filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, tocadas para avisar que estavam chegando de outro planeta. E pareciam mesmo de outro mundo, pois vieram vestidos como robôs com capacetes e jaquetas de couro dentro de uma pirâmide, munidos de um incrível jogo de luzes e projeções.
Os robóticos Daft Punk tocaram músicas que já fazem parte da história da música eletrônica, a exemplo de: “Da Funk”, “Harder Faster Better Stronger” e “One More Time”. A mistura, como não poderia deixar de ser, levou a platéia, jovem em sua maioria, ao delírio, e cativou os mais descolados.
O cantor Lulu Santos, que estava no espaço, não cansou de dizer que nunca havia escutado coisa tão mais alta e vibrante. Na opinião do crítico de música Tom Leão do Globo o Daft Punk é a versão mais completa e bem acabada de um novo esquema de show desenvolvido pela geração eletrônica dos anos 90.
Outro show bastante esperado da noite foi do neohippie americano Devendra Banhart, que aconteceu no espaço Tim Lab. Mas o rapaz mandou muita gente embora mais cedo, pois iniciou a apresentação com rocks pouco criativos. Na metade da apresentação as composições melhoraram um pouco e animou o público que restava na tenda.
Com longos cabelos e um visual messiânico o Devandra veste roupas, segundo ele, preferidas da mãe ou das namoradas. Aos 25 anos, nascido no Texas, filho de uma Venezuelana, o cantor ressuscitou o folk americano e misturá-lo ao rock. Autor dos celebrados discos “Niño Rojo” (2003) e Cripple Crow (2005) o Devendra acredita que tudo no mundo pode ser harmônico. Fã incondicional Caetano Veloso, que estava nos três dias do Festival, terminou o show com uma canção em inglês do baiano “Lost in the Paradise”.
Patti Smith, Yeah Yeah Yeahs, Bonde do Rolê e Thievery Corporation foram às atrações mais esperadas do segundo dia do festival. A vocalista Karen do grupo suou e berrou muito no palco do Tim Stage dentro de um figurino colorido. Até o microfone ela quebrou e no final ficou rindo. No Tim Lab a noite foi comandada inicialmente pelos curitibanos do Bonde Role que misturou o batidão do funk com o humor das letras como na música “James Bond”, em que questiona sobre a masculinidade do agente secreto mais famoso do cinema americano.
Para um dos curadores do evento, Hermano Vianna, a reação do público é o melhor retorno. E foi o que a roqueira Patti Smith mostrou no sábado, véspera do segundo turno das eleições para presidente. O show de Patti Smith foi, na minha modesta opinião, e sem sombra de dúvidas, o melhor do Festival.
A senhora Smith entrou no palco sem alarde e à medida que tinha contato e resposta da platéia a roqueira se soltava. Entre uma cusparada e outra desfilou clássicos como: “Because the Night” e “Glória”, na qual dedicou aos civis mortos por governos irresponsáveis e aconselhou ao público brasileiro a votar com o coração, lembrando que o “governo trabalha para vocês e vocês para ele”. “Usem suas vozes”, dizia Patti.
A cantora na vitalidade de seus 59 anos mostrou-se entusiasmada com o Brasil e ora empunhando um violão, ora uma guitarra, da qual arrancou aos solavancos as cordas, agradou em cheio o público presente ao cantar seus antigos sucessos, a exemplo de Redondo Beach, Pissing in River. Um dos momentos do show foi quando dedicou a música “Southern Cross” aos homens, mulheres e crianças que morrerem quando seus países foram invadidos por outros governos.
No domingo as atrações foram o italiano Stefano Bollani, Herbie Hancock, Beastie Boys e o mano Caetano Veloso que apresentou para a platéia do Tim Festival seu mais recente trabalho “Cê” que foi pouco citado pela imprensa carioca. Ao lado de uma banda bastante jovem, o guitarrista Pedro Sá, que o conheceu ainda pequeno, Marcelo (bateria) e Ricardo (teclado), Caetano debulhou seu repertório de Cê.
E por incrível que pareça “Cê” agradou ao público que foi a loucura a cada pulinho dado no palco pelo baiano preferido dos cariocas. Com uma platéia bastante jovem o músico optou por cantar, no “bis”, canções como Black or White”. Ao lado de Paulinha e outros amigos Caetano Veloso foi a figura mais fácil de ser encontrada circulando nos quatro dias do Festival na Marina da Glória.
Enfim, shows que nunca teria a oportunidade de ver senão fossem festivais com este, que ao mesmo são duramente atacados revelam surpresas. Apresentações que infelizmente não chega na nossa Paraíba.

Adriana Crisanto

adriana@jornalonorte.com.br

Fotos: divulgação

Matéria publicada no jornal O Norte dia 2 de novembro de 2006.