Canção em forma de fogo


Como um fogo que queima sem precisar de auxílio, o jornalista, radialista e poeta, Ricardo Anísio, lança hoje, a partir das 20h, no Parahyba Café (confluências das avenidas Epitácio Pessoa com Juarez Távora, em Tambiá, seu mais novo livro de poesias intitulado “Canção do Fogo” (Editora Bagaço, 120 págs). O lançamento será em forma de recital e contará com a presença do poeta popular Jessier Quirino, Marco Di Aurélio e Oliveira de Panelas.
Esta é a quarta publicação do autor. O livro foi escrito depois do “Canção do Caos”, outro livro de sua autoria que deverá sair em novembro deste ano. “Ricardo Anísio é o um exemplo de poeta possesso”, referiu-se Chico Viana que escreve o prefácio da obra que recebe ilustrações de Clovis Júnior.
O livro é um sacramento de comunhão solitária de Ricardo Anísio como a poesia que arde como fogo aceso em seu peito apaixonado. Solitária porque a chama crepita e despertam sonhos poéticos característicos do autor. Sonhos solitários que ele comunga com seus amigos.
O artista plástico e escritor W.J.Solha escreve o prefácio da obra em forma de ensaio. “É impossível ler esses poemas sem sentir vontade de lhe fazer alterações, do mesmo modo como tenho vontade de lhe fazer alterações, do mesmo modo tenho vontade de fazer alterações em versos de Affonso Romano de Sant`Anna e de Drummond”, escreveu Solha autor dos livros “Trigal com Corvos, A Canga e História Universal da Angústia.
Para falar um pouco sobre esse novo momento de sua trajetória conversei com essa figura polêmica que me salvou e colocou-me em contato com os meandros do jornalismo cultural. Nesta entrevista ele fala um pouco sobre o gosto pela poesia, suas influências, crítica musical, poesia e literatura paraibana. Leia:

Como surgiu o gosto pela poesia e a necessidade de tê-las publicadas em livro?
A poesia entrou na minha vida primeiro pela voz da minha mãe, que sempre achou mais importante que tivéssemos cultura do que um diploma. Ela lia poemas de Adalgisa Néri para mim, do livro Ocasos de Sangue, e eu ficava fascinado. Mas foi somente no início da década de 80 que eu resolvi publicar meus rabiscos poéticos no livro Em Cada Canto Um Verso. Outro entrada da poesia deu-se através das canções de Bob Dylan, de Chico Buarque, de Lou Reed e Jim Morrison, que me fascinaram.

Quais tuas maiores influências?

Meus poetas preferidos são Garcia Lorca, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, mas sinto que há uma forte influência também dos versos de Augusto dos Anjos e da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Na verdade eu raramente não gosto de algum poeta; só abomino mesmo a poesia concreta, os irmãos Campos e suas invenções inférteis.

Mesmo você sendo duramente criticado por seus livros de poesia um de seus textos foram indicados num processo seletivo de vestibular em Pernambuco, não foi isso? Qual é a sensação?
Na verdade não foram meus poemas que chegaram ao vestibular em Recife, mas sim um ensaio crítico que escrevi sobre a obra do compositor Maciel Melo, que considero da mesma estatura dos mestres Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O texto foi tema geral da prova de Língua Portuguesa da PUC-PE. Antes o meu livro MPB De A a Z havia sido tema da prova de português aqui em João Pessoa, no Unipê. Minha poesia é bem recebida pelo público e pela crítica pernambucanos, mas ainda distante do nicho acadêmico.

É mais fácil escrever poesias ou fazer crítica de música?
Se fosse fácil todo mundo era, como diz o poeta. Acho que ambos são difíceis, mas quando temos por ofício do cotidiano elas se tornam menos complicadas. Os poemas me dão mais prazer. Diria, parafraseando Rita Lee e Jabor que poesia é divina e a crítica musical é animal (risos). Para mim ambas são fáceis no sentido de que ambas me dão prazer. Mas a poesia requer um burilamento especial, às vezes levo uma semana trabalhando na linguagem de um poema, e às vezes ainda não me satisfaz o resultado. É mais fácil escrever crítica musical mesmo!

Como poeta é mais difícil de ser compensado por aquilo que escreve?
Sim, é. A minha poesia é repleta de metáforas e de palavras mais rebuscadas que, na comunicação via jornalismo, eu evito para que os leitores me compreendam sem a ajuda de dicionário ou do baú da memória e do conhecimento. No poema eu até acho que ele tem essa função didática: o leitor vê uma palavra que não conhece e, para entender o verso, consulta o dicionário e fica com o vocabulário enriquecido. Eu aprendi boa parte do pouco que sei de português lendo Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Érico Veríssimo. A poesia requer rebuscamento infinitamente maior.

O que mais te intriga na literatura e na poesia paraibana atualmente?
Na arte as coisas nunca me intrigam, mas me instigam. A literatura de W J Solha, por exemplo em História Oficial da Angústia, me instiga. Os poemas de Sérgio de Castro Pinto e a música de Escurinho, me instigam. Me instiga a beleza inocente da pintura de Clóvis Júnior e os desenhos fantásticos de Flávio Tavares. Me instigam demais os contos de Marília Arnaud e os romances de Mercedes Cavancanti. Me instiga o romance de Aldo Lopes, o cinema de Marcus Vilar e o teatro de Tarcísio Pereira. Enfim, a arte original e rica me instiga. O que me intriga é aquilo que eu não entendo, como exemplo a tal arte conceitual, as instalações.

O sucesso do seu trabalho “MPB de A a Z” de certa forma contribuiu para que a editora Bagaço apostasse nesta publicação?
Não. Decididamente não. Na verdade eles nem conheciam meu livro sobre música. O que aconteceu é que fui ‘apadrinhado’ por escritores como Luiz Berto, Paulo Carvalho, Joselito Nunes e pela escritora e professora de Literatura Brasileira, Haidée Camelo Fonseca. Eles e mais os músicos pernambucanos se impressionaram com os meus poemas publicados no jornal eletrônico Jornal da Besta, e degustaram meus poemas com sabor diferente do que estavam acostumados a ler.

Qual música e qual poema você daria tudo para ter feito?
A música seria Hard Rain’s a Gonna Fall, de Bob Dylan, e o poema seria Fumo, de Florbela Espanca. Não sei se exatamente por questões estéticas ou de qualidade, mas talvez porque me tocaram de forma definitiva. A canção de Dylan por exemplo, é um dos poemas mais belos e instigantes que já li-ouvi. É um diálogo metafórico entre uma mãe e um filho que prevê a Bomba Atômica antes dela ser covardemente criada e usada.

Muitos jovens jornalistas desejam ingressar no jornalismo de cultura, fazer crítica de música. Que conselho você daria para os aspirantes a críticos?
Que antes de mais nada leiam tudo quanto puderem. Que ouçam música diariamente como eu faço, que vejam filmes incessantemente, que freqüentem o teatro e que fiquem atento a linguagem plástica dos artistas contemporâneos e dos clássicos. Depois disso, que eles se preparem para separar o coração da razão. Há coisas que eu ouço em casa, mas que não elogiaria ao escrever. Também já escrevi mal sobe obras de amigos. O crítico só será honesto quando, ao escrever, colocar o coração fora do peito. A isenção e a certeza de ter feito uma avaliação isenta é que fazem o crítico ser respeitado, mesmo que ele cometa erros, por ser humano.



Adriana Crisanto

Jornalista



Foto: Divulgação do escritor

Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O Norte no dia 28 de março (quarta-feira).