Ano Cultural de Ariano Suassuna


A Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes lançou na tarde de ontem projeto “Ano Cultural Ariano Suassuna”, com uma solenidade ocorrida no Teatro Ariano Suassuna do Colégio Marista Pio X, localizado na Praça da Independência, no centro da Capital.

Na ocasião o prefeito Ricardo Coutinho, o autor do ano comemorativo, assinou o decreto que regulamenta a ação cultural. Com o objetivo de comemorar o aniversário do dramaturgo que completará, neste sábado (16), 80 anos de idade. Após a solenidade houve ainda o lançamento dos concursos para a criação do selo comemorativo e outro de redação, que será implementado na rede de ensino municipal envolvendo o "Mundo de Ariano Suassuna".

A noite foi brindada ainda com apresentação do Grupo Armorial e uma palestra com a professora, Beliza Áurea Arruda de Mello, que falou sobre a importância de Ariano Suassuna no panorama cultural paraibano. O prefeito, Ricardo Coutinho, referiu-se ao escritor como um dos homens mais importantes hoje no país e que a prefeitura homenageia o escritor não apenas por sua obra, mas também pelo seu caráter.

O Ano Cultural Ariano Suassuna será desenvolvido em agosto deste ano com o “Seminário Ciência e Sabedoria em Ariano Suassuna”, com palestra sobre a cultura e civilização ibérica na obra do escritor. As atividades devem acontecer no Centro de Capacitação dos Professores (Cecapro) com a participação dos docentes da rede municipal de ensino, estudantes e professores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

No mês de setembro as atividades do projeto prosseguem com apresentações itinerantes do grupo Armorial nas escolas da rede municipal de ensino, exibição comentada do filme "Senhor dos Castelos", dos cineastas paraibanos Marcos Vilar e Durval Leal, cuja personagem central é o próprio Ariano. Haverá, também, exibição comentada do documentário sobre o Grupo Armorial da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O público alvo está centrado nos alunos e professores da rede municipal de ensino.

Na seqüência, em outubro, haverá expedição ao “Universo de Ariano Suassuna”, com a participação dos estudantes das disciplinas de artes, história e português. De acordo com a diretora de Artes e Educação da Sedec, Rosires Andrade, a idéia é fazer com que os professores conheçam e trabalhem, em sala de aula, com os personagens e todo o universo mítico-literário de Ariano. Nas oficinas os professores irão trabalhar desde a fotografia e a leitura.

O resultado das expedições será mostrado durante o “I Festival de Artes das Escolas Municipais Ariano Suassuna”, onde haverá oficina de música, dança, artes visuais e teatro. Dentro da programação estará inserido também o projeto "Outubro no Teatro", organizado pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), com montagens teatrais do dramaturgo que percorrerá as escolas da rede municipal de ensino.

Em novembro haverá o lançamento do selo e exposição do mesmo e a entrega dos prêmios e comenda aos vencedores do concurso. Também está prevista a inauguração de escultura do artista plástico Miguel dos Santos. As festividades do Ano Ariano se encerram com apresentações musicais na Praça Antenor Navarro, no centro histórico da Capital.

Vida e Obra - Romancista e teatrólogo, Ariano Suassuna nasceu no dia 16 de junho de 1927, em João Pessoa, Capital do Estado da Paraíba. É filho de João Suassuna (governador da Paraíba entre 1924/28), viveu o ano de 1929, com a família, na Fazenda Acauhã, no sertão do Estado.

Em 1930, quando episódios políticos resultaram na morte do governador João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (assassinado por João Dantas que era primo da mãe de Ariano), ele teve que abandonar, com a família, a Paraíba e foi morar no município de Paulista (PE).

Na cidade de Paulista, os Suassuna tomaram conhecimento do assassinato (no Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1930) de João Suassuna (como represália à morte de João Pessoa). Ariano retomou, com a família, a Paraíba para Fazenda Acauhã e, em 1932, foi morar na Fazenda Saco, também sertão paraibano.

Em 1933, a família muda-se mais uma vez para o município de Taperoá, interior paraibano. No ano de 1942 Ariano Suassuna, já adolescente, vai para a cidade do Recife, onde fixa, em definitivo residência. Em Pernambuco Ariano conclui o curso ginasial (Colégio Americano Batista) e o colegial (Ginásio Pernambucano e Colégio Oswaldo Cruz). É aprovado em Direito (1950) e em Filosofia (1960). Ficou dois anos acamado por causa de uma tuberculose.Tenta, sem sucesso, seguir a carreira de advogado. É quando decide ser professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Abandona os livros de direito e inicia-se na carreira literária escrevendo poesias.

Ariano Suassuna chegou a ser diretor do Teatro do Sesi. Publicou sua primeira peça teatral ("Uma Mulher Vestida de Sol") em 1947. Outras peças de teatro: "Cantam as Harpas de Sião" (1948, reescrita sob o título "O Desertar de Princesas"); "Auto de João da Cruz" (1950); "Auto da Compadecida" (1955); "O Santo e a Porca - O Casamento Suspeitoso" (1957); "A Pena e a Lei" (1959); "A Farsa da Boa Preguiça" (1960); "A Caseira e a Catarina" (1961).

Com o romancista publicou "A Pedra do Reino" (1971), adaptada recentemente para televisão. Com o romance conquistou o Prêmio Nacional de Ficção, do Instituto Nacional do Livro. Foi, também, diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco; secretário de Educação e Cultura da prefeitura do Recife e membro do Conselho Federal de Cultura.

Com outros intelectuais, fundou o Teatro Popular do Nordeste (TPN) e o Movimento de Cultura Popular (MCP) ambos no Recife. Em 1970, foi o idealizador do Movimento Armorial, criado no Recife com a proposta de "realizar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares da nossa cultura". Foi Secretário de Cultura de Pernambuco durante o terceiro governo de Miguel Arraes, 1995/98.

Bibliografia:

Romance: "O Sedutor do Sertão" (1962 - inédito); "A Pedra do Reino", José Olympio Editora, 1971; "A História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão - Ao Sol da Onça Caetana", José Olympio Editora, 1976; "A História de Amor de Fernando e Isaura", Edições Bagaço, 1994.

Teatro: "Uma Mulher Vestida de Sol", Editora da UFPE, 1947; "O Desertor de Princesa", 1948, inédita; "Os Homens de Barro", 1949, inédita; "Auto de João da Cruz", 1950, inédita; "Torturas de Um Coração", 1951, inédita; "O Arco Desolado", 1952, inédita; "O Castigo da Soberba", seleta em prosa e verso, 1953; "O Rico Avarento", seleta em prosa e verso; "O Auto da Compadecida", 1955, Editora Agir; "O Casamento Suspeitoso", José Olympio Editora, 1957; "O Santo e a Porca", José Olympio Editora, 1957; "O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna", seleta em prosa e verso, 1958; "A Pena e a Lei", Editora Agir, 1959; "Farsa da Boa Preguiça", José Olympio Editora, 1960; "As Cochambranças de Quaderna", inédita, 1988; "A História de Amor de Romeu e Julieta", inédita, 1996.

Depoimentos:
"Ariano Suassuna não é apenas um escritor e dramaturgo de talento, é também um pensador que ao longo de toda sua obra questiona a nossa visão do Brasil. Ele pertence a uma faixa de autores de gerações muito próximas que se dividiram entre a literatura, o ensaio e o jornalismo, usando estes instrumentos para estudar a formação do nosso povo, o relacionamento do Brasil com outras nações e outras culturas, e os problemas que iremos enfrentar num futuro próximo ou distante. São autores como Darcy Ribeiro, Antonio Callado, João Ubaldo Ribeiro, para não falar nos de uma geração anterior (que participou da formação do próprio Ariano) como Jorge Amado, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz. Cada um desses autores nos dá sua visão do Brasil, o que é muito importante num momento como o atual, em que grande parte de nossa literatura se volta para um intimismo psicológico, centrado nas emoções de um pequeno número de personagens, e sem nos dar uma visão geral, ampla, do que é o país. Nada tenho contra esse tipo de literatura -- mas a verdade é que precisamos dos dois. E é uma sorte termos escritores como Ariano, que apesar da idade avançada estão plenamente lúcidos, ativos, cheios de energia e de idéias novas para debater conosco. O fato de Ariano ter se criado na Paraíba e ter se radicado em Pernambuco aponta também para o caminho por onde se forjar uma consciência brasileira e nordestina, para além das rivalidades e picuinhas interestaduais. (Braúlio Tavares - poeta).

“Ariano é um ponto de pura luz norteando a cultura brasileira. Assim como Antonio Francisco Lisboa (Aleijadinho), Euclides da Cunha, Machado de Assis, João Guimarães Rosa. Ele, Ariano, sabe da sua importância para o futuro e identidade nacional. Para mim é o brasileiro mais importante vivo. Mais do que um gênio: Um Mestre!” (Miguel dos Santos - artista plástico)

A importância fundamental de Ariano Suassuna para a cultura e a literatura brasileiras consiste no fato de que sua obra possibilita, em pleno contexto da globalização e da chamada pós-modernidade, que se retome e se problematize a discussão sobre algo ainda hoje bastante arraigado no arcabouço mental brasileiro e especificamente no nordestino: o pensamento regionalista. Isso porque o próprio Suassuna reatualiza e reacende contemporaneamente a polêmica acerca do ideário regionalista do Nordeste”. (Sônia Lúcia de Ramalho Farias - escritora).

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Publicado no caderno Show do Jornal O Norte sábado 16 de junho - aniversário do escritor