Cineport 2007 balanço


Como fomos acusados de não divulgar o Festival de Língua Portuguesa (Cineport), o evento mais importante do ano da cidade de João Pessoa, ocorrido no período de 4 a 13 de maio, na Usina Cultural da Saelpa, segue aqui algumas considerações finais.
O festival, como disse o pessoal da Overmundo, foi “bacanérrimo” e de fato foi. Este ano o homenageado foi o cineasta paraibano Vladimir Carvalho que se fez presente em vários dias do festival e esteve cercado por admiradores e amigos. A programação, extremamente vasta, precisaria do engajamento de uma comissão de frente, formada por jornalistas culturais para cobertura de cada área, sem falar nas oficinas, palestras e mesas redondas, que ocorreram na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e ações culturais promovidas pela Fundação Ormeo Junqueira.
De acordo com a comissão organizadora do evento, o festival teve uma média de oito horas ininterruptas de projeções e recebeu mais de 500 trabalhos, entre longas, curtos, documentários e animações, que foram avaliados por profissionais do segmento audiovisual de Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraíba.
Foram exibidos filmes do Brasil, Timor Leste, Portugal, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Cabo Verde, atendendo os mais variados gostos. A maratona cinematográfica começava sempre muito cedo, às 9h00 da manhã, com exibições direcionadas ao público infantil e a última exibição por volta das 23h00.
Entre uma exibição e outra aconteceram performances, esquetes e danças. A cada dia do evento uma atração musical aconteceu no Parahyba Café (Cineport Música) que teve dois pontos de apoio, um na entrada e outro na parte de trás da Usina Cultural. Uma das mais interessantes apresentações foi do pianista Bernardo Sassetti, que à frente de um belo piano de calda desfilou um repertório eclético, de Dori Caymmi a João Gilberto.
Uma das músicas teve a performance da dançarina Zamélia Pentes que acompanhou Bernardo num show de contorcionismo contemporâneo. Dentro de um macaquito vermelho, a moça percorreu todo tablado ao som instrumental de autoria do pianista. O melhor momento do show ficou mesmo por conta da apresentação de Bernardo com o grupo de forró paraibano “Os Cabras de Pai Matheus”. Os gringos foram à loucura e muitos se atreverem ensaiar alguns passos.
O show ameaçava começar quando a tenda Cineport-música foi invadida por angolanos e africanos que surgiam de vários buracos da Usina para assistir ao show do angolano Galisá. Munido de um instrumento que mistura harpa com beribau Galisa e seus companheiros levou o público a dançar, inclusive, em cima do palco. Os angolanos tiveram o apoio de músicos paraibanos, que ensaiaram apenas um dia com os angolanos e pegaram de primeira a batida da mãe Angola.
Os filmes puderam ser assistidos nas tendas Andorinha e Andorinha Digital e quando batia aquela fomezinha bastava freqüentar as barraquinhas espalhadas pela área externa ou mesmo Parahyba Café. “Não sabia da existência de um lugar como este em João Pessoa. Isso me deixa muito feliz”, comentou a estudante Cynthia Alencar que pagou apenas R$ 1,00 para assistir os filmes e não enfrentou uma longa fila para entrar na terça-feira (8).
Como o tempo foi corrido pude assistir a alguns filmes, como o português “Coisa Ruim”, um suspense muito bem trabalhado e o brasileiro “Mulheres do Brasil”. “Uma das coisas que me chamou atenção foram às legendas no filme português. Isso facilitou a compreensão das falas, já que não estamos acostumados com o português de outros países”, disse o estudante de direito Fernando Aguiar.
Um dos destaques do festival foi o filme “Cartola”, premiado como melhor documentário do Cineport. “Cartola” era um lorde, como bem o definiu Cacá Diegues. O longa-metragem segue a linha de Vinícius, de Miguel Faria Júnior (que foi um grande sucesso de público - o documentário mais visto da história do cinema brasileiro, com 204 mil espectadores).
O roteirista (Hilton Lacerda) e o diretor (Lírio Ferreira) não souberam dizer em que momento eles se apaixonaram pelo personagem, mas o público sabe e saiu falando da beleza que foi o filme. “Eu fiquei tomada por Cartola”, comentou a cantora paraibana Gláucia Lima. Diz a lenda que Villa-Lobos subia o morro da Mangueira só para ouvir os sambas de Cartola. Um dia, disse ao compositor "não estuda, não. Você faz tudo errado, mas fica lindo!". Nem o mais exigente dos críticos ousaria contestar o criador das Bachianas brasileiras.
Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock n’ Roll, de Otto Guerra foi outro filme que lotou a Tenda Andorinha e teve que ser reprisado a pedido do público que ficou do lado de fora. O filme é uma festa na virada para 1972. Na casa de Cosmo, estão os jovens Wood, Stock, Lady Jane, Rê Bordosa, Rampal, Nanico e Meiaoito, que vivem intensamente o barato do “flower power” ao explodir dos fogos de ano novo. Trinta anos se passam e nossos heróis, agora carecas e barrigudos, enfrentam as dificuldades de um mundo cada vez mais individualista e consumista.

Entrega dos prêmios

Os vencedores dos Troféus Andorinha, Andorinha Digital e Andorinha Criança foram divulgados ainda há pouco, durante a cerimônia de encerramento do Festival Cineport, no Teatro Santa Rosa. O Céu de Suely, do brasileiro Karim Aïnouz, foi o grande vencedor da noite, levando o Troféu Andorinha como melhor diretor e melhor filme na categoria 35mm. Evaristo Abreu levou o Andorinha de melhor ator por seu trabalho em “O Jardim do Outro Homem”, do moçambicano Sol de Carvalho.
A portuguesa Ana Moreira ganhou como melhor atriz por Transe, de Teresa Villaverde. O vencedor do Prêmio Saelpa/Cineport, no valor de dez mil reais e destinado a cineastas paraibanos, foi O Fazedor de Filmes, de Arthur Lins e Ely Marques. A seguir, a relação completa dos agraciados com os Troféus Andorinha, Andorinha Digital e Andorinha Criança.

Troféu Andorinha

Melhor Filme: O Céu de Suely
Melhor Direção: Karim Aïnouz (O Céu de Suely)
Melhor Ator: Evaristo Abreu (O Jardim do Outro Homem)
Melhor Atriz: Ana Moreira (Transe)
Melhor Ator coadjuvante: Selton Mello (Árido Movie)
Melhor Atriz coadjuvante: Dira Paes (Mulheres do Brasil)
Melhor Roteiro: Pedro Costa (Juventude em Marcha)
Melhor Produtor: Luís Galvão Teles, Serge Zeitoun, Sol de Carvalho (O Jardim do Outro Homem)
Melhor Montagem: Mair Tavares (Veneno da Madrugada)
Melhor Música: Berna Ceppas, Kamal Kassim, Otto e Pupilo (Árido Movie)
Melhor Fotografia: João Ribeiro (Transe)
Melhor Direção de arte: Cássio Amarante (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias)
Melhor Figurino: Kika Lopes (Zuzu Angel)
Melhor Documentário: Estamira
Melhor Fotografia de documentário: Marcos Prado (Estamira)
Melhor Montagem de documentário: Pedro Marques (Lisboetas)
Melhor Direção de documentário: Sérgio Tréfaut (Lisboetas)

Prêmio Saelpa/Cineport
"O Fazedor de Filmes", de Arthur Lins e Ely Marques

Troféu Andorinha Digital
Melhor Ficção Curta: Sete Minutos (Cavi Borges).
Menção Especial Ficção Curta: Augusto na Praia (Rafael Eiras).
Melhor Documentário Curta: Trecho (Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr)
Melhor Animação Curta: Stuart (Zepe).
Menção Especial Animação Curta: O Jumento Santo (William Paiva e Leonardo Domingues).
Melhor Documentário Longa: Cartola (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda)

Troféu Andorinha Criança
No Meio da Rua (Antônio Carlos da Fontoura).

Adriana Crisanto
Repórter
Matéria não publicada no caderno Show do Jornal O NORTE.
Fotos: Divulgação.