"A Paraíba é terra de letras. A poesia está por toda parte"


Padre Fábio de Melo faz show para católicos em João Pessoa neste sábado
Um dos shows de música católica mais esperados do ano acontece hoje em João Pessoa, no Esporte Clube Cabo Branco, em Miramar, a partir das 20h. Trata-se do show do Padre Fábio de Melo, considerado atualmente como um dos mais centrados padres da nova igreja católica. O ingresso, a preço popular, custa R$ 7,00 e pode ser encontrado para compra nas livrarias católicas da Consolação, Paulinas e na Carmem Steffans (Shopping Manaíra).
Fábio de Melo é natural de Formiga, interior do Estado de Minas Gerais. Herdou do pai o amor pela música. Os sons e tons sempre embalavam suas brincadeiras de crianças. Ele é uma prova de que compondo ou cantando, encontra um jeito construtivo de empregar seus talentos artísticos. Antes de entrar para o seminário, Fábio de Melo já gostava de usar sua bela voz grave. Desde cedo mostrou sua inclinação para o mundo das letras, tendo inclusive recebido um prêmio em um concurso de literatura no Rio de Janeiro; mas voluntariamente, por suas próprias razões, renunciou um contrato com a editora que estava patrocinando o concurso.
É membro da congregação do Sagrado Coração de Jesus, e faz questão sempre de ressaltar que tudo que escreve e faz é naturalmente evangélico. A mensagem de Jesus Cristo é o viés de suas composições. Suas palavras e expressões ainda que estejam tocadas pelo específico de sua sensibilidade e criatividade, obviamente estão sinergizadas nas palavras do mestre de Jesus. Sua bibliografia é extensa. Ao comemorar 10 anos como cantor lançou um dos mais belos trabalhos de sua carreia, um disco intimista, diferente de tudo que havia produzido, o CD “Sou um Zé da Silva e outros tantos” pela editora Paulinas, em que faz uma verdadeira homenagem a música de raiz e resgate a cultura popular.
Tentei por vários dias entrar em contato com o Padre Fábio de Melo (que tem uma agenda lotada de compromissos) para falar de temas que até então não haviam sido abordados. Tarefa difícil, pois perguntaram a ele tudo ou quase tudo sobre religião. Nesta entrevista que segue ele fala, dentre outros assuntos, sobre teologia, poesia e como concilia o exercício religioso e as atividades artísticas. Leia:


Essa é a primeira vez que o senhor vem a João Pessoa?
Não. Na verdade João Pessoa já faz parte da minha vida. Minhas primeiras experiências com a música católica foram vividas aqui nesta terra.

Além do exercício religioso o senhor é professor, músico e escreve poesias. Entre ser professor, escrever poesia e música, o que mais o senhor se identifica ou ambas atividades se completam?
Eu não consigo me identificar compartimentado. Quando penso no que faço imediatamente eu me reporto ao que sou. É um jeito interessante de reconciliar minhas inúmeras atividades. A consistência do eu é que assegura um desdobramento das atividades sem o risco da perda da identidade. Gosto de ser, antes de fazer.

O senhor conhece algum poeta paraibano?
Conheço sim. A Paraíba é terra de letras. A poesia está por toda parte. Gosto muito de Augusto do Anjos, mas procuro conhecer as riquezas ainda desconhecidas. Os poetas do cotidiano, gente que ainda não alcançou o reconhecimento, mas que com mestria tornou-se tradutor dos sentimentos do povo.

Hoje muito mais pessoas procuram as faculdades e cursos de teologia não apenas para ingressar na vida religiosa, mas para ter conhecimento. A quê o senhor atribui esse interesse das pessoas pela religião?
A fé é uma mistura de certeza e dúvida. Não é possível crer, sem antes ter duvidado. A Teologia é uma palavra sobre Deus. Palavra que se movimenta no tempo. Por isso a investigação teológica é tão necessária nos dias de hoje. Teologia é experiência de desvelamento. Deus se mostra na vida, e nós, por meio do discurso teológico, tentamos dar nome a esta revelação. O que sabemos sobre Deus é também uma forma de saber sobre nós mesmos. Conhecer a Deus é também conhecer a humanidade. Neste tempo onde prevalece o interesse por Deus, de alguma forma identificamos o desejo de resolver as questões humanas. São dois fios entrelaçados. Divino e humano. O estudo sobre um lança luzes sobre o outro. E assim vamos compondo o tecido deste tear da existência.

A teologia sistemática é o ramo da teologia cristã que reúne as informações extraídas da pesquisa teológica, organiza-as em áreas afins, explica as suas aparentes contradições e, com isso, fornece um grande sistema explicativo. Não é isso? Já que ela tenta explicar “tudo” ou “quase tudo” como ela explicaria a violência no mundo?
O conceito de perfeição é muito fértil para entendermos esta questão. Tudo o que é perfeito é também processual. O acabado está distante de ser perfeito, porque corre o risco de cair de moda. Uma realidade para ser perfeita precisa atender ao movimento do tempo. Assim é o mundo. É perfeito, mas sofre das conseqüências do movimento. A violência do mundo é fruto das escolhas que fazemos e que atentam contra sua perfeição. O mundo criado é um mundo perfeito porque precisa de retoque constante, mas no momento em que abrimos mão da parte que nos cabe, de alguma forma estamos condenando o mundo à condição de caos.

Qual o ponto de vista cristão sobre o mundo?

Um dos grandes equívocos que nós podemos identificar no cristianismo é justamente o conceito de mundo. Isto se dá devido o fato de no contexto joanino a palavra mundo se referir ao império romano. É contra esta estrutura que Jesus se posiciona. O mundo que era contrário à felicidade humana precisava ser evitado, mas Jesus não se referia à realidade criada. O mundo, este lugar onde estamos situados é naturalmente bom. Mas não podemos negar que a metáfora do império que destrói ainda vale para os dias de hoje. Há muitas estruturas pecaminosas nos engolindo aos poucos.

O senhor é um padre jovem, bonito, tem uma voz privilegiada, é uma pessoa sensível, fala e escreve bem, e ainda por cima é poeta. Mas, também, como o senhor mesmo diz, é humano demais. Toda essa mitificação que as pessoas fazem de sua imagem não o incomoda e atrapalha?
Claro que sim. Ser imaginado é uma forma de aprisionamento. O que faço é reivindicar o direito de ser gente, de poder sofrer e de não ter respostas prontas para tudo. Não sou adepto de uma religião que responde a todas as perguntas do mundo. A religião que gosto de ensinar é a que ajuda a conviver com as questões.

O senhor nunca pensou em transformar em livro sua dissertação de mestrado?
Ainda não. O tema é interessante, mas precisa passar por um processo literário que ainda não tive tempo para realizar. Quem sabe um dia...

Quais suas pretensões para 2007? Algum livro novo?
Vou escrever muito neste ano. Estou me programando para isso. Vou lançar meu primeiro livro de contos: “Mulheres de aço e de flores”. Lançarei também dois livros pela Canção Nova: “Quem me roubou de mim? O seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa”, e “Uma palavra que lhe faça bem.”
Adriana Crisanto
Jornalista
Foto: Divulgação da Talentos Produções
*Matéria publicada no caderno show do jornal O Norte em 17 de março.