Aceita-se Desafios


Rinaldo Fernandes é o responsável por quatro belas coletâneas. Uma delas “O Clarim e a Oração: Cem Anos de Os Sertões”, uma obra que reúne textos de autores contemporâneos das áreas de jornalismo, literatura, poesia e história, e de quebra, traz entrevistas com moradores de Canudos. O livro-coletânea foi editado pela Garamond, no ano de 2005, para celebrar os 50 anos de publicação do romance “Os Sertões” de João Guimarães Rosa.

No final do ano passado Rinaldo Fernandes recebeu Prêmio Nacional de Contos do Paraná, um dos mais tradicionais da literatura brasileira. Prêmio este que colocou o maranhense (que resolveu adotar a cidade de João Pessoa como sua casa oficial) em destaque no cenário literário nacional.

Além de professor de literatura na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com doutorado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é autor dos livros de contos: O Caçador (1997) e O Perfume de Roberta (2005) e da novela Rita no Pomar (ainda inédita). Recentemente o conto “Negro”, do livro “O Caçador”, virou um curta-metragem, de autoria do cineasta Renato Alves, que de acordo com Rinaldo, deverá ser lançado em 2007.

Enquanto pesquisador produziu os textos da antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século (já na terceira edição), organizada pelo escritor paraibano José Nêumanne Pinto (2001). Foi colaborador nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil (caderno “Idéias”). Atualmente assina a coluna “Rodapé/Ponto de vista crítico” nos suplementos literários Rascunho, de Curitiba (PR).

É de sua autoria também Chico Buarque do Brasil (2004), Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (2006), Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (2006). Para falar sobre toda essa produção literária tive uma longa conversa com o autor que deverá publicar este ano, por uma editora de São Paulo, sua primeira novela “Rita No Pomar”, que virá junto com cinco contos. Leia a entrevista:

O senhor é responsável por pelo menos três belas coletâneas que uniram autores paraibanos e escritores de outras regiões do país. Como surgiu a idéia de fazer coletâneas, de ser antologista?

Na verdade, já publiquei quatro coletâneas, duas de ensaios (O Clarim e a Oração: Cem Anos de Os Sertões e Chico Buarque do Brasil: textos sobre as canções, o teatro e a ficção de um artista brasileiro) e duas de contos (Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa) e fico contente que, entre elas, você tenha escolhido duas como “belas”. Foi por acaso que comecei a ser antologista. Eu estava em São Paulo e recebi o convite do jornalista e escritor José Nêumanne Pinto e de Luís Fernando Emediato, da Geração Editorial, para preparar os textos da antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século. Aceitei o convite – na verdade, o desafio, pela grande responsabilidade. Foi extremamente trabalhoso preparar esses textos, fazer a pesquisa, que me exigiu muito e foi apoiada numa enorme bibliografia. Como pesquisador, sou muito meticuloso, gosto de checar tudo. Resultado: a antologia, quando saiu no final de 2001, vendeu bastante, foi um sucesso editorial e recebeu ótimas resenhas. A minha credibilidade cresceu junto ao editor Luís Fernando Emediato. Como eu tinha aprendido, preparando a antologia do José Nêumanne, os passos para ser um antologista, especialmente as questões que envolvem direitos autorais, a forma de contato com os autores, etc., eu resolvi que ia organizar um livro sobre Euclides da Cunha. Eu fazia doutorado em literatura na Unicamp e pesquisava o tema de Canudos a partir do romance A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa. Fiquei entusiasmado com o universo de Canudos, com o romance do escritor peruano, com a obra de Euclides da Cunha. Como em 2002 se comemorariam os 100 anos da publicação de Os Sertões, conversei com Emediato sobre a idéia de organizar um livro abordando a obra capital de Euclides. Um livro que reunisse grandes especialistas, escritores, historiadores, sociólogos – gente como Ariano Suassuna, Luiz Costa Lima, Roberto Ventura, Benedito Nunes, Moacyr Scliar, Mario Chamie, Regina Zilberman, etc. O livro saiu, numa bela edição, em setembro de 2002, reunindo essa gente toda e mais uma série de entrevistas que os jornalistas Sandra Moura e Suênio Campos de Lucena fizeram na região de Canudos, e foi muito bem recebido pela mídia e pelo público, especialmente o acadêmico. Hoje virou um livro de referência, é adotado em várias universidades do Brasil e do exterior. O Clarim e a Oração ainda está bem exposto nas principais livrarias e vende bem.

Quais as dificuldades encontradas para preparar as coletâneas?

Minhas coletâneas dão muito trabalho. Normalmente passo entre doze a quinze meses preparando cada uma delas, num trabalho diário, que envolve desde a concepção geral da obra, a escolha de autores, até o preparo e revisão de textos. Eu reviso todos os textos de minhas coletâneas, não aceito a revisão das editoras. E mais: acompanho a confecção da capa, a preparação dos releases na hora em que o livro vai para a mídia, etc. Acompanho até mesmo o envio dos exemplares a que têm direito os autores. Fico aporrinhando o editor: “Já enviou os livros de fulano? E os de sicrano?”. É assim, sou muito perfeccionista no que faço.

Como é o processo de seleção dos textos?

Normalmente eu convido escritores que já têm uma obra reconhecida ou autores emergentes, que vejo que têm potencial, que escrevem bem. Entendo que o bom texto está em vários lugares. Há pessoas que escrevem bem em São Paulo, Rio, Minas, mas há os que escrevem bem na Paraíba, na Bahia, no Ceará. Assim, um dos meus critérios é também o geográfico, o de fazer um mapeamento. Embora a maioria dos autores seja do Sudeste, até por ser a maior região do país, eu sempre descentralizo as escolhas e incluo pessoas de outras regiões. Qual o antologista que incluiria 15 autores do Nordeste numa edição nacional? Eu fiz isso com o livro Contos Cruéis. São 47 autores, quinze dos quais aqui do Nordeste. Aqui na Paraíba há ótimos escritores e pesquisadores, como Marilia Arnaud, W. S. Solha, Geraldo Maciel, Maria Valéria Rezende, Amador Ribeiro Neto, Sérgio de Castro Pinto, Carlos Gildemar Pontes, Aldo Lopes, Arturo Gouveia, Wellington Pereira, Linaldo Guedes, Astier Basílio, Antônio Mariano, Hildeberto Barbosa Filho, Sônia L. Ramalho de Farias, Sônia Maria van Dijck Lima, João Batista de Brito, Luís Antonio Mousinho, Diógenes Maciel, os quais eu tenho convidado para participar de minhas coletâneas. E não faço isso pela amizade, não. É porque são bons autores mesmo, têm qualidade.

Como fica a questão dos direitos autorais dos escritores?

Normalmente as editores pagam ou uma quantia em dinheiro (mínima, pois os meus projetos envolvem sempre muitos autores) ou uma cota em livros. Como organizador, evidentemente, recebo mais. Eu tenho, nos últimos 5 anos, “sobrevivido” de literatura. O que ganho com direitos autorais daria, certamente, para “sobreviver”, mas não para “viver”. De qualquer modo, o que ganho aumenta o meu orçamento doméstico, já que tenho o meu emprego de professor de literatura na UFPB. São bem poucos os autores que “vivem” de literatura no nosso país. Agora, tem alguns aí que, como eu, “sobrevivem”...

Como foram abertas as portas das grandes editoras, a exemplo da Garamond e da Geração Editorial?

As da Geração Editorial, como já indiquei acima, foram abertas por ocasião da preparação da antologia do José Nêumanne Os cem melhores poetas brasileiros do século e, logo em seguida, com a organização de minha antologia O Clarim e a Oração. Quando resolvi preparar a segunda antologia de artigos e ensaios, a intitulada Chico Buarque do Brasil, levei o projeto para o editor Luís Fernando Emediato. Ele achou interessante, mas me disse que só publicaria o livro se eu agregasse ao mesmo um CD com músicas de Chico Buarque. Fui ao Rio, tentei com os colaboradores de Chico, mas isso envolveria gravadoras, um universo que desconheço, pelo qual não sei transitar. Como Emediato fincou pé, dizendo que só publicaria o livro com o CD, apareceu, por intermédio de minha amiga Maria Alzira Brum Lemos, que era assessora de imprensa da Garamond, o convite para apresentar ao editor Ari Roitman (proprietário da Garamond) o projeto do livro. Ari aprovou-o imediatamente. Chico Buarque do Brasil foi lançado em 2004 e teve um sucesso maravilhoso, de mídia e de vendas. Com dois anos e meio de lançado, já está na quarta edição.

Como tem sido o feedback com os leitores?

Eu diria que é a parte mais apaixonante de tudo isso. É incrível como meus livros são bem recebidos por leitores de todo o país. Recebo e-mails quase que diariamente de gente falando bem de meu trabalho, querendo me conhecer. Por onde ando, fazendo lançamentos ou palestras, recebo a boa acolhida dos leitores. Às vezes, tem gente que pega a fila de autógrafos com todos os meus livros nas mãos, como aconteceu ano passado em Brasília, na UnB. Você não imagina como isso é gratificante. Uma leitora carioca do Chico Buarque do Brasil passou-me um e-mail pedindo minha opinião sobre o fato de Chico ter sido flagrado na praia com uma morena. Eu disse: “Eu não sei falar sobre isso, me perdoe, é difícil...”. Ela mandou um outro e-mail, sorridente: “É que eu estou frustrada. Queria ser aquela morena...”. O público feminino do Chico é mesmo enorme e, em certos casos, engenhoso!

Um dos seus livros mais vendidos é esse sobre o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda. Como surgiu a idéia de editá-lo?

Em meados dos anos 90, fiz meu mestrado em literatura, aqui na UFPB, sobre Chico Buarque. Passei três anos estudando suas letras, analisando as canções que tematizavam a mulher. Nesse momento eu li o que achei – e foi muita coisa! – sobre o compositor e escritor. Quando, em 2004, após ter publicado O Clarim e a Oração, resolvi preparar o Chico Buarque do Brasil, eu já tinha essa base do mestrado, já me sentia à vontade para, agregando mais algumas pesquisas, organizar a antologia. O mestrado foi decisivo. Eu só organizo um livro se me sinto preparado. É uma coisa fundamental no trabalho do antologista – o preparo.

Esse livro já chegou às mãos de Chico? O que ele achou?

Num gesto de cavalheirismo, enviei o livro para ele, mas não obtive resposta. Chico já sabia do livro, inclusive, num primeiro momento, pareceu disposto a me dar uma entrevista. Mas depois desistiu. Aliás, por ocasião de seus 60 anos, Chico não deu entrevista para ninguém. Foi um critério dele, respeitei.

O gênero literário com o qual o senhor mais se identifica? O conto, o romance ou a novela?

O conto. É um gênero que pode conter lirismo, drama, tragédia. Um bom conto traz toda a temática de uma novela ou mesmo de um romance. Gosto de sua forma concentrada, compacta. Mas admiro também os demais gêneros ficcionais. Acabei de escrever a novela Rita no pomar, que pretendo publicar mais adiante. É a minha primeira experiência com uma narrativa mais longa.

O senhor é professor universitário. Como se encontra hoje o ensino da literatura na Universidade?

A Universidade, com suas pesquisas, dá uma enorme contribuição para o ensino de literatura. Com as exceções de sempre, o melhor da crítica que se faz hoje no Brasil vem da Universidade. Todo bom crítico de algum modo teve que absorver a produção acadêmica. E os resultados dessas pesquisas, quase sempre, são carreados para a sala de aula. Na sala de aula, além das obras, trabalhamos sempre com grandes ensaios, com análises consistentes de contextos e de textos literários. Embora com as dificuldades de sempre, como os investimentos em livros para as bibliotecas, ou com a falta de verbas para as editoras, especialmente as de universidades nordestinas, ainda assim a nossa produção acadêmica, no que diz respeito à literatura, é de muito valor.

A violência é uma temática recorrente em alguns textos e obras suas. O que tem a falar sobre isso?

Um escritor quase sempre aborda um determinado tema com a finalidade de fazer o leitor refletir sobre ele, mas refletir se sensibilizando, se humanizando. É papel histórico da arte humanizar (ou pelo menos tentar humanizar) as pessoas. O tema da violência em meus contos tem essa função. Eu não sou e não quero a violência para ninguém. Mas reconheço que vivemos numa sociedade, em certo sentido, bárbara, numa sociedade injusta, perversa em vários aspectos. Uma sociedade injusta gera como resposta, entre outras coisas graves, a violência, a crueldade. Escrevo para sensibilizar as pessoas. A antologia Contos Cruéis, que organizei em 2006 e que reúne grandes autores brasileiros da atualidade, traz cenas das mais brutais do nosso cotidiano. Essa brutalidade que está na temática e às vezes na linguagem dos autores, é importante para fazer o leitor, através do distanciamento próprio do texto literário, refletir.

Quais são seus projetos editorais e literários para o ano de 2007?

Devo publicar, por uma editora de São Paulo, minha novela Rita No Pomar, que virá junto com cinco contos. Entre os contos está “Beleza”, com o qual obtive recentemente o Prêmio Nacional de Contos do Paraná, um dos mais tradicionais da literatura brasileira. A novela, que no final é muito violenta, se passa numa fictícia praia paraibana e tem como protagonista uma paulistana que vive e conversa com um cachorro. Para a minha alegria, a novela recebeu um competente posfácio de Silviano Santiago, um dos maiores críticos brasileiros. Continuarei fazendo antologias, sempre com muito critério, trabalhando muito nelas. Neste momento – e estou revelando em primeira mão – preparo uma coletânea sobre Machado de Assis, para sair em 2008.

Adriana Crisanto

adriana@jornalonorte.com.br

adrianacrisanto@gmail.com

Publicado no caderno Show do Jornal O NORTE, em janeiro de 2007.