Flor que se renova

Professores e filólogos comentam o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deve entrar em vigor até o final do ano

No mesmo momento em que acontece o Festival de Cinema de Língua Portuguesa que reúne em um único espaço nações que se comunicam em língua portuguesa uma discussão paralela começa a tomar forma. É que até o fim do ano, deve entrar em vigor o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que prevê uma única forma de escrever para os países Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
As mudanças só vão acontecer porque três dos oito membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ratificaram as regras gramaticais do documento proposto em 1990. Brasil e Cabo Verde já haviam assinado o acordo e esperavam a terceira adesão, que veio, em novembro, por São Tomé e Príncipe.
Com isso, calcula-se que 0,45% das palavras brasileiras terão grafia alterada. Entre as mudanças, estão as extinções dos acentos circunflexos das paroxítonas terminadas em “o” duplo. Assim, "abençôo", "enjôo" ou "vôo" se transformam em "abençoo", "enjoo" e "voo". Fica extinto também o circunflexo das terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver", ficando correta a grafia "creem", "deem", "leem" e "veem". O trema, costumeiramente esquecido, será eliminado completamente.
O professor de Língua Latina e Filologia Românica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Centro Cultural Zarinha, Fabrício Possebon, considerou a percentagem de palavras alteradas pequena, todavia, esse número, de acordo com ele, não deve nos enganar, pois as palavras com nova ortografia são aquelas que têm uma freqüência relativamente alta. “É o caso, por exemplo, da palavra idéia, que perderá o acento. Ninguém deve imaginar que conseguirá continuar escrevendo pelo antigo sistema e ainda assim estará escrevendo corretamente”, comentou.
O novo alfabeto também ficará maior. Ele vai deixar de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação das letras "k", do "w" e do "y". Outra mudança que pode causar estranhamento é a eliminação do acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia".
Com as regras incorporadas ao idioma, inicia-se o período de transição, no qual ministérios da educação, associações e academias de Letras, editores e produtores de materiais didáticos recebem as novas regras ortográficas para, gradativamente, atualizar livros, dicionários, entre outros materiais.
O angolano Ondjaki, que está participando do Cineport, vê com muita preocupação essa mudança, pois são oito países falando uma única língua. O também angolano Miguel Huurst também vê com preocupação, porque a língua portuguesa é uma das menos lidas no mundo. “Ela cresce muito pouco se compararmos com outras línguas”, disse.
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) é um tratado internacional que tem como objetivo criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países que usam esta língua. Foi assinado pelos representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990, fruto de um longo trabalho desenvolvido pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras desde 1980. Timor-Leste aderiu ao Acordo em 2004. O acordo teve ainda a adesão da delegação de observadores da Galiza.
O escritor e professor de jornalismo do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba (Decom/UFPB), Edônio Alves, vê como positiva essas mudanças, pois as línguas vão ter um mínimo de sinais possíveis. “A princípio deve acontecer um certo estranhamento das pessoas, principalmente os escritores e jornalistas que lidam cotidianamente com a escrita, mas com o tempo essas alterações serão facilmente adaptáveis”, comentou o dramaturgo e escritor Tarcísio Pereira presente no Cineport. Do ponto de vista da poesia essas mudanças o poeta e escritor, Antônio Mariano, acredita que com as modificações jamais vão conseguir algemar a língua, pois a palavra poeticamente falando está subjacente à grafia.
Para Fabrício Possebon, as pessoas com hábitos de leitura não terão dificuldades com o novo sistema, pois irão se acostumar de modo imperceptível. “Os profissionais da área, como jornalistas e professores, terão o dever de aprender bem o sistema e aplicá-lo corretamente. Já as pessoas que muito raramente escrevem, provavelmente, não usarão o novo sistema e serão sempre reconhecidas por terem sido alfabetizadas pelo sistema antigo”, disse.
Atualmente o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cinqüenta milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial. Mesmo o castelhano apresenta dezenas de variações de pronúncia na Espanha e América hispânica, mas apenas uma ortografia.
O português Marco Oliveira, programador da rede de televisão Portuguesa RTP, e a jornalista e apresentadora, Luísa Sequeira, também da RTP, acreditam que essa seja principalmente uma medida de fundo econômico. Eles contaram que ficaram surpresos ao chegar no Brasil e encontrar tantas pessoas falando a língua portuguesa. Marco Oliveira observa essa unificação de forma positiva e confessou que têm uma certa dificuldade em entender o português brasileiro, devido, principalmente as gírias usadas cotidianamente.
O acordo possibilita, entre outras facilidades, a criação de normas ortográficas comuns para as variantes da língua portuguesa, facilita a difusão bibliográfica e de novas tecnologias, reduz o custo econômico e financeiro da produção de livros e documentos. O diretor da Editora Universitária da UFPB, José Luiz, disse que por um lado às modificações permite aprofundar a cooperação entre as nações que falam português (terceira língua ocidental mais falada no mundo, depois do inglês e do espanhol), aumentando o fluxo de livros e publicações em todas as áreas, além de favorecer a produção de materiais para a educação a distância.
O diretor José Luiz acredita que as editoras terão que realizar essas mudanças de forma gradual, substituindo-se, por exemplo, os materiais didáticos e dicionários à medida que for necessária sua reposição nas escolas da educação básica.


Língua portuguesa

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Adriana Crisanto
Repórter
adrianacrisanto@gmail.com
adriana@jornalonorte.com.br

*Matéria publicada no Jornal O Norte em maio de 2007