O espírito de Marx



Mais uma biografia sobre Karl Marx acaba de sair. Trata-se de "Karl Marx ou o Espírito do Mundo” (Editora Record, 448 p. 2007. R$ 60,00) de autoria do ex-conselheiro do presidente da francês François Miterrand, o escritor e economista Jacques Attali.

Com tradução de Clovis Marques, a obra revela as relações singulares de Marx com o dinheiro, o trabalho e as mulheres. Além de nos apresentar o grande jornalista e um impressionante teórico.


Muita coisa foi escrita sobre Marx, o mais controverso personagem da filosofia, mas pouco foi respondido sobre a interpretação que deu a seu tempo, qual a sua teoria da conjuntura social, qual a sua visão histórica e que relação estabeleceu entre a sociologia, a história, a filosofia e a política?


O relato de Jacques Attali é interessante e o mais interessante era se Marx vivesse nos dais atuais para observar o mundo que ele mesmo orientou e onde chegou. Mesmo escrevendo sobre economia, globalização, Marx não foi o filósofo da tecnologia, não é o filósofo da alienação. Marx foi sociólogo e economista do regime capitalista.


Ele pensava sobre seu tempo e sobre o futuro e não sobre nosso tempo e de nosso futuro. No entanto, suas obras apresentam algumas dificuldades de compreensão, uma delas são as várias interpretações dadas ao seu pensamento. O teórico também escreveu muito e nem sempre disse a mesma coisa sobre os mesmos temas.


Sua obra é composta por textos da teoria sociológica, teoria econômica, história e teoria explícita que se encontram escritos em vários compêndios científicos. No livro o autor apenas refaz uma biografia que muitos já conhecem, com a diferença de que no primeiro capítulo ele traz a história dos ancestrais de Karl Marx.


A diversidade em Marx pode ser encontrada também nos períodos históricos. Alguns teóricos dizem que a vida dele pode ser dividida em dois períodos. O primeiro, chamado período da juventude, que são os escritos entre 1841 a 1848. Neste momento ele lança: “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” (ou o Ensaio sobre a Questão Judaica), escreveu e lançou “A Sagrada Família”, “A Miséria da Filosofia” (uma polêmica contra o filósofo Proudhon) e por último o “Manifesto Comunista”, considerado a obra-prima da literatura de propaganda.


O segundo período, foi a partir 1848, quando deixa de ser filósofo para se tornar um sociólogo economista, e lança “Contribuição à Critica da Economia Política (outra obra-prima) o “O Capital” (maior e mais polêmica obra dele). No Manifesto Comunista o tema central é a luta de classes. Nesta obra ele mostra as contradições da sociedade capitalista. Contradições entre as forças e as relações de produção.


O Capital é um empreendimento grandioso e genial, e compreende de três livros, que os livreiros antigos chamam de tomos. O primeiro volume foi publicado pelo próprio Marx, o segundo e o terceiro, são póstumos e por isso são contestados por sua veracidade e contradição. No primeiro volume de O Capital Marx fala dos tipos de troca, constrói a teoria do valor salário, da mais-valia, do valor-trabalho e a teoria da exploração.


O segundo volume foi publicado por seu amigo Engels e nele estão as compreensões ou incompreensões sobre a circulação do dinheiro na sociedade. Neste livro Marx elabora uma teoria macroeconômica comparada ao “Tableau Économique” de Quesnay e também uma teoria das crises.


De acordo com Marx, o caráter concorrencial anárquico do mecanismo capitalista e a necessidade de circulação do capital criam a possibilidade permanente de hiato entre a produção e a repartição do poder de compra.


O terceiro livro do Capital, conforme alguns estudiosos, também foi concluído por Engels e consiste num esboço de uma teoria do desenvolvimento histórico do capitalismo (regime) baseado na análise da sua estrutura. Os escritores de Marx sempre falam que o pensamento dele traz um relacionamento com o pensamento hegeliano, que consiste em apresentar um Hegel marxista. Para detectar isso basta apresentar Hegel de acordo com os manuais de história da filosofia, com um filósofo idealista, que concebe o histórico como o processo do desenvolvimento do espírito, para que Marx se torne essencialmente anti-hegeliano.


Todas as respostas que não são trazidas por Jacques Attali neste livro podem ser compreendidas em torno de conceitos ditos positivos e negativos, a exemplo da totalidade, a universalidade e a alienação. Mas, é evidente que Marx foi um homem que estava além do seu tempo e escreveu coisas que nunca pensaria que fossem tão atuais como é hoje.


Sobre o autor


O economista Jacques Attali foi assessor do presidente François Mitterrand (1981-1990) antes de fundar e presidir o Banco de Reconstrução e Desenvolvimento da Europa do Leste (Berd). Criou a A&A, consultoria internacional com sede em Paris, e preside a PlaNet Finance, organização de microcrédito para países do Terceiro Mundo, através da Internet. É autor de vários ensaios econômicos, romances e um livro de memórias. Dele, a Editora Record publicou Dicionário do século XXI.


Serviço:
Karl Marx ou O Espírito do Mundo

(Karl Marx ou l’esprit du monde)
Jacques Attali
Tradução de Clóvis Marques
Editora Record
448 páginas
Preço: 60,00.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com.br
Fotos: Divulgação.