Frevo ou samba?


"Frevo ou samba? Swingue bamba... mandinga de pagé"


As músicas que sempre embalaram o carnaval dos brasileiros de norte a sul do país estão agora registradas em dois discos duplos lançados pelo selo Biscoito Fino. São eles: “Sassaricando e o Rio inventou a marchinha e 100 anos do Frevo é de perder o sapato”.
O primeiro a ser lançado pelo selo, no finalzinho do mês de janeiro deste ano, foi “Sassaricando e o Rio Inventou a Marchinha” que reuniu um elenco artístico e profissional de primeira linha para contar a história cronológica das marchinhas de carnaval. As músicas são registro musical do Rio de Janeiro das décadas de 20, 30, 40 e 50 onde os compositores da época faziam uma espécie de crônica da cidade e do país.
Por muito tempo a cidade do Rio de Janeiro e os cariocas haviam esquecido a sua cultura popular que agora resgatam com maestria neste trabalho muito bem pensado. Os idealizadores da edição foram os pesquisadores em música popular brasileira Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral que assinam o texto de abertura do encarte do disco.
Para interpretar as canções foram convidados Eduardo Dusek, Soraya Ravenle, Pedro Paulo Malta, Alfredo Del-Penho, Juliana Diniz e Sabrina Korgut. Foram tantas músicas encontradas pelos pesquisadores que elas foram divididas no primeiro disco em blocos (Comportamento, Entre quatro paredes, De onde vem o dinheiro?, Cidade que me seduz). Cada bloco com seqüência de três a seis músicas juntas.
Nos dois discos estão canções de Lamartine Babo (Ai, hein?, Infelizmente, Cantores do rádio, Linda Morena), Ary Barroso (A casta Suzana), Noel Rosa (Você, por exemplo, prato fundo), Mário Lago (Aurora), Max Nunes (Bandeira branca), João de Barro (Yes, nós temos banana, Cadë Mimi, Touradas de Madri, Chiquita Bacana, Garota de St. Tropez, Linda loirinha), Germano Augusto (A mulher do padeiro), Roberto Martins (Pedreiro Waldemar), Mirabeu (Turma do funil, Cachaça), Zé da Zilda (Saca-rola) e tantas outras.
Neste elenco de antigas marchinhas está presente o nosso querido Livardo Alves com sua “Marchinha da Cueca”, composta em parceira com Carlos Mendes e Sardinha (faixa 8) e Meu Brotinho de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Para compor este imenso trabalho os idealizadores escutaram mais de mil músicas. “Haverá certamente a ausência de uma ou outra marchinha neste disco”, comentou Sérgio Cabral. E de fato existe uma lacuna. Faltaram canções símbolos do carnaval, a exemplo de “A Jardineira”, “Malmequer”, “Me dá um dinheiro ai”.
Para compensar a ausência o selo Biscoito Fino lançou, dia 9 de fevereiro (data em que pela primeira vez a palavra foi publicada na imprensa pernambucana) o CD duplo “100 anos do frevo é de perder o sapato”. Enquanto o disco das marchinhas se guia pela sociologia do cotidiano carioca do século passado, o disco do frevo pernambucano se vale da história e das richas entre os puristas admiradores do frevo instrumental e dos modernistas com seus frevos-canção com sabor pop e temática contemporânea, para contar, em forma de música, como a música aconteceu e se tornou tão popular. E de fato é impossível passar despercebido por elas sem ao menos cantarolar. Mas, o disco deixa no ar uma dúvida: O frevo é uma dança ou uma música?
Valdemar Oliveira, no livro “Espetáculos Populares de Pernambuco” (Ed. Bagaço, 1999), já dizia ser impossível distinguir bem: se o frevo, que é a música, trouxe o passo ou se o passo, que é a dança, trouxe o frevo. “As duas coisas foram se inspirando uma na outra e completaram-se”, dizia ele.
Dança ou música o fato que o “blockboster”, para usar uma palavra moderna, promete ser o maior sucesso deste ano no gênero. É no passo dessa dança que o CD duplo traz uma primeira parte inteiramente instrumental (para agradar os puristas) com frevos como Três da Tarde (Lídio Macacão), Aninha no Frevo (Clovis Pereira), Duas Épocas (Edson Rodrigues), Último Dia (Levino Pereira), Luzia no Frevo (Antônio Sapateiro), Mordido (Alcides Leão), Gostosão (Nelson Ferreira), Cabelo de Fogo (Nunes).
Uma das músicas que destacaria é execução primorosa da peça instrumental “Fantasia Carnavalesca” de Clovis Pereira, baseado em Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, executada pela Orquestra Sinfônica de Pernambuco (OSPE), sob a regência do maestro Osman Giuseppe Gioia, gravada ao vivo numa bela apresentação em 7 de novembro de 2006, no Teatro de Santa Isabel, em Recife.
O segundo disco vozes de artistas conhecidos da música popular contemporânea brasileira são a tônica dos frevos. No elenco de estrelas estão: Gilberto Gil, Maria Bethânia, Lenine, Maria Rita, Alceu Valença, Vanessa da Mata, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Luiz Melodia, Edu Lobo, Silvério Pessoa, Geraldo Maia, Nena Queiroga, Claudionor Germano, Antônio Nóbrega, Lígia Miranda, Nena Queiroga, Rosana Simpson e Vanessa Oliveira.
O jornalista e crítico de música paraibano, radicado pernambucano, José Teles, que assina o texto do encarte, diz que o frevo evoluiu e cita a “Spokfrevo Orquestra”, conduzida pelo maestro Inaldo Cavalcanti, mais conhecido por Spok que tem esse nome devido às orelhas de lóbulos pontudos como o do personagem doutor Spok do seriado da televisão. José Teles, autor do livro “Do Frevo ao Manguebeat” (Ed. 34), se refere ao maestro Spok como a nova revelação do frevo pernambucano. “Ele chegou como uma nova concepção de arranjos e orquestração, tocando frevo para ser também ouvido, não apenas dançado”, avalia o jornalista. E Spok é presença marcante neste disco. Em boa parte das canções o nome dele é citado, não apenas tocando seu sax alto, mas compondo arranjos e com sua SpokFrevo Orquestra.
O CD duplo é uma mistura das três categorias de frevo claramente identificáveis: o frevo-de-rua, a marcha de bloco e o frevo-canção. E nesse “Frever” que se misturam os ritmos que o frevo tem atravessado fronteiras sendo conhecido mundialmente como uma música alegre e vibrante, que encanta e empolga. Para conhece-lo, não é suficiente apenas olhar a multidão passar, é preciso deixar a música fluir por todo corpo. O frevo é isto: um convite ao prazer, à diversão e à alegria.

Adriana Crisanto

Jornalista



Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em fevereiro de 2007.

OBS: Só agora lembrei de postar....rssss... desculpem...