Ciro Marcondes Filho lança livro em João Pessoa


Com cerca de trinta livros publicados na área de comunicação e mais trinta e três dedicados à arte de lecionar jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (Eca/USP), o professor doutor em Sociologia da Comunicação, Ciro Marcondes Filho, esteve em João Pessoa, na semana passada, para lançar um de seus últimos trabalhos, o livro “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?” (Editora Paulus. Coleção questões fundamentais, 120 p. R$ 19,20) dentro do evento Café e Debate, promovido pela editora em algumas capitais brasileiras.
Marcondes Filho é doutor pela Universidade de Frankfurt, Alemanha e professor titular da Eca/USP. É autor de obras como "Televisão: a Vida pelo Vídeo" e "Espelho e a Máscara: o Enigma da comunicação no Caminho do Meio", “Perca Tempo”, “A produção social da loucura”, O escavador de silêncios”, entre outros. Hoje é considerado um dos mais citados autores da área. É diretor do Núcleo de Estudos Filosóficos da comunicação (FiloCom) e o Núcleo José Reis de Divulgação Científica, os dois ligados à mesma universidade. Formou-se em Jornalismo e Ciências Sociais, pós-doutorou-se na França, tendo publicado coletâneas, traduções e obras próprias nas áreas de Comunicação, Filosofia, Jornalismo, violência e cultura. Produziu na Rádio USP-FM a série de programas O Teatro do Mundo – A Canção.
A entrevista a seguir foi realizada antes de sua palestra no Centro Tecnológico da Universidade Federal da Paraíba (CT/UFPB). Nela Marcondes Filho faz referência a pesquisa em comunicação, fala sobre a obrigatoriedade do diploma, uma questão ainda polêmica no jornalismo, explica e questiona sobre a questão da incomunicabilidade que existe na sociedade atual.

Professor, até que ponto, realmente, nos comunicamos?
Risos. Eu sou uma pessoa que passou a vida inteira incomodado com a comunicação. Fui estudante da Eca e fiquei fascinado com o fato de ter uma escola de comunicação e artes para estudar. E eu fiquei muito frustrado, porque tinham muitas disciplinas, mas ninguém estudava a comunicação. Ninguém tratava bem a questão. O que é esse relacionamento entre nós? Eu falo coisas, você ouve, eu respondo. O que é esse fenômeno que está acontecendo com a gente? Não só com nós, mas o que acontece também com televisão que fica mandando sinais para a casa das pessoas. Afinal de contas, o que está acontecendo com cada um nós? Foi quando decidi direcionar meus estudos um pouco para isso. O que significa você compartilhar com alguém algo que você tem, que você sente? Como é que essa história das pessoas viverem em sociedade e trocarem coisas? E a conclusão que cheguei é que na vida em sociedade você pouco se comunica. Você cruza com as pessoas na rua, no teu prédio, no trabalho, às vezes fala, outras vezes não. Sua vida inteira é marcada por esse trânsito. Quando na verdade você tem a sensação de que está participando e comunicando. Têm a sensação de que está participando. Daí, você chega em casa e percebe que pouca coisa mexeu com você. Estamos numa sociedade em que temos todas possibilidades de comunicação e pouco de fato nos comunicamos. O que eu sei de você e o que você sabe de mim? Quase nada. A comunicação que poderia ser uma relação humana de troca, compartilhamento, solidariedade, de compaixão, não existe. Há uma miséria muito grande nos relacionamentos humanos. Miséria das pessoas não se interessarem, de saberem que não se comunicam, de viverem numa ilusão de que com um telefonema ou com a internet você encontrará qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Você vive a ilusão que está se comunicando. O que está havendo é uma perda. Estamos perdendo a noção do que é o outro. O outro está se perdendo numa imagem que vai desaparecendo. A intenção do livro é chamar atenção das pessoas. Mostrar que elas estão perdendo a possibilidade de encontrar no outro uma conversa, uma ligação, que pode tornar a vida delas um pouco mais compensadora.

A que se deve essa incomunicabilidade?
Tem várias coisas. Não sei se antigamente as coisas eram melhores. Não sei se os vínculos eram mais fortes. Hoje temos problemas muito sérios nas cidades grandes. O fato de você se isolar em apartamentos. A aglomeração urbana é uma outra coisa séria, pois se cria uma relação impessoal com as pessoas. O que agrava também, por outro lado, é a invasão total, em todos os seus ambientes, por tudo que é da comunicação. As pessoas se expondo nas revistas, na televisão, no rádio, na web. E isso, de certa forma, destrói e desfaz aquilo que nos separava um pouco da massa, aquilo que era o nosso segredo. Tudo isso se perde. Você se torna mais débil, mais frágil, menos consistente enquanto pessoa.

Como diferenciar as atuações da teoria da comunicação e da teoria do jornalismo?
Eu ministrei aulas na teoria da comunicação. Esse é um tema muito particular e percebo que elas são diferentes mesmo. Se bem que acredito que teoria do jornalismo é um sub-item da teoria geral da comunicação. Mas, a teoria do jornalismo tem uma certa especificidade, muito particular e tem a ver com o instrumento que você está mexendo. Tenho um livro “A saga dos cães perdidos” (2000), que chama atenção para a responsabilidade do jornalista. Especialmente agora, na era do jornalismo on line, do jornalismo ao vivo, da velocidade da informação jornalística. Pela rapidez você não tempo suficiente para checar. O boato que você veicula circula por muito tempo sem se descoberto a verdade. Então você põe em risco, desmoraliza, você desacredita em instituições, pessoas, governos, etc., por uma coisa que não é verdadeira. E quando você vai corrigir não tem a mesma força. O jornalismo é uma coisa muito séria para ser exercida pelo jornalista. Essa coisa de você chegar com o furo, de não perder o tempo da notícia, colocar a questão da ética no jornalismo brasileiro numa posição muito secundária. O jornalismo tem uma posição muito especial na história da comunicação, porque são os primeiros a noticiar as coisas, a formar a opinião, a interferir no processo.

Nelson Traquina diz, no volume 1 do livro Teorias do Jornalismo, que o jornalismo é uma das áreas mais criticadas da sociedade...
Ele está trazendo coisas novas. Eu particularmente gosto do texto Ramoné, que é um jornalista e é um teórico ao mesmo tempo. Ele denuncia um pouco essa ambigüidade do trabalho do jornalista.

O senhor não acha que o jornalismo é uma profissão muito vulnerável?
O jornalista é um profissional que entra em contato com pessoas muito poderosas (do poder econômico, político, moral) e existe uma sedução muito grande de ambas as partes. O político e o grande empresário querem o jornalista. Existe um namoro entre as duas partes. Da maneira que dos dois lados existe interesse. O jornalista se torna algo muito facilmente da corrupção, da sedução e fascínio pelo poder. E onde ele vai encontrar uma reserva moral? Porque eu acredito que a pessoa tem que ter uma reserva moral para fazer bem feito e não deixar se seduzir e se comprar pelos poderosos. Isso você tem que cultivar de alguma forma, porque uma pessoa que não tenha essa reserva vai se deixar facilmente corromper. Ela se torna um agente e perde sua capacidade de autonomia e distanciamento. Porque jornalismo é uma coisa muito séria. O jornalista quando você for entrevistar um sujeito, ele precisa fazer uma pesquisa, um levantamento para saber quem é essa pessoa. Para quê ela não te enrole. O jornalista também precisa ter malícia para não ser ludibriado.

E quanto à obrigatoriedade do diploma para atuação profissional. Como o senhor observa essa questão?
Eu nunca fui contra o diploma não. Acredito que ele é muito criticado pelos empresários. O diploma é um mal necessário. Porque obriga o sujeito a passar pela universidade, onde você tem uma perspectiva que não é a do patrão. Se ele não passa por essa escola não vai ter essa reserva moral, o distanciamento, a visão critica das coisas. E também porque as pessoas precisam ser ensinadas a entrevistar. O que a gente ver são coisas absurdas.

Como o senhor avalia a pesquisa em comunicação no Brasil?
As melhores pesquisas e estudos ainda são muito provisórios. Os estudiosos ainda estão apalpando uma área. E o problema é que a área não pára. E a cada ano está mudando tudo outra vez. Reposicionando as situações. E isso faz com que tenhamos a sensação de que tudo vai muito devagar. Parece que tudo está mais longe.

Adriana Crisanto
Repórter
Fotos: Divulgação Paulus
Entrevista publicada no caderno Show do jornal O Norte.