Tragédia nos morros cariocas


"Tropa de Elite" é um retrato fiel do caos em que está mergulhada uma das mais importantes cidades do mundo

Eu não sou muito de fazer comentários sobre filmes, pois aqui na redação e no cenário intelectual-cinematográfico de João Pessoa existem pessoas muito mais gabaritadas para analisar, criticamente, a tonelada de filmes que são lançados no país e no exterior. Mas, chega a ser impossível não comentar sobre a mais nova polêmica cinematográfica brasileira, o filme "Tropa de Elite", do diretor José Padilha.
Para quem achava que eu não assistia filme, eu assisto, e fico também chocada e assustada com os inúmeros comentários que fazem sobre as obras e o emaranhado de situações que ocorrem depois que um filme é finalizado. Não está sendo muito diferente com Tropa de Elite. O filme não tinha ainda chegado nas salas de cinema do país e causou a maior polêmica entre produtores, críticos, mercado, cinéfilos e o que é pior, nos altos escalões da polícia brasileira. Sem falar no fato de que edições clandestinas circulam de norte a sul do país, antes mesmo dele ter sido exibido.
O filme, para quem ainda não assistiu, retrata o dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro (Bope), no ano de 1997, que deseja sair da corporação e tenta encontrar um substituto para seu posto. Paralelamente a isso, há a história de dois amigos de infância que se tornam policiais e se destacam por sua honestidade e honra. Eles ficam indignados com a corrupção no batalhão em que atuam e decidem entrar para o Bope para lutar contra isto.
As cenas de violência e humilhação são pesadas demais da conta e deixa a certeza que a polícia brasileira está preparada para guerra sem que para isso seja preciso encaminhar nossos homens para treinamento no exterior. O filme está inserido no gênero drama, mas bem que ele poderia ser lido como uma tragédia, pois termina com acontecimentos funestos que despertam o país para o horror que é o trafico de drogas e armas nas favelas do Rio de Janeiro.
Na opinião do jornalista e crítico de cinema, Alex Lacerda, as cenas de violência intensa, que permeiam todo o filme, não são o que mais chocam os expectadores e sim a angustiante sensação de reconhecimento de uma possível verdade sobre a corrupção nas instituições responsáveis por nossa segurança.
O filme, diz Lacerda, segue a tendência assumida pelo cinema nacional após o sucesso de filmes como "Cidade de Deus", "Carandiru e Amarelo Manga", que permeiam a crueza dos fatos com elementos de violência e da cultura marginal. "Como os demais, Tropa de Elite traz à tona uma realidade não usual e amargamente verossímil aos expectadores", disse.
Foi-se o tempo em que o cinema reproduzia os assaltos de bandidos a trens, aviões, e retratando de forma bucólica a vitória ou derrota dos bandidos. Os diretores estão virando suas lentes para direções contrárias para assim mostrar o que ainda não foi dito para sociedade abertamente. O cineasta Torquato Joel, que recentemente teve um dos curtas-metragens pirateados, disse que ainda não assistiu ao filme.
Torquato observa positivamente essa mudança de visão dos novos cineastas. "É uma outra realidade que estamos vivendo. O cinema não pode mais negar as coisas que estão ai. Ele tem mais é que sair das correntes do cinema americano e procurar encontrar outros nichos", comentou.
Em Tropa de Elite, o diretor, conta à história de outra maneira, apresentando a visão dos policias sobre o tráfico também de influências dentro das instituições de segurança no país. E essa é a pior parte, ou seja, ter a "certeza", de que a sociedade está entregue a esse monte de baratas que usam fardas, calçam botinhas de cor preta, desfilam em carros pintados e são tão malfeitores quanto os traficantes, agiotas e bandidos.
Se existe crime perfeito esse é um deles: homens abusando do poder dentro e fora de instituições de segurança pública e matando inocentes para também sobreviverem. Para pontear a história o diretor utiliza “Vigiar e punir”, uma publicação do teórico francês Michel Foucault. A obra é um estudo científico, em que o autor fala os métodos coercitivos. Métodos estes que vão desde a violência física ao poder das instituições de segurança pública. E fala muito da norma, da ordem e da disciplina rígida adotada por algumas instituições.

Saiba Mais

“Tropa de Elite” nasceu em meio à polêmica. Cópias piratas foram vendidas antes da estréia. O Bope tentou impedir a estréia na Justiça, mas não conseguiu. Parte dos espectadores que o assistiram consideram o filme é excessivamente “violento”.

Diretor não poupa a classe média

José Padilha faz referência também à classe média. Para falar sobre ela, o autor utiliza os consumidores de maconha e cocaína de uma das faculdades mais conceituadas do Rio Janeiro. O diretor não cita o nome, mas o cenário é a Pontifícia Universidade Católica (PUC/Rio), onde se concentra o maior número estudantes universitários de classe média do Rio. A estudante Valéria Costa, 23 anos, disse que o filme assusta e que não muito diferente acontece em universidades públicas e particulares do nordeste brasileiro. "Uma parcela da sociedade, que hoje pouco se fala, e que financia indiretamente o consumo e tráfico de drogas nas favelas", comentou.
Tentei entrar em contato com as instituições de segurança pública federal e estadual para que os mesmos opinassem sobre o filme e até mesmo para saber como os órgãos de segurança estão fazendo para controlar pirataria do filme aqui no Estado, mas não obtive sucesso em nenhum dos contatos. Por medida de segurança eles não quiseram opinar a respeito.
O coordenador do programa de Pós-Graduação em Sociologia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba (CCHLA/UFPB), o professor Ariosvaldo da Silva Diniz, após assistir três vezes ao filme, comentou que a abordagem dada pelo diretor José Padilha pode constituir numa armadilha unilateral das coisas, ou seja, a polícia vista apenas como de forma maniqueísta, mostrando o lado podre dela quando outros aspectos devem ser levados também em consideração, com o caráter humanitário que ele também presta a população e como essa mesma policia se encontra inserida em um sistema de repressão.
Outro dedo na ferida tocado pelo diretor é quanto ao papel das instituições de ajuda humanitária, as organizações não-govermentais, que estão inseridas nas zonas de risco social do Rio de Janeiro, que estão sujeitas a pressões tanto dos traficantes quanto da polícia. As Ongs são associações do terceiro setor que se declaram com finalidades públicas e sem fins lucrativos, desenvolvendo ações em diferentes áreas e que, geralmente, mobilizam a opinião pública e o apoio da população para melhorar setores da sociedade.
O professor do curso de jornalismo da UFPB, Pedro Nunes, chama atenção também para o vazamento de informações e quebra de confiança por parte dos integrantes da produtora do filme. No caso de “Tropa de Elite”, diz ele, isso é perfeitamente passível de punições. "A partir daí, temos uma cadeia de situações que por um lado se configura inicialmente como crime à propriedade autoral e, por outro, representa o acesso aos bens culturais. Temos a disseminação de uma proposta cultural que circulou por favelas, escolas, universidades, corporações policiais e, até, por tribunal onde foi vetada a liminar que impedia a exibição pública do filme. Essa situação paradoxal é uma realidade. A pirataria possibilitou projeção e discussão do filme, a criação de movimentos pela internet, gerou notícias e matérias polêmicas", disse.
Além do abismo de um país desigual, o filme é para Pedro Nunes uma espécie de recriação da realidade. "Tropa de Elite procura abrir os nossos olhos sobre a segurança pública no Brasil", finalizou.

Serviço
Filme: Tropa de Elite
Diretor: José Padilha
Estréia
Hoje
Local: Multiplex (Tambiá)

Adriana Crisanto
Repórter

adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@yahoo.com.br
Fotos: Divulgação