"O teatro é a arte da crise"


Após a ameaça de fechamento da casa de espetáculos Ednaldo do Egypto o “teatro” passou a ser o principal assunto nas conversas de quem entende e quem não entende também. O caminho não é dos mais simples para quem se aventurou ou tenta sobreviver do teatro. A falta de espaço para atuar, baixos salários, poucos espetáculos, preço das pautas impraticáveis para produção local, casas de teatro adequadas, a competitividade entre os companheiros são alguns dos fatores que fazem com que muita gente boa se perca nesta dura caminhada. Sem falar na ausência de uma política cultural que não seja discriminatória.
Há muito se fala sobre "crise dos teatros", e esquece-se freqüentemente que a crise, qualquer crise, é sempre um ponto de ruptura de uma falsa estabilidade. Crise pressupõe que se vai operar qualquer modificação no status quo. Crise é, portanto, fonte de movimento e nunca de estagnação. Claro que no teatro, como em qualquer situação da vida, há a posição passiva e a ativa de seus representantes, ou seja, há os que reagem e ensaiam soluções, e há os que aceitam. Prudência e bom senso têm conduzido algumas pessoas das áreas da cultura, como no teatro, a muitos becos sem saída.
Para falar sobre todo os assuntos relevantes dessa crise que passa o teatro paraibano convidamos um especialista no assunto, o único doutor em teatro do Estado, o professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal da Paraíba (DAC/UFPB), Paulo Vieira. Nesta entrevista o dramaturgo fala sobre a crise no teatro, faz um diagnóstico sobre os principais teatros da Capital e comenta sobre outros assuntos. Leia:


Quantas vezes o senhor ouviu a afirmação de que o teatro está em crise?

Risos. Desde que comecei a fazer teatro. Teve um momento que chegava a dizer que o teatro a arte da crise. Quando eu comecei a fazer teatro existia a Confenaca e a Federação Paraibana de Teatro Amador, em nível nacional, que organização os movimentos amadorísticas do teatro. A Confenaca desapareceu, mas hoje acho que existe ainda a Federação sob o comando de Balula, mas sem a mesmo poder de ação que tinha quando eu comecei a fazer teatro. Tempos depois apareceu o Sindicato de Artistas e Técnicos de Espetáculo. O que aconteceu foi que o sindicato foi criado a partir de uma ação de um grupo muito pequeno com pouca representatividade na classe teatral. O primeiro diretor do sindicato começou a exigir que as produções tivessem compromissos sociais iguais ao que uma empresa normal tem de manter com seus empregados. Às vezes você estava com o espetáculo preparado para entrar no palco e chegava o sindicato mandando parar o espetáculo.

O que está acontecendo com o teatro paraibano?

O que está acontecendo duas coisas. Um problema de políticas públicas, que não é um problema exclusivo da Paraíba. As leis de incentivo solucionam uma parte do problema quando elas permitem a produção do espetáculo, mas a demanda é maior do que a oferta. Há muito mais espetáculos para serem feitos do que dinheiro para produção. E isso as leis de incentivo não conseguem cobrir. Até porque uma lei de incentivo não discutida no teatro. Ela é abrangente. Por exemplo, o FIC, é uma lei que abarca desde a recuperação do patrimônio histórico até a produção de filmes. São duas pontas bastante caras na produção cultural. O teatro tanto pode ser feito com muito como pode ser feito com pouco dinheiro, depende do projeto. Na outra ponta tem a organização do mercado. Talvez essa ponta precisasse de uma discussão interna em nível profissional.

Então, como fazer para manter um espetáculo em cartaz?

É difícil manter um espetáculo muito tempo em cartaz aqui, pois esbarra numa série de dificuldades. Os espetáculos produzidos em João Pessoa preferencialmente se apresentam no Teatro Santa Roza. É tanto que a pauta do teatro vive lotada o ano inteiro. Não só com os espetáculos daqui como os de fora.

E os outros teatros da cidade por que não são ocupados?

Ai você tem uma série de problemas. Por exemplo, o teatro da Fiep, um teatro regular, tem uma boa estrutura de cadeiras, de platéia, mas o palco não é tão bom, mesmo assim ainda dá para fazer espetáculos de qualquer forma, mas por outro lado tem um preço alto da pauta para a produção local. Teatro Ednaldo do Egypto tem uma pauta barata, mas em compensação tem uma platéia pequena, que para determinados espetáculos, como os de Edílson Alves, por exemplo, não comporta o público que ele tem. Tem ainda os problemas de infraestrutura. O Teatro Paulo Pontes tem problemas de infraestrutura. O próprio Santa Roza precisa fechar as portas para reparar sua estrutura sempre. E é a jóia da coroa no meu ver. Na verdade, talvez o que precise é que os profissionais de teatro sentem frente a frente para discutir os problemas do teatro e não apenas os problemas da cultura, que muito mais abrangente. Isso fica com as secretarias de cultura, com o Ministério da Cultura.

Que outros problemas o senhor apontaria?

Os problemas do teatro têm ser discutidos por gente de teatro. Tentar encontrar o caminho para atuação profissional. Existe ainda uma outra ponta que se chama o mercado publicitário. As produtoras de propaganda da Paraíba quando precisam de ator manda buscar no Recife quando aqui temos ótimos atores de teatro. Por que eles se prontificam a pagar mais ao ator do Recife e a não pagar às vezes nada ou muito pouco ao ator local? Talvez seja a carência de uma interferência nossa enquanto profissionais de teatro nesse segmento. Talvez a gente precise chegar perto deles e mostrar que temos profissionais de qualidade. As perspectivas são difíceis, mas podem ser dirimidas sem nós deixarmos que o poder público resolva tudo. Resolver por nós mesmos determinados problemas.

O que a classe artística tem feito para reverter esse quadro?

Há quatro anos atrás nós criamos um fórum de teatro pela internet muito intenso, que ainda está lá vivo, contra a falta de uma política cultural. Esse movimento foi para as ruas, entregamos documentos às autoridades. O resultado disso foi: quando o novo governo entrou, Cida Lobo assumiu a subsecretaria de cultura e graças ao trabalho das duas secretarias podemos ter aquilo que reclamávamos no governo anterior, que era a falta de uma política cultural. Tivemos uma política cultural. Foi criado o FIC, que efetivamente funciona, mas em relação ao teatro especificamente, talvez nós tenhamos nos acomodado à situação nova. Começamos a imaginar que o FIC fosse a solução dos nossos problemas, quando na verdade não é. Ele é um apoio na produção.

E como o senhor avalia às leis de incentivo a cultura?

Esse é um problema muito sério. Porque agora mesmo na virada do ano, a Lei Rouanet, do governo federal, era especificamente uma lei de cultura. Hoje ela é uma lei de incentivo a cultura e esporte. O esporte tem um apelo popular muito maior, que bem ou mal, tem muito mais facilidade para se conseguir financiamento junto as grandes empresas divide hoje a mesma migalha da cultura. Só que a migalha da cultura a tendência é de que o dinheiro migre para o esporte.

Já aconteceu algum caso, aqui na Paraíba, em que o dinheiro de uma empresa que era destinada à cultura foi para o esporte?

Eu tive uma experiência em relação a essa migração com um projeto que venho tentando recurso. Cheguei numa grande rede de lojas daqui para tentar captar recursos e soube que o dinheiro que era para ter sido investido em cultura estava sendo revertido para um time de futebol na Bahia. Um grande empresário que tem dinheiro para investir na cultura não fazer isso, porque o apelo de público é muito menor do que um time de futebol.

Fale-se muito que a internet, os shoppings, as TV´s pagas, os cinemas afastaram o público do teatro, mas o que o teatro tem feito para substituir isso?

O teatro é uma arte muito antiga. Não sei se ela compete com outros meios de comunicação. Eu tenho impressão não é um problema maior. Acho que é muito mais profundo e séria na relação do teatro com o público que é a educação ou a não educação para o teatro. Tenho a impressão de que se por um lado tem os modernos veículos que podem potencialmente roubar o público do teatro. Eu acho que isso é uma meia verdade. Porque a verdade absoluta é a falta educação para população brasileira que faz com que ela sequer tenha o trabalho de pelo menos conhecer a beleza que é o prédio do teatro Santa Roza, por exemplo. Ter a curiosidade de entrar e conhecer o prédio. Muitos passam ignorando. O público do teatro existe. Ele pode chegar a qualquer lugar. Diversas vezes eu vi atores fazendo intervenções, espetáculos, performances, dentro dos shoppings. O leque em que um ator pode atuar é muito grande.



Adriana Crisanto

Jornalista



Foto: Divulgação

*Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O Norte, terça-feira, dia 27 de março. Dia Internacional do Teatro e do Circo.