Teatros pedem socorro


Enquanto os grupos de artistas se reuniam para elaborar um documento manifesto a ser entregue as autoridades públicas, reivindicando melhorias na política cultural do Estado e do Município, o diretor do Teatro Ednaldo do Egypto, Fabiano do Egypto, se contorcia com a possibilidade de ver o teatro, herdado de seu pai, fechar as portas em definitivo, devido aos prejuízos financeiros que ultrapassam a R$ 3,6 mil.
Após a divulgação na imprensa de que o teatro fecharia suas portas, Fabiano do Egypto recebeu convite de dois políticos para uma conversa e verificar a possibilidade de resolver a situação do não fechamento da casa. “Se até o final dessa semana não conseguir resolver a situação, infelizmente vou ter fechar as portas do teatro e vender para alguma empresa ou igreja”, desabafou o diretor do teatro que teve, em 2006, uma receita total inferior a R$ 21 mil.
Fabiano do Egypto diz que há muito tempo vem procurando apoio dos órgãos públicos do Estado e do Município sem obter sucesso. Ele contou que no ano passado o único órgão que teve interesse em ajudar foi a Prefeitura Municipal, mediada pelo Vereador Fúba, na tentativa de obter isenção dos impostos municipais, no entanto, o prefeito Ricardo Coutinho, não encontrou respaldo legal na Lei de Responsabilidade Fiscal.
A proposta apontada foi à realização de um convênio entre a administração pública municipal e o teatro para realização de oficinas e cursos para os estudantes da rede municipal. O valor estipulado foi de R$ 3 mil por mês. Mas, o acordo esbarrou na Secretaria de Educação do Município, que alegou não ter condições de arcar com os custos do IPTU do imóvel, além do salário de dois funcionários: um iluminador e uma secretária.
Sobre essa questão Fabiano do Egypto disse que não pediu a prefeitura descontos no IPTU, mas adiantou que o valor do imposto a ser pago pelo teatro este ano será de R$ 1.319,06. “Fora à taxa do lixo. Não tenho condições infelizmente”, contou emocionado. A reportagem procurou o secretário de educação do Município, Walter Galvão, durante toda a manhã e o mesmo não pode atender por está despachando os diretores das escolas.
Fabiano do Egypto diz que viu nascer aquele teatro de um sonho de seu pai. “Ele tinha um sonho de erguer o primeiro teatro particular do Estado e conseguiu”, disse. Ednaldo do Egypto conseguiu construir o teatro com o dinheiro de sua aposentadoria de professor universitário, coisa inédita nesse país.
O teatro tem 172 lugares e um sistema ainda precário de refrigeração. , foi palco de espetáculos como o show de lançamento do CD “Aos vivos”, de Chico César, as comédias “Vovô viu a uva” e “Vovó viu a ave”, com Cristovam Tadeu, humorísticos com Zé Lezin, Piancó, Márcio Tadeu e peças infantis como “Os três porquinhos”, “Os três mosqueteiros”, “Rock monstro” e “Scooby-doo”. Este final de semana apresenta “Espantaram o espantalho” e, na próxima semana “O gato de botas”, ambas para crianças.

A pauta do Ednaldo do Egypto custa R$ 100. Com dois espetáculos por final de semana e dando público suficiente para que este valor seja cumprido, o rendimento após cinco finais de semana é de R$ 2 mil. Mesmo com alguma renda extra vinda de cursos e oficinas, que são irregulares, o montante somado é inferior aos mais de R$ 3 mil necessários para custear a casa. “Este é um teatro privado, que deveria dar lucro, mas a realidade tem sido bem diferente”, conta Fabiano, que já teve três funcionários e hoje conta apenas com um que acumula as funções de iluminador e serviços gerais.

Teatro Lima Penante

Na semana passada o Teatro Lima Penante, que pertence ao Núcleo de Teatro Universitário da Universidade Federal da Paraíba (NTU/UFPB), uma parte do fôrro do teatro caiu devido às infiltrações, interrompendo uma oficina de música que estava acontecendo no local. O diretor do NTU, o ator Edílson Alves, comunicou que o teatro ficará sem funcionar por cerca de 40 dias e que todas as atividades programadas estão sendo canceladas, até que dos órgãos da prefeitura universitária tome as devidas providências.
O laudo que interrompeu as atividades no teatro foi dado pela Divisão de Manutenção e Conservação da Universidade Federal da Paraíba (DMC/UFPB), a engenheira, Ligia da Silva Brito. “Os espíritos do teatro estão soltos”, comentou Edílson Alves, um dos recordistas em bilheteria nos teatros paraibanos.
A história do Núcleo de Teatro Universitário se confunde com a do Teatro Lima Penante, inaugurado no dia 08 de fevereiro de 1980. O Núcleo é subordinado a Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários (PRAC), setor responsável pelo estudo, pesquisa e produção teatral, através de ações extensionistas voltadas para o desenvolvimento cultural na região. As ameaças ao fechamento do Lima Penante também são constantes. Durante um tempo as atividades do NTU estiveram ameaçadas, pela falta de verba e de uma política cultural planejada, sem falar nas condições estruturais do teatro e no seu alojamento.
Apesar de ser considerado um teatro pequeno o Lima Penante possui uma boa acústica, o palco é elevado, tipo italiano, conta com 150 cadeiras, dois camarins, uma bilheteria, cabines de som e luz. Na noite de sua estréia quem subiu ao palco foi o espetáculo “A Noite de Matias Flores”, em que faziam parte do elenco: Ednaldo do Egypto (ator e diretor), Clizenite Assis, Ubiratan Assis, Carlos Lima, Osvaldo Travassos, Marcos Tavares e a atriz Nautília Mendonça, que se apresentou pela última vez.
O Núcleo de Teatro consiste num complexo físico de fundamental importância para o Estado, porque representa o resgate de anos de lutas e conquistas na relação universidade e movimento cultural, ao mesmo tempo em que concretiza nos espaços, planos e projetos de trabalho que provocam discussões sobre a real importância do teatro para as comunidades e de que forma beneficiam ou alteram a vida das pessoas enquanto cidadãos.

O NTU Núcleo, que abrange teatro, pousada, café, salas de ensaio e biblioteca, sofreram uma grande reforma na sua estrutura física. Em outubro de 1999 o NTU inaugurou a Biblioteca Ângelo Nunes, a Pousada Nautília Mendonça, a Praça Pedro Santos, onde funciona o bar e o restaurante (Café do Lima) e mais quatro salas de ensaio.

A Biblioteca de Artes Cênicas conta com um acervo de 418 livros sobre artes, história do teatro no Brasil, nordeste e na Paraíba, abriga periódicos (cartazes, calendários, programas, folders, textos e agendas). Possui ainda um arquivo fotográfico dos espetáculos encenados no Teatro Lima Penante. A biblioteca passou a se chamar Ângelo Nunes, uma homenagem do Núcleo ao jovem ator e diretor de teatro falecido em acidente de carro. Ângelo foi diretor de uma das peças mais vistas no Teatro Lima Penante, o premiado espetáculo “Não se incomode pelo Carnaval”. O ator também deixou sua contribuição para o Curso de Teatro para Crianças e Adolescentes, ministrando aulas nos cursos promovidos pelo Núcleo.

O presidente do Sindicato dos Artistas do Estado da Paraíba (Sated), o ator Horiebe Ribeiro, lamentou o fechamento do teatro Ednaldo do Egypto e diz que a crise no teatro paraibano não é geral. “Os artistas sofrem com a falta de apoio e com a desunião da própria classe artística” comentou Horiebe que está à frente do sindicato desde 2005.
O Sated mesmo funciona apenas com a metade do número de artistas que deveria funcionar. De acordo com ele, contribuem com o sindicato regularmente apenas 15 sócios. A mensalidade é R$ 10,00 e anual fica por R$ 60,00.

Adriana Crisanto
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O NORTE, em março de 2007.
Foto: de arquivo.