40 anos de poesia


Em meados de setembro, o poeta Sérgio de Castro Pinto estará lançando a obra “O Cristal dos Verões”, livro com o qual registra os seus 60 anos de idade e quarenta de poesia. A obra será lançada pela Editora Escrituras, de São Paulo, a mesma que publicou “Zôo Imaginário”, que, além de conquistar o prêmio Guilherme de Almeida, promovido pela União Brasileira de Escritores (Seção do Rio de Janeiro), foi adotado nos vestibulares do Cefet, da Universidade Federal de Campina Grande e nas escolas públicas de São Paulo, através do Programa Lendo e Aprendendo, promovido pela Secretaria da Educação daquele Estado do sudeste brasileiro.
“O Cristal dos Verões” reúne poemas escolhidos desde o livro de estréia de Sérgio de Castro Pinto, “Gestos Lúcidos”, até o mais recente “Zôo Imaginário”. Nesta entrevista que segue o escritor faz um balanço de sua inspiração poética que completam 40 anos, fala sobre as traduções dos romances russos. Opina sobre o ingresso de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras e diz, como muita naturalidade, que nem sempre na academia brilham os bons, e fala de assuntos ligados à literatura. Leia:


Citando Mário de Andrade, certa vez, o senhor disse, em entrevista a um jornalista local, que o poeta somente pode ser considerado poeta se ele continuar a produzir depois dos 30 anos. O senhor completa 60 anos e não parou de escrever poesias. De onde vem tanta inspiração?
Às vezes, a poesia é tão transitória quanto à adolescência. Dura o tempo de uma noite de verão. Quem, quando jovem, na tentativa de superar um amor não correspondido, o início ou o final de um namoro, não expôs os seus sentimentos numa folha de papel? Pois bem, o poeta, o verdadeiro poeta, é aquele que persevera, que se entrega de corpo e alma à palavra escrita, que não abdica dessa luta vã, inglória, que é “lutar com as palavras/ mal surge a manhã”. É o que alia sentimento e linguagem, a partir da elaboração de ambos. Quanto à inspiração, ela nem sempre vem, muitas vezes eu vou buscá-la.

Que balanço o senhor faz desses 40 anos de poesia?
Que escrever, hoje, transcorrido todo esse tempo, é-me tão difícil, tão torturante, quanto o foi em 1967, ano em que estreei com o livro “Gestos lúcidos”. Aliás, em poesia, longevidade nem sempre é sinônimo de qualidade. Em todo caso, porém, tenho a satisfação de ter colhido alguns frutos como, recentemente, o Prêmio Guilherme de Almeida – melhor livro do ano de 2005 – , outorgado pela União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro, a “Zôo imaginário”. Isso sem contar que esse mesmo volume está sendo adotado nas escolas de 1º grau da rede pública de São Paulo, através do programa “Lendo e aprendendo”, da Secretaria de Educação daquele Estado, que o selecionou entre dezenas de outros. Já o livro “O Cerco da memória” foi adotado no vestibular do CEFET e da Universidade Federal de Campina Grande.

O historiador Alfredo Manguel acredita que hoje se leia mais do que no século XIX. O senhor concorda?
Alfredo Manguel deve dispor de elementos para ter chegado a tal conclusão. Tenho para mim, no entanto, que hoje se lê mais, sobretudo se levarmos em conta o advento da Internet e dos livros de auto-ajuda. É bem verdade que, na maioria das vezes, os textos de auto-ajuda são menores, descartáveis, mas, nem por isso, deixo de acreditar que, por vias transversas, tortuosas, pode-se chegar, através desse tipo de leitura, a Graciliano, Zé Lins e outros autores maiores da literatura brasileira. Ler é sempre melhor do que não ler.

Como o senhor observa as atuais traduções que estão sendo feitas dos romances russos?
Até quase recentemente, as traduções dos romances russos eram de segunda mão, ou seja, Tolstoi, Dostoievski e outros, eram traduzidos do inglês, do francês. Hoje, graças ao paraibano Paulo Bezerra, a tradução é feita diretamente do russo. Aliás, foi Paulo Bezerra quem introduziu Baktrin entre nós, isso quando verteu, para o português, “Problemas da poética de Dostoievski”, no qual o crítico russo traz à baila a teoria da carnavalização.

Como sentiu o ingresso de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras?
Com naturalidade, pois as academias, nem sempre, abrigam os melhores. Que o diga, para citar apenas um exemplo, Ataulfo de Paiva, de quem Zé Lins, ao sucedê-lo, disse cobras e lagartos. Segundo Edilberto Coutinho, “Do ponto de vista da realização literária, não representa coisa alguma o ingresso numa Academia”. E finaliza: “As Academias não farão de quem não é, bom escritor, e se o acadêmico tiver alguma valor, não o perderá na cerimônia de posse”.

Muitos escritores e críticos colocam a poesia numa redoma de vidro. Algo ligado apenas aos privilegiados da escrita. Isso acontecia no passado e continua nos dias atuais. A quê o senhor atribui esse comportamento?
Creio que os que assim procedem acreditam que a poesia é uma dádiva dos deuses. E, como tal, deve se distanciar do “estéril turbilhão das ruas” e se isolar numa torre de marfim. Prefiro-a, no entanto, com a “marca suja da vida”, assim como Manuel Bandeira a desejou quando, em “Nova poética”, lançou a “teoria do poeta sórdido”. Como disse o grande poeta pernambucano, “O poema deve ser como a nódoa no brim”. E brim branco.

O que o senhor está lendo no momento?
Sou um leitor compulsivo, eclético e indisciplinado, sou daqueles que lêem, simultaneamente, dois, três ou mais livros. E o faço para respirar novos ares, para estabelecer novos diálogos. Ou, em última instância, quem sabe não procuro, na diversidade dos gêneros literários, a minha unidade desde há muito perdida? Com efeito, quase sempre empilho, na minha mesa de cabeceira, livros de poesia, de ensaio e de ficção. No momento, leio: “Ou o poema contínuo” (A Girafa), do poeta português Herberto Helder, “A Cegueira e o saber” (Editora Rocco), de Affonso Romano de Sant’Anna, “O Último leitor” (Companhia das Letras), do argentino Ricardo Piglia e “47 Contos de Juan Carlos Onetti” (Companhia das Letras).

Adriana Crisanto
Repórter
Foto: Gustavo Moura
Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O NORTE em maio de 2007.