Paixão de Humberto


Técnicas de circo e a verticalidade do teatro de rua são alguns aspectos inseridos no espetáculo “Jesus, uma Paixão”, montagem teatral promovida anualmente pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), durante a Semana Santa, na Praça do Bispo, em João Pessoa. O ator e diretor, Humberto Lopes, foi o escolhido para dirigir o espetáculo religioso que narra sobre a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, na visão das mulheres.
Humberto Lopes e Celly Freitas (autora do texto) concorreram ao edital de seleção da Funjope com outros três de diretores locais. Essa é a quarta vez que Humberto participa de montagem sobre a história de Cristo. Há cerca de 12 anos ele produziu três espetáculos, da mesma natureza, na gestão do então secretário de educação Raimundo Nonato.
A montagem será diferente dos anos anteriores. Ela estará fundamentalmente centrada nas técnicas do espetáculo de rua, com o uso da verticalidade. Terá o espaço urbano como cenário e uso das técnicas de circo, sem deixar de fora os aspectos da cultura popular.
Uma das coisas que incentivou o diretor a concorrer o edital para encenação do espetáculo foi o fato de ser uma montagem centrada no ponto de vista das mulheres. “Costumo dizer para alguns amigos que estou dirigindo o espetáculo com meu lado feminino”, se diverte o diretor que sempre esteve ligado aos órgãos que apóiam a luta pelos direitos das mulheres no Estado.
“A concepção do espetáculo em si é como se ele não existisse, uma coisa de mesa-teatro, que tenta aproximar o Deus do humano” explicou Humberto Lopes. A história é narrada no plano da realidade (dias atuais) e no plano da memória que são os acontecimentos ocorridos no passado histórico. A memória será mantida através dos figurinos do espetáculo e no cenário.
No papel das lavadeiras narradoras da história de Cristo estão as atrizes: Patrícia Braz, Melânia Silveira e Francijane Cavalcanti. O personagem central Jesus será interpretado pelo ator Daniel Porpino e Maria será dramatizado pela atriz Valeska Picado. No elenco estão ainda os atores: Ângelo Guimarães (Judas), Fernando Teixeira (Caifás), Vladimir Santiago (João Batista), David Muniz (Pilatos), Neto Ribeiro (Herodes), Kilma Farias (Salomé). Interpretando os evangelistas estão os atores: Joti Cavalcanti (Pedro), Joevan Oliveira (Tiago), Felipe de Oliveira (André) e Paulo Henrique (João).
Além dos 55 atores em cena Humberto coordena uma equipe com cerca de 150 pessoas. São técnicos de luz, som, imagem, maquilagem e outros tantos profissionais. A parte cantada de “Jesus, uma Paixão” será realizada por um coral de vozes femininas e uma orquestra de pequena formação que serão coordenadas pelo maestro Carlos Anísio.
Uma das características do espetáculo é a utilização do tempo e espaço urbanos e nesta montagem, de acordo com Lopes, todos os espaços da praça serão aproveitados de uma forma ou de outra. Como o espetáculo está centrado na imaginação das lavadeiras os elementos do circo vão ajudar a compor a idéia essencial do teatro que é o caráter lúdico.
A proposta de Humberto Lopes é que o espetáculo seja encenado uma média de dez vezes, durante toda a Semana Santa. “Essa gestão deu uma nova cara ao projeto, à medida que foi democratizado o acesso à Paixão de Cristo e valorizado o artista local”, destacou.

Sobre o Diretor

Humberto Lopes nasceu em Alto Santo (sertão do Ceará), mas desde da infância reside em Campina Grande, município localizado a cerca de 118 quilômetros, da Capital, João Pessoa. Toda a formação artística foi em Campina Grande, onde participou de todo movimento artístico-cultural das décadas de 1970, 1980 e 1990.
Embora venha de uma formação católica Humberto diz que foi seminarista, espírita, comunista, e ateu e mesmo não sendo um católico fervoroso diz que a espiritualidade está em tudo e acredita que o mundo ainda não piorou porque as pessoas ainda acreditam em Deus. “Trabalhar com um tema como a Paixão de Cristo termina transformando a gente em pessoas melhores ou mais sensíveis que já é melhor”, disse.
Há cerca de 20 anos que atua em teatro. Sempre esteve ligado ao teatro de rua, embora seu processo criativo abarque várias coisas ao mesmo tempo. Coordena o grupo “Quem tem boca é para gritar” com quem já produziu 16 montagens teatrais de rua e 10 de palco. Foi ator e diretor de “A Feira”, “Lampião vai o inferno buscar Maria Bonita”, “Paixões urgentes”, “A árvore dos mamulengos” (vencedor de prêmio em festivais de teatro no Paraná), “Trupizupe o raio da silibrina” (texto de Bráulio Tavares), “A festa do Rei”, “As aventuras de uma alucinada”, “Quem tiver achando ruim que saia”, “Quatro na Lona”, “A farsa do advogado Pathelin” (espetáculo com penas de pau), entre outros.
No cinema atuou no filme “A Sintomática Narrativa de Constantino”, do diretor Carlos Downling, “Por Trinta Dinheiros”, filme de Vânia Perazzo, e recentemente gravou cenas para minissérie A Pedra do Reino.

Adriana Crisanto
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Fotos: Arquivo O Norte
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte, 4 de março de 2007.