Som da Terra



Munido de uma enxada o poeta, arte-educador e percussionista paraibano Babilak Bah esteve de passagem por João Pessoa para divulgar o seu mais recente trabalho, o disco “Enxadário: Orquestras de Enxadas”, lançado no final do ano passado em Belo Horizonte (MG), onde reside atualmente.
O disco consiste num trabalho experimental de percussão. O CD contém onze músicas. Dez de sua autoria e a última faixa “Xote dos Poetas”, uma canção de autoria de Zé Ramalho e José Carlos Capinam. Música pouco conhecida e aqui ganha uma nova adaptação e interpretação. A canção é uma homenagem de Capinam e Zé Ramalho aos poetas.
O Enxadário de Babilak desafia o entendimento do que seja a música experimental do mundo. Os sons que saem das enxadas misturam-se aos instrumentos clássicos de forma que há pouco acordo sobre quão experimental uma música pode ser, antes de ser considerada apenas ruído.
Geralmente as bandas experimentais possuem instrumentos pouco conhecidos, modificados, ou utilizados de maneiras inovadoras; efeitos estranhos aplicados de formas pouco convencionais que misturam gêneros opostos, como música eletrônica e música clássica, por exemplo. Mas, a música produzida por Babilak desafia todas as concepções normais de como uma música deve ser, e extrapola os limites popularmente conhecidos.
As músicas são um pouco de tudo isso, com a diferença que existe um conteúdo “estético bacana” (como diria Zeca Baleiro), pois carrega consigo um apelo social forte, uma vez que reflete a voz dos trabalhadores rurais e chama atenção para questão do trabalho, da terra e das etnias no Brasil. O registro é ao mesmo tempo simbólico, traz um signo, a enxada, em que o artista denuncia o diabólico (a questão da Reforma Agrária e do êxodo rural).
O trabalho é resultado de mais de oito anos de pesquisa e várias oficinas ministradas para meninos de ruas e portadores de doenças psíquicas. Acompanham Babilak Bah neste trabalho músicos mineiros. Pode-se dizer que esse registro musical está inserido na concepção de “obra aberta”, ou seja, quando o artista permite que outras pessoas possam intervir no trabalho, ajudando a compor ou modificar algo dentro daquilo que o artista desenvolve, para que as subjetividades possam dialogar e dela sair um produto. “Eu gosto de dizer que esse trabalho não é apenas um trabalho de música, mas um trabalho poético, antropológico, sociológico, político e cultural”, acrescentou.
Ao olhar profundamente percebe-se neste “Enxadário” um trabalho biográfico do artista, pois nele está contido um pouco da história de vida de Gilson César da Silva, seu nome de batismo, filho de uma empregada doméstica e mãe solteira, dona Iracema Gomes da Silva, que resolve largar a enxada e a dureza da fome em Sapé, município localizado a cerca de 55 quilômetros da Capital, João Pessoa, para criar os filhos na Capital.
Da mãe, que também era emboladora de coco de roda, herdou o gosto pela palavra. “Cresci ouvindo seus cânticos e rimas populares de tom surrealista e às vezes, mera lenda. Aos 5 anos fugia para um bar próximo de casa para cantar e extrair som do corpo; voltava com os bolsos cheios de moedas e sorrisos que contaminavam toda família”, comentou.
Na infância batucava em pratos, latas, garrafas e rabiscava poemas na parede do banheiro para desespero de sua mãe. Habituado a solidão, criava mil histórias. Ele conta que foi criado na rua ao som das discotecas, vivia em acampamentos nas praias com emboladores e repentistas populares. Na adolescência conheceu Jaguaribe Carne (Pedro Osmar e Paulo Ro), sua maior influência musical, e não perdia os festivais de música. “Foram encontros com pessoas notáveis que mudaram radicalmente meu destino”, disse.
Conviveu com Aderaldo Leite com quem partilhou bares e a filosofia de Nietzsche, Bacunin, Gramsci e nomes que ajudaram a construir a sua revolução. Através de Maria de Nazaré Zenaide, psicóloga na associação de moradores do conjunto Tambaí, na cidade de Bayeux, aprendeu a valorizar a cultura popular, a negritude e conheceu os trabalhos de Pierre Verger, Naná Vasconcelos, Paulinho da Viola, Violeta Parra, Vítor Jarra e outros nomes da cultura latino-americana.
Envolveu-se com o movimento negro de João Pessoa e conheceu o multicultural, João Balula que percebeu suas inquietudes e o incentivou para o teatro e declamação de seus poemas, até então escondidos num baú. No final da década de 1980, ingressou na militância política, onde aprendeu a ter uma visão critica do mundo. Experimentou teatro, música e dança no curso de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e realizou performances em vários lugares do país. Morou em São Luis (MA), Recife (PE), Salvador (BA), Brasília (DF), Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG) e Buenos Aires.
Quando ainda residia na Capital era conhecido como Gilson Babilak, nome que registrou no seu segundo livro de poesia (Vôo Miragem). O nome Babilak nasceu nos tempos de acampamento na praia de Jacumã (litoral sul) ao começar tocar atabaque. “Uma pessoa na época disse que quando eu tocava um instrumento saia um monte de Babilak. Foi meu batizado”, revelou. O primeiro trabalho em Minas Gerais ele já assinava como Balilak foi quando resolver buscar suas raízes africanas e acrescentou o “Bah”, que é uma homenagem a cultura africana.
A primeira vez que viu alguém tirando som de uma enxada foi o percussionista Chiquinho Mino, num antigo projeto musical do Bar da Pólvora, centro histórico. “No outro dia corri numa feira e comprei uma enxada que tenho até hoje e se tornou à enxada mãe do projeto”, revelou. A enxada, enquanto instrumento percussivo no seu trabalho, só começou a fazer sentido durante a Eco 92, ao assistir a apresentação de um grupo folclórico na Bahia.
A paixão pela enxada levou o músico a criar 170 anagramas criados a partir da palavra enxada. Com isso criou também o dogma da enxada e o paradigma da enxada, que ele traz impresso na contra-capa do disco.
Hoje paralelo às atividades artísticas Babilak realiza um trabalho social com pessoas portadoras de comportamento psíquico, ou seja, os loucos. Esse trabalho consiste num projeto vinculado à Secretaria de Saúde do Município de Belo Horizonte (MG), órgão da Prefeitura Municipal. “Lá existe um movimento anti-manicomial, que pôs fim a todos os manicômios da cidade e a partir dessa ação foi criado um projeto substutivo ao manicômio, implantado em várias regiões de Belo Horizonte na forma de Centro de Convivência Social, onde os artistas da região passaram a trabalhar com as pessoas portadoras de doenças psíquicas”, explicou Babilak, que dá aulas de literatura e música em um dos centros sociais.
O trabalho com os portadores de doenças psíquicas resultou o seu primeiro registro musical intitulado “Trem Tan Tan”, que consiste num trabalho percussivo com pedaços de ferro, lixos e sucatas confeccionadas pelos próprios pacientes. “Trem Tan Tan” e “Enxadário: Orquestra de Enxadas” está sendo vendido em João Pessoa no Gabinete Cultural e no Sebo Cultural, no centro da cidade. Outras informações sobre o trabalho de Babilak Bah pode ser visto na internet, através do endereço eletrônico http://www.babilakbah.mus.br/ Outros contatos do artista são: babilakbah@hotmail.com ou (37) 9913.9650.

Serviço:
Enxadário: Orquestra de Enxadas
Balilak Bah (independente)
Onde encontrar: Gabinete Cultural e Sebo Cultural
Preço: R$ 17,00

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do jornal O NORTE, em fevereiro de 2007.