Biografia de uma mãe menina

Frente da Casa de Mãe Menininha do Gantoá. Foto: Divulgação

A profunda relação entre a personalidade de Mãe Menininha e segmentos do mais alto significado no processo cultural brasileiro pode ser encontrado no livro “Mãe Menininha do Gantois uma biografia” (Editoras Corrupio e Ediouro, Salvador. 320 págs. 2006. R$ 59,90) que acaba de ser lançado pela paraibana Cida Nóbrega e a baiana Regina Echeverria.
Escolástica Maria da Conceição Nazaré (Menininha do Gantois) recebeu este apelido na infância por ser franzina. Nasceu em Salvador em 10 de fevereiro de 1894 e faleceu no dia 13 de agosto de 1986, de causas naturais aos 92 anos de idade.
Ela foi a mais famosa de todas as Iyalorixás brasileiras e viveu num dos mais conhecidos terreiros de candomblé de Salvador, o Gantois. Mãe Menininha vem de uma longa linhagem de Iyalorixás, que são as chefas dos terreiros. O Gantois foi fundado em 1849, por sua bisavó Maria Júlia da Conceição Nazaré, no bairro da consolação em Salvador.
Nesta obra as autoras revelam não apenas os fatos históricos da trajetória de Mãe Menininha, mas trazem vários depoimentos que ajudam a desvendar a personalidade e os dons da mãe-de-santo mais popular do Brasil. A obra tanto encanta pesquisadores como é uma leitura que fascina e esclarece tanto os leigos, com preceitos na religião do candomblé, como para os iniciados.
O livro traz uma série de fotografias com personalidades do cenário cultural da Bahia, a exemplo de Maria Bethânia, Antônio Carlos Magalhães, Jorge Amado e outros tantos registros de época. “Foi uma tarefa gratificante registrar a vida dela, mas também contar a história do terreiro do Gantois e sua trajetória na preservação do culto aos orixás, na religião dos descendentes de negos africanos escravizados”, disse Cida Nóbrega uma das autoras da obra.
De acordo com Cida Nóbrega foram cinco anos de pesquisas e teve início com a gravação de mais de sessenta depoimentos de pessoas que ajudaram a reconstruir a vida de Menininha. Um segundo momento importante foi edição feita por Regina que se integrou ao projeto do livro para finalizar a obra.
“Mãe Menininha do Gantois uma biografia” é um grande esforço coletivo de pesquisa que resultou nesta grande reportagem que contribui, sem sombra de dúvida, para salvaguardar a memória cultural do povo baiano e construir a história do negro no Brasil. O terreiro, de acordo com Cida, tem várias histórias. Mudou-se por diversas vezes até se instalar na Federação.
Existe uma versão contada, segundo Cida, pelos mais tradicionais em que fala que a real motivação da saída de Maria Júlia da Conceição Nazareth (que comandava o terreiro no início do século XX) do bairro da Barroquinha teria sido a pressão causada pela idéias desenvolvimentistas do então presidente da província, Francisco Gonçalves Martins. Ele planejava realizar obras de urbanização no antigo centro (Barroquinha com Rua da Vala, atual JJ. Seabra, a popular Baixa dos Sapateiros). Esse fato fez com que houvesse uma pressão enorme para o afastamento da população negra naquela área da cidade de Salvador, uma vez que o governo pensava em mostrar aos estrangeiros uma cidade civilizada, ou seja, branca. Isso, diz Cida, fez com que cada vez mais houvesse uma perseguição policial aos cultos de candomblé.
O terreiro do Gantois, talvez seja o único no Brasil que preserva em sua direção uma descendente direta das africanas fundadoras do primeiro candomblé de origem yoruba, o Ile Axé Aira Entile. O terreiro do Gantois foi fundado em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazareth, avó de Mãe Meninha. Quando de seu falecimento, foi sucedida, em 1918, por Pulchéria, tia de Mãe Menininha, que faleceu em 1818, deixando o posto para a sobrinha Mãe Meninha, que após seu falecimento foi sucedida por Mãe Cleusa de Nanã, sua filha mais velha. Com seu falecimento, hoje o Gantois é presidido pela filha mais jovem de Mãe Menininha, Mãe Carmem de Oxalá.
O terreiro do Gantois desfruta atualmente o privilégio da hereditariedade que o torna particular dos demais. Os baianos contam que que Mãe Menininha, apesar de batizada pelo nome de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, não professava sua religião com sincretismo.
Existem, inclusive, polêmicas a respeito do Gantois ser tão famoso por ser sincrético, no entanto, observa-se que eles acreditam e respeitam que Deus é um só, não importa em que idioma é falado o nome do criador. O Gantois herdou esse nome de um francês que doou o terreno onde foi erguido o terreiro.
Mãe Menininha era um exemplo a ser seguido de mulher afro-descendente, pois era uma pessoa muito à frente do seu tempo. A humildade, a doçura e o pulso firme, quando necessário, fez dela uma grande personalidade, nada abalando sua fé nessa religião e cultura de resistência, até hoje perseguida por uns e não compreendida por outros. “De candomblé eu entendo tudo e ao mesmo tempo não entendo nada”, dizia Mãe Menininha.
Admirada pela sabedoria, gentileza, conhecimentos, humildade e pulso firme, Mãe Menininha do Gantois foi a grande responsável pela difusão e popularização do candomblé na Bahia, tendo sido amiga e conselheira espiritual de várias personalidades ilustres, a exemplo de Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Zélia Gatai, Pierre Verger, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Caribe e Nina Rodrigues.
Jorge Amado, um dos seus grandes admiradores, dizia que ela era uma filha de escravos que se fez rainha, e que havia orientado o povo baiano com exemplar dedicação e perene bondade. Caymmi, por sua vez, no verso de sua canção Mãe Menininha, ressaltava que a mão da doçura estava no Gantois. E, Vinicius, enalteceria em prosa e verso a famosa mãe-de-santo que usava saias de renda e óculos de lentes grossas.

Sobre as autoras

Cida Nóbrega é psicóloga de formação e há cerca de 30 anos trabalha com edição de livros, traduções e artes gráficas. Foi a tradutora de Pierre Verger e uma das colaboradoras da fundação que leva o mesmo nome do sociólogo. É autora dos livros: Caminhos da Índia (1990), Maria Bibiana do Espírito Santos, Mãe Senhora do Axé Opói Afonjá (2000) e Pierre Verger, um retrato em preto e branco (2003).
Regina Echeverria é jornalista desde 1972. Trabalhou nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal A Tarde, Folha de São Paulo e nas revistas Veja, Isto É, Placar, A Revista. É também autora dos livros: Furacão Elis (1985), Só as mães são felizes (1997), Cazuza, Preciso dizer que te amo (2001), Pierre Verger (2003), Gonzaguinha e Gonzagão – uma história brasileira (2006).
Adriana Crisanto
Repórter


Serviço: Mãe Menininha – uma biografia
Editora Corrupio e Ediouro
Autoras: Cida Nóbrega e Regina Echeverria
320 páginas
R$ 59,90.
*Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em abril de 2007.
Foto dir. p/esq.: Cida Nóbrega, Regina e a cantora Gal Costa.