Som da Terra



Munido de uma enxada o poeta, arte-educador e percussionista paraibano Babilak Bah esteve de passagem por João Pessoa para divulgar o seu mais recente trabalho, o disco “Enxadário: Orquestras de Enxadas”, lançado no final do ano passado em Belo Horizonte (MG), onde reside atualmente.
O disco consiste num trabalho experimental de percussão. O CD contém onze músicas. Dez de sua autoria e a última faixa “Xote dos Poetas”, uma canção de autoria de Zé Ramalho e José Carlos Capinam. Música pouco conhecida e aqui ganha uma nova adaptação e interpretação. A canção é uma homenagem de Capinam e Zé Ramalho aos poetas.
O Enxadário de Babilak desafia o entendimento do que seja a música experimental do mundo. Os sons que saem das enxadas misturam-se aos instrumentos clássicos de forma que há pouco acordo sobre quão experimental uma música pode ser, antes de ser considerada apenas ruído.
Geralmente as bandas experimentais possuem instrumentos pouco conhecidos, modificados, ou utilizados de maneiras inovadoras; efeitos estranhos aplicados de formas pouco convencionais que misturam gêneros opostos, como música eletrônica e música clássica, por exemplo. Mas, a música produzida por Babilak desafia todas as concepções normais de como uma música deve ser, e extrapola os limites popularmente conhecidos.
As músicas são um pouco de tudo isso, com a diferença que existe um conteúdo “estético bacana” (como diria Zeca Baleiro), pois carrega consigo um apelo social forte, uma vez que reflete a voz dos trabalhadores rurais e chama atenção para questão do trabalho, da terra e das etnias no Brasil. O registro é ao mesmo tempo simbólico, traz um signo, a enxada, em que o artista denuncia o diabólico (a questão da Reforma Agrária e do êxodo rural).
O trabalho é resultado de mais de oito anos de pesquisa e várias oficinas ministradas para meninos de ruas e portadores de doenças psíquicas. Acompanham Babilak Bah neste trabalho músicos mineiros. Pode-se dizer que esse registro musical está inserido na concepção de “obra aberta”, ou seja, quando o artista permite que outras pessoas possam intervir no trabalho, ajudando a compor ou modificar algo dentro daquilo que o artista desenvolve, para que as subjetividades possam dialogar e dela sair um produto. “Eu gosto de dizer que esse trabalho não é apenas um trabalho de música, mas um trabalho poético, antropológico, sociológico, político e cultural”, acrescentou.
Ao olhar profundamente percebe-se neste “Enxadário” um trabalho biográfico do artista, pois nele está contido um pouco da história de vida de Gilson César da Silva, seu nome de batismo, filho de uma empregada doméstica e mãe solteira, dona Iracema Gomes da Silva, que resolve largar a enxada e a dureza da fome em Sapé, município localizado a cerca de 55 quilômetros da Capital, João Pessoa, para criar os filhos na Capital.
Da mãe, que também era emboladora de coco de roda, herdou o gosto pela palavra. “Cresci ouvindo seus cânticos e rimas populares de tom surrealista e às vezes, mera lenda. Aos 5 anos fugia para um bar próximo de casa para cantar e extrair som do corpo; voltava com os bolsos cheios de moedas e sorrisos que contaminavam toda família”, comentou.
Na infância batucava em pratos, latas, garrafas e rabiscava poemas na parede do banheiro para desespero de sua mãe. Habituado a solidão, criava mil histórias. Ele conta que foi criado na rua ao som das discotecas, vivia em acampamentos nas praias com emboladores e repentistas populares. Na adolescência conheceu Jaguaribe Carne (Pedro Osmar e Paulo Ro), sua maior influência musical, e não perdia os festivais de música. “Foram encontros com pessoas notáveis que mudaram radicalmente meu destino”, disse.
Conviveu com Aderaldo Leite com quem partilhou bares e a filosofia de Nietzsche, Bacunin, Gramsci e nomes que ajudaram a construir a sua revolução. Através de Maria de Nazaré Zenaide, psicóloga na associação de moradores do conjunto Tambaí, na cidade de Bayeux, aprendeu a valorizar a cultura popular, a negritude e conheceu os trabalhos de Pierre Verger, Naná Vasconcelos, Paulinho da Viola, Violeta Parra, Vítor Jarra e outros nomes da cultura latino-americana.
Envolveu-se com o movimento negro de João Pessoa e conheceu o multicultural, João Balula que percebeu suas inquietudes e o incentivou para o teatro e declamação de seus poemas, até então escondidos num baú. No final da década de 1980, ingressou na militância política, onde aprendeu a ter uma visão critica do mundo. Experimentou teatro, música e dança no curso de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e realizou performances em vários lugares do país. Morou em São Luis (MA), Recife (PE), Salvador (BA), Brasília (DF), Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG) e Buenos Aires.
Quando ainda residia na Capital era conhecido como Gilson Babilak, nome que registrou no seu segundo livro de poesia (Vôo Miragem). O nome Babilak nasceu nos tempos de acampamento na praia de Jacumã (litoral sul) ao começar tocar atabaque. “Uma pessoa na época disse que quando eu tocava um instrumento saia um monte de Babilak. Foi meu batizado”, revelou. O primeiro trabalho em Minas Gerais ele já assinava como Balilak foi quando resolver buscar suas raízes africanas e acrescentou o “Bah”, que é uma homenagem a cultura africana.
A primeira vez que viu alguém tirando som de uma enxada foi o percussionista Chiquinho Mino, num antigo projeto musical do Bar da Pólvora, centro histórico. “No outro dia corri numa feira e comprei uma enxada que tenho até hoje e se tornou à enxada mãe do projeto”, revelou. A enxada, enquanto instrumento percussivo no seu trabalho, só começou a fazer sentido durante a Eco 92, ao assistir a apresentação de um grupo folclórico na Bahia.
A paixão pela enxada levou o músico a criar 170 anagramas criados a partir da palavra enxada. Com isso criou também o dogma da enxada e o paradigma da enxada, que ele traz impresso na contra-capa do disco.
Hoje paralelo às atividades artísticas Babilak realiza um trabalho social com pessoas portadoras de comportamento psíquico, ou seja, os loucos. Esse trabalho consiste num projeto vinculado à Secretaria de Saúde do Município de Belo Horizonte (MG), órgão da Prefeitura Municipal. “Lá existe um movimento anti-manicomial, que pôs fim a todos os manicômios da cidade e a partir dessa ação foi criado um projeto substutivo ao manicômio, implantado em várias regiões de Belo Horizonte na forma de Centro de Convivência Social, onde os artistas da região passaram a trabalhar com as pessoas portadoras de doenças psíquicas”, explicou Babilak, que dá aulas de literatura e música em um dos centros sociais.
O trabalho com os portadores de doenças psíquicas resultou o seu primeiro registro musical intitulado “Trem Tan Tan”, que consiste num trabalho percussivo com pedaços de ferro, lixos e sucatas confeccionadas pelos próprios pacientes. “Trem Tan Tan” e “Enxadário: Orquestra de Enxadas” está sendo vendido em João Pessoa no Gabinete Cultural e no Sebo Cultural, no centro da cidade. Outras informações sobre o trabalho de Babilak Bah pode ser visto na internet, através do endereço eletrônico http://www.babilakbah.mus.br/ Outros contatos do artista são: babilakbah@hotmail.com ou (37) 9913.9650.

Serviço:
Enxadário: Orquestra de Enxadas
Balilak Bah (independente)
Onde encontrar: Gabinete Cultural e Sebo Cultural
Preço: R$ 17,00

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do jornal O NORTE, em fevereiro de 2007.


Mais um premio para Suely








O filme “O Céu de Suely” recebeu mais um prêmio. Desta vez o prêmio veio do 10o Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este realizado entre os dias 4 e 11 de fevereiro, no Uruguai. Participaram do Festival os filmes brasileiros: O Céu de Suely, de Karim Ainouz, O cheiro do ralo, de Hector Dalia, É Proibido Proibir, de Jorge Durán, e o desenho animado Wood e Stock, Sexo orégano y rock'n' roll, de Otto Guerra, inspirado na obra do quadrinista paulista Angeli.
O festival, que coincide com os festejos pelos 100 anos de Punta del Este, homenageou este ano o veterano diretor brasileiro Nelson Pereira dos Santos, conhecido mundialmente por clássicos como Rio 40 Graus, Vidas secas e Memórias do Cárcere.
A seleção de filmes do festival inclui produções da Argentina (Nacido y criado, de Pablo Trapero; El camino de San Diego, de Carlos Sorín; El destino, de Miguel Pereira, e La Punta del diablo, de Marcelo Paván): Bolívia ( Lo más bonito de mis mejores años, de Martín Boulocq); Chile (Padre nuestro, de Rodrigo Sepúlveda, e Salvador Allende, de Patricio Gusmán): Peru (Chicha tu madre, de Gianfranco Quattrini) e Venezuela (El Don, de José Ramón Novoa): México (El violín, de Francisco Vargas Quevedo, Sólo Dios sabe, de Carlos Bolado).
"O Céu de Suely" já acumula 19 prêmios nacionais e internacionais, incluindo melhor filme e melhor atriz no Festival de Havana, três prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte (melhor filme, melhor diretor e melhor atriz) e três prêmios no Festival do Rio (melhor filme, melhor diretor e melhor atriz).
A atriz Zezita Matos, que recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante, na segunda edição do Festcine Goiânia, em novembro de 2006, comentou que o filme tem agradado a muitas pessoas e se tornado um marco no cinema nacional. “Além de que o filme mexe com o lado psicológico e social dos nordestinos. Mostra uma realidade sem artifícios”, acrescentou Zezita que será uma das principais atrizes do novo filme de Eliezer Rolim, O Sonho de Inacim.
O Céu de Suely conta à história de Hermila, uma jovem que volta de São Paulo com seu filho recém-nascido para a casa de sua família, no interior do Ceará. Ela espera a chegada do marido que deve reencontrá-la. Mas ele nunca chega. Sozinha, Hermila tenta reeinventar a sua vida, mas continua com o sonho de ir embora para o lugar mais longe possível.
O elenco é formado por Hermila Guedes, Maria Menezes, Zezita Matos, João Miguel, Georgina Castro, Mateus Alves e Gerkson Carlos. O Céu de Suely, produção de Walter Salles e Mauricio Andrade Ramos, foi dirigido pelo cineasta cearense Karim Aїnouz (o mesmo de Madame Satã).
Em entrevista para revista eletrônica de cinema Deustsche Welle o cineasta Karim Aïnouz disse que a dramaturgia de O Céu de Suely é mais indutiva do que dedutiva. O filme impressiona porque foge um pouco ao que já foi contado sobre o nordeste. E nem tudo é contado, tudo é muito induzido pelo espectador.
A linguagem narrativa que predomina no Brasil é da televisão, e ainda é, segundo Karim, bastante radiofônica, ou seja, para se entender uma novela, por exemplo, basta escutá-la, talvez não seja necessário vê-la. “Através da permanência do olhar do espectador sobre a imagem procuro levá-lo a descobrir o cotidiano das coisas e das pessoas. Não é realismo, é hiper-realismo”, comentou.
Neste filme Karim não pensa o Nordeste como um aspecto cultural. O sertão para ele vem como algo emocional da distância. O filme tem como cenário a cidade de Igatú, município do sertão do Ceará, e aparece como um não-lugar, um lugar de passagem para onde o personagem é catapultado, um saguão de aeroporto. Um espaço também cheio de ícones de tempos diferentes em um mesmo lugar, por exemplo, uma feira nordestina em frente a uma loja de produtos asiáticos de plástico vendidos por R$ 1,99.
Karim diz ainda, nesta mesma entrevista, que o Nordeste é também uma tradicional região de emigração e que compor o filme foi muito fácil, uma vez que ele mesmo foi criado entre mulheres fortes e divertidas. “Tentei imaginar como seria o contrário, se fosse à mulher que decidisse reinventar sua vida, que partisse, deixando tudo para trás”, finalizou.


Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
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Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em fevereiro de 2007.

Festa do Conto







“Festa de Ontem” é o título do conto que garantiu a professora e escritora paraibana Joana Belarmino o primeiro lugar na 9a edição do Prêmio “Um Livro é um Amigo”, promovido anualmente pela Associação dos Cegos e Ambíoples de Portugal (Acapo). O concurso é aberto a países de língua portuguesa e se destina a pessoas com deficiência visual ou com baixa visão.
De acordo com Joana Belarmino, a idéia do conto surgiu no ano passado quando foi convidada para participar do Clube do Conto da Paraíba. O Clube é composto por intelectuais que se reúnem todos os sábados para leitura de sua produção. Em cada reunião um tema é trabalhado para seja produzido o conto para o próximo encontro. “A Festa de Ontem foi o meu primeiro conto lido no Clube”, disse Joana.
O conto “A Festa de Ontem” concorreu com outros 12 trabalhos. O segundo lugar, categoria contos, também foi para um brasileiro, o gaúcho Daneil Gause. Na categoria poesia, os primeiros lugares foram para escritores portugueses. A entrega do prêmio, em dinheiro (250 euros), acontece no dia 10 de março em Coimbra. Além do prêmio os classificados recebem um kit com obras do escritor Miguel Torga, que este ano será o homenageado do concurso. “Também serão distribuídas obras dele publicadas em Braille”, acrescentou.
A cerimônia, segundo a escritora, terá um caráter especial este ano. Os vencedores sairão em passeio pelas ruas da cidade em carro aberto (um troler), visitando todos os pontos onde Miguel Torga viveu. Logo após haverá a leitura dos contos e poesias premiadas e a entrega do prêmio na sede da Acapo.
Não é a primeira vez que Joana Belarmino leva o prêmio dos concursos da Acapo. Ela foi à vencedora na oitava edição do concurso com o conto “As Tantas Cordas do Sonho”, em que escreveu sobre a questão da cegueira.
O concurso, desde que foi criado, tem a intenção de promover e incentivar o gosto pela leitura e escrita em pessoas portadoras de deficiência visual (produção literária em prosa e poesia). O desejo dos promotores do Prêmio “Um Livro é um Amigo” é que na décima edição comemorativa seja publicado um livro com os contos e poesias premiadas.
Joana Belarmino de Sousa é jornalista, professora de metodologia do curso de Comunicação e Turismo da Universidade Federal da Paraíba (Decomtur/UFPB). Concluiu o doutorado em 2004 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), em que trabalhou com os aspectos comunicativos da percepção tátil: a escrita em relevo como mecanismo semiótico da cultura, e foi orientada pelo professor José Amálio Pinheiro.
Sua produção é vasta. Publicou na revista Benjamin Constant, seção Relato, dois trabalhos: O que vê a cegueira (nº 16, agosto/2000) e A cegueira, o braille e o jornalismo: furos de uma reportagem (nº 27, abril de 2004), ambos disponíveis no site do IBC. Foi repórter de O NORTE. É autora dos livros: Dartanham, Um Gato com Gosto de Pinto" (literatura infanto-juvenil), Editora Moderna, São Paulo, 4a edição (1989); "O Patinho Criança" (literatura infantil), Edição Independente (1979); “Era uma vez uma vírgula” (Editora Idéia); "O Comício das Veias", (contos e poemas em parceria com o poeta Lau Siqueira), Edição Independente (1993); Dissertação de Mestrado "A Luta dos Grupos Estigmatizados Pela Cidadania Plena: Um Estudo Sobre o Movimento Associativista dos Cegos na Paraíba" (1996).
É a atual presidente Associação Paraibana de Cegos (Apace) entidade responsável por sociabilizar os portadores de deficiência visual, que recentemente promoveu o lançamento do Guia do Greenpace sobre o aquecimento global em Braille, distribuição do alfabeto escrito em Braille e homenageou os 198 anos de nascimento de Louis Braille, inventor do método de leitura e escrita para pessoas cegas.

Quem foi Miguel Torga?

Miguel Torga é o pseudônimo de Adolfo Correia Rocha (1907/1995). Foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX. Filho de um camponês freqüentou o seminário e emigrou para o Brasil em 1920, aos 12 anos, para trabalhar na fazenda de café de um tio, em Leopoldina (Minas Gerais). Teve seus estudos patrocinados pelo tio e ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Publicou seu primeiro livro de poesia intitulado “Ansiedade”, em 1928.
Exercer a sua profissão de médico a partir de 1939 e onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a formatura em Medicina, com apoio financeiro do tio do Brasil. A obra de Torga tem um caráter humanista: criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza. Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e caráter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas aos pobres e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa. Foi o primeiro vencedor do Prêmio Camões.


Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Foto Ovideo Carvalho
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte em fevereiro de 2007.

Oscar 2007





Neste domingo (25) pode preparar o balde de pipoca e sentar-se na frente da televisão para assistir a entrega de prêmios da 79a edição do Academy Awards, popularmente conhecido no Brasil por “Oscar 2007”. A solenidade de entrega acontecerá no Kodak Theatre, em Los Angeles. A transmissão do evento será realizada em canais de televisão aberta e fechada do Brasil.

A Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood divulgou na semana passada os indicados ao prêmio deste ano. Entre os concorrentes indicados a categoria de melhor filme estão: Babel, Os Infiltrados, Cartas de Iwo Jima, Pequena Miss Sunshine e A Rainha. Na categoria de melhor diretor foram indicados Martin Scorcese (Os Infiltrados), o mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu (Babel), Clint Eastwood (Cartas de Iwo Jima), Stephen Frears (A Rainha) e Paul Greengrass (Vôo United 93)

No item melhor roteiro original estão: Guillermo Arriaga (Babel), Iris Yamashita and Paul Haggis (Cartas de Iwo Jima), Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine), Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno) e Peter Morgan (A Rainha). Na categoria de melhor atriz foram indicadas: Penélope Cruz (Volver), Judi Dench (Notas sobre um Escândalo), Helen Mirren (A Rainha), Meryl Streep (O Diabo Veste Prada) e Kate Winslet (Filhos da Esperança).

Entre os atores indicados estão os nomes de Leonardo DiCaprio (Diamante de Sangue), Ryan Gosling (Half Nelson), Peter O'Toole (Vênus), Will Smith (À Procura da Felicidade), Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia).

A lista de indicações é extensa e ao mesmo tempo cansativa, e não daria para citar todos. A internet disponibiliza uma série de comentários sobre o evento mais importante do cinema mundial que podem ser acompanhado nos websites do Yahoo, Terra e no site do canal de televisão fechada TNT. De acordo com os websites a disputa ainda é incerta e aponta vários favoritos. Os analistas de premiações da agência Reuters, por exemplo, identificaram "Pequena Miss Sunshine" e "Os Infiltrados" como favoritos certeiros para o Oscar, mas disseram que a disputa por vários dos prêmios ainda está totalmente aberta.

O diretor do site Movie City News, David Poland, acredita que esse ano será bem dividido. “Prevejo que nenhum filme receberá mais que três Oscar e que os vencedores estarão espalhados", comentou. A produção independente "Pequena Miss Sunshine" ganhou impulso, segundo os especialistas, na disputa pelo melhor filme, depois de ser premiada como melhor longa pelo Sindicato dos Produtores da América, melhor elenco pelo Sindicato dos Atores e melhor roteiro pelo Sindicato dos Roteiristas.

O policial "Os Infiltrados", de Martin Scorsese, também tem chances boas, já que Scorsese foi considerado o melhor diretor pelo Sindicato dos Diretores e William Monahan recebeu o prêmio de melhor roteiro adaptado do Sindicato dos Roteiristas.

A decepção de Ennio Morricone

Para alguns artistas, produtores e cineastas de plantão as indicações do Oscar 2007 causaram uma certa decepção. Foi o caso do compositor italiano Ennio Morricone. Ele é o autor de trilhas sonoras de 400 filmes e vencedor de importantes premiações do cinema. O músico, em entrevista ao Cine Click, desabafou que há uma incômoda lacuna na sua estante.

Embora faça criticas Morricone já recebeu da Academia cinco indicações ao prêmio de melhor trilha sonora nos filmes: Cinzas no Paraíso, A Missão, Os Intocáveis, Bugsy e Malena, mas não conseguiu vencer em nenhuma das ocasiões.

Morricone, que completa 79 anos este ano, diz está desiludido e que havia descartado a hipótese de entrar para o hall de vencedores. O que consola Ennio Morricone é que ao seu lado estão outros ícones do cinema que nunca levaram a pequena estátua para casa, como o diretor Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock.

“Após cinco indicações, eu não esperava mais nada. De fato, esperava permanecer sem um Oscar. Estou em companhia de ilustres não-vencedores. Vejo o Oscar como uma casualidade da sorte – mesmo os que merecem ganhar. Isso não significa que não estou feliz. Recebi muitos prêmios maravilhosos e incríveis, mas ainda havia um pequeno vazio. Talvez o Oscar o preencha”, comentou Morricone.

O Brasil no Oscar

O Brasil vem há muito tempo sonhando com a estatueta dourada. Chegou perto, mas nunca levou um prêmio para casa. Este ano o longa-metragem de Marcelo Gomes, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, deveria representar o Brasil, mas ainda não foi dessa vez. Na opinião dos críticos brasileiros, o filme de Marcelo teria condições de disputar uma vaga. No entanto, ao concorrer com 60 produções de todo o mundo, "Cinema, Aspirinas e Urubus" não foi indicado.

No ano passado o filme “Dois Filhos de Francisco – A História de Zezé di Camargo & Luciano”, escolhido pelo Ministério da Cultura para concorrer a uma indicação do Oscar 2006. O filme foi dirigido por Breno Silveira e levou mais de seis milhões de espectadores ao cinema. Mas, o drama dos sertanejos não convenceu aos integrantes da Academia, mesmo com todo lobby feito pela Conspiração Filmes e pela Columbia Pictures.

O excelente Diários de Motocicleta do diretor Walter Salles, em 2005, foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (roteiro de José Rivera, baseado no diário escrito por Che Guevara durante uma viagem pela América Latina, em 1952) e Melhor Canção (pela música "El Otro Lado del Río", do cantor uruguaio Jorge Drexler), o filme é falado em espanhol, financiado por grupos estrangeiros e realizado por equipe latino-americana. Por ser considerada uma produção de vários países, o filme não pôde concorrer ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro.

Desde 1963 que o Brasil tenta concorrer ao prêmio da Academy Awards a concorrer à categoria de melhor filme estrangeiro. A primeira indicação nacional ocorreu em 1963, com "O Pagador de Promessas", dirigido por Anselmo Duarte. Acabou perdendo para o francês “Les Dimanches de Ville d´Avray”.

Muitos anos depois foi a vez de Sônia Braga e companhia concorrer com o filme “O Beijo da Mulher Aranha” cujos créditos de produção foram divididos entre Brasil e Estados Unidos, e foi indicada a quatro Oscars em 1986: Filme, Roteiro Adaptado, Direção (Hector Babenco) e Ator (William Hurt). Acabou levando apenas o último.

No ano de 1996, O Quatrilho voltou a sonhar como troféu de melhor filme estrangeiro. "O Quatrilho", de Fábio Barreto, conseguiu uma vaga entre os cindo indicados em 1996. A história de imigrantes italianos no sul do país perdeu para o holandês “A Excêntrica Família de Antonia”.

Na cerimônia de 1998, o Brasil voltou a fazer torcida. Desta vez, o indicado era "O Que é Isso Companheiro", filme de Bruno Barreto sobre a ditadura no país. Perdemos novamente para um holandês, “Caráter”.

Em 1999, o filme Central do Brasil foi indicado para duas categorias do Oscar: melhor filme estrangeiro e melhor atriz. Na primeira, perdeu para “A Vida É Bela”, do italiano Roberto Benigni. Na segunda, quem tirou o troféu das mãos de Fernanda Montenegro foi a norte-americana Gwyneth Paltrow, por sua atuação em “Shakespeare Apaixonado”.

No ano de 2004, o filme Cidade de Deus, apesar de ter ficado fora da disputa na categoria melhor filme estrangeiro, na premiação do Oscar ocorrida em 2003, o filme brasileiro surpreendeu ao receber quatro indicações para o troféu de 2004: Direção (Fernando Meirelles), Montagem (Daniel Rezende), Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani) e Fotografia (César Charlone).

Adriana Crisanto
Jornalista

adriana@jornalonorte.com.br
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Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O NORTE, em fevereiro de 2007.

Locadoras de DVD fazem pacotes para o carnaval



A opção para quem não vai brincar o carnaval é acompanhar as transmissões ao vivo pelas emissoras de televisão ou ir a locadora mais próxima de casa e alugar uns DVD´s. Mesmo com o fechamento de vários pontos de locação de filmes alguns lugares ainda resistem. Em visita as locadoras de João Pessoa conferimos o preço dos pacotes, as dicas de lançamentos e ficamos por dentro da crise que as locadoras de filmes estão enfrentando devido à onda da pirataria.

A Yellow Vídeo, da Epitácio Pessoa, uma das maiores da cidade, para concorrer com os piratas de filme e tentar escapar da crise, há cerca de dois meses (período de férias escolares), baixou o preço da locação para R$ 1,99 e está com pacotes especiais para o carnaval. A locadora funcionará sábado e domingo (17 e 18) em expediente normal. Locando três ou mais filmes, o cliente poderá devolvê-lo na quarta-feira de cinzas. Inclusive os lançamentos.

Quem mora na orla marítima paga a mais cara locação de DVD da cidade. Os preços variam entre R$ 4,00 (para os filmes mais antigos do catálogo) e R$ 5,00 (para os lançamentos). O preço, segundo os proprietários, é compensado com serviço que é oferecido em alguns locais, com atendimento, ambiente climatizado, opção de trailler para o cliente assistir os filmes antes da locação e lançamentos bastante atuais. “Aposta na qualidade do serviço foi o único jeito que encontramos para driblar a pirataria”, comentou Ricardo Closzer, proprietário da Ribalta Vídeo que tem aproximadamente oito mil títulos.

No centro e zona sul da cidade de João Pessoa (Bancários, Mangabeira e Valentina) são poucas as locadoras de filmes. Num passeio pelo bairro pode-se encontrar pequenos estabelecimentos, sem grande representatividade. No bairro da Torre uma das locadoras mais completas é Quality Vídeo. O gerente, Leonardo Medeiros, é um dos empresários de locadora que combate firmemente à pirataria e diz que a situação das locadoras é caótica.

A Quality, apesar de bem equipada, também tem um preço salgado para locação, mas neste feriado está com pacotes especiais que dá direito a filme grátis. O preço da locação para filmes antigos é R$ 3,00 e lançamento R$ 4,00. A loja é uma das poucas que fica aberta de domingo a domingo. Boa parte dos DVD´s são novos, pois estão ligados a cooperativa Rede Filme que garante a originalidade dos DVD’s.

Leonardo Medeiros tem um acervo aproximado de três mil filmes, entre novos e antigos. Uma das especialidades da Quality são os filmes épicos, de guerra, os faroestes americanos e clássicos como Ben Hur.

A Vic Locadora de Vídeos, no conjunto dos Bancários, o proprietário, Dougue Vicent, para driblar a crise da pirataria apelou para informática. Dividiu o ambiente em dois. De um lado as prateleiras com a locação de DVD’s (que custa R$ 2,50 neste carnaval) e de outro quatro micro-computadores com internet banda larga paga a R$ 2,00 a hora. O mesmo pode ser observado nas locadoras do centro e dos bairros de Tambiá, Torre, Jaguaribe, Bairro dos Estados e Jardim 13 de maio.

Em quase todas as locadoras quando se entra vê-se uma variedade de balas, pipoca, sorvete, refrigerante dividindo o mesmo espaço com a mercadoria filme. É exatamente aquilo que diz o sociólogo Georg Simmel no livro O Dinheiro na Cultura Moderna (Ed. UnB): “É rigor das relações econômicas da vida moderna que acaba ampliando a vida monetária e social dos indivíduos”. Outra forma de escapar da crise monetária tem sido a conversão de fitas VHS para DVD. O serviço é oferecido apenas pelas locadoras de porte maior. A Ribalta (Tambaú, Manaíra e Bessa) e a Quality Vídeo se mostram bem equipadas neste item e ainda disponibilizam de websites na internet para que o cliente possa conferir antes de ir a loja alugar um filme.

Sugestoes das locadoras

Mesmo diante desta realidade os proprietários de locadoras nos deram sugestões de filmes que vão ajudar aqueles que não tem nem dinheiro no bolso e nem samba no pé e nem tão pouco gostam do “frever de mono”.

Um dos filmes mais locados na Yellow Vídeo, de acordo com a gerente, Luciana Gabinio, são as temporadas do seriado Lost, e também os filmes de ação como: “Piratas do Caribe – o baú da morte” e “Velozes e Curiosos”. Entre os lançamentos uma das dicas da locadora é “Nacho Libre”, uma comédia ao estilo besteirol mexicano que tem agrado jovens e adultos.

O título foi lançado no ano passado e o filme conta à história de Nacho (Jack Black) que foi criado em um monastério mexicano, localizado em Oaxaca. Para tentar salvar o local ele decide se inscrever em um torneio de luta livre. Porém esta atitude tem também outro motivo: o interesse de Nacho pela irmã Encarnación (Ana de la Reguera), uma bela freira mexicana que chegou recentemente ao monastério.

Um dos filmes mais locados da Yellow é “Superman o retorno” e entre o gênero documentário “Quem somos nós” dos diretores William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente. O filme fala de Amanda (Marlee Matlin), uma mulher que entra numa fantástica experiência ao estilo ”Alice no País das Maravilhas” enquanto seu monótono cotidiano começa a se desmanchar. Esta situação revela o incerto mundo escondido por trás daquilo que se costuma considerar realidade. Amanda mergulha num turbilhão de ocorrências caóticas que revelam um profundo e oculto conhecimento do real. Ela entra em crise e questiona o sentido da existência humana.

A dica para locação de Ricardo Closzer da Ribalta Vídeo são: “Click” de Frank Coraci, com roteiro de Steve Koren e Mark O'Keefe. Click conta à história de Michael Newman (Adam Sandler), casado com Donna (Kate Beckinsale), com que tem Ben (Joseph Castanon) e Samantha (Tatum McCann) como filhos. Michael tem tido dificuldades em ver os filhos, já que tem feito serão no escritório de arquitetura em que trabalha no intuito de chamar a atenção de seu chefe (David Hasselhoff). Um dia, exausto devido ao trabalho, Michael tem dificuldades em encontrar qual dos controles remotos de sua casa liga a televisão. Decidido a acabar com o problema, ele resolve comprar um controle remoto que seja universal, ou seja, que funcione para todos os aparelhos eletrônicos que sua casa possui.

Outro título recém chegado na locadora Ribalta é “O Diabo Veste Parda” que traz no elenco Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Adrian Grenier, Simon Baker, Gisele Bündchen, com direção de David Frankel. O filme fala sobre o mundo das mulheres e tudo que tem de melhor e pior neste universo. A história se baseia no livro homônimo de Lauren Weisberger, que foi escrito pela autora como vingança contra a toda-poderosa Anna Wintour, editora da revista Vogue. Lauren era assistente de Anna e teve que comer o pão que o diabo amassou para agüentar a vaidade e auto-centrismo da chefe. Se fosse homem, pelas coisas que a madame aprontou para ela, teria enfartado ou decidido os oito anos que a suportou no braço.

Na Quality Vídeo as dicas de Leonardo Medeiros são: “A Sonhadora”, que tem no elenco a atriz mirim Dakota Fanning (de Guerra dos Mundos). Ela é Cale, uma garota que sonha em ter um cavalo de corrida na fazenda onde vive. Para tentar satisfazê-la, já que a família não possui dinheiro para comprar um, seu pai negocia com o patrão uma égua que está com a pata quebrada. Apesar de todas as dificuldades, eles acreditam que podem recuperar a égua, apelidada de Sonhadora, e que um dia já foi uma grande campeã.

Outra sugestão de Leonardo Medeiros é “A Casa do Lago” que tem no elenco Keanu Reeves, Sandra Bullock, Shohreh Aghdashloo, Christopher Plummer. O filme conta à história de Kate Forster (Sandra Bullock), uma médica solitária que morava numa casa à beira de um lago. Ela passa a trocar cartas de amor com o novo morador da residência, o arquiteto frustrado Alex (Keanu Reeves). No entanto, percebem que existe um espaço de tempo que atrapalha o "relacionamento" entre os dois. Percebendo a aura de mistério em torno da troca de cartas, eles tentam driblar esse contratempo para que, finalmente, a hora certa para que se amem chegue.

Enquanto isso em Los Angeles

Enquanto as locadoras de filme sassaricam para sobreviverem em Los Angeles (LA), neste domingo (25), a Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood promove a entrega de prêmios mais famosa do mundo: a 79a edição do Academy Awards, onde as estrelas do cinema americano desfilam por um tapete vermelho com seus vestidos dourados, roupas de pingüim e muitos diamantes. E ficam dentro de um teatro lotado de artistas, com câmeras para todos os lados, a espera de receberem, ou não, um estatua dourada e careca, símbolo do evento, que ficou conhecida por Oscar.

Tamanha contradição só poderia vir desses americanos obcecados por dinheiro, poder, guerra e riqueza, e responsáveis por alimentar não apenas uma indústria cultural injusta, mas sustentar um sonho na cabeça daqueles que nem dinheiro dispõe para comer o feijão com arroz de cada dia e se nutrem da luz do cinema na tentativa de serem um pouco mais felizes.

Tudo, segundo os especialistas em cinema e cinéfilos de carteirinha, em nome da arte e da cultura. E que arte! Uma arte que muitas vezes só mostra uma realidade. E uma cultura que evidencia apenas o lado escuro ou trágico, ou como prefere Simmel, novamente, realidade apenas da cultura objetiva que se torna crescentemente cultivada e rica, seja em relação à técnica, ciência ou arte, enquanto os indivíduos se tornam, paradoxalmente, cada vez mais pobres, pouco cultivados e embriagados pela sociedade do Deus-dinheiro.


Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Foto: Sandra Bullock em A Casa do Lago
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte

Trio elétrico de Armandinho Dodô e Osmar arrasta as Muriçocas do Miramar


Para comemorar os 21 anos de existência o bloco Muriçocas do Miramar traz para animar sua prévia carnavalesca, na quarta-feira de fogo, dia 14 de fevereiro, o Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, que após o falecimento de Osmar, um dos criadores do trio, é comanda pelos filhos Armandinho, Alberto, Aroldo e André Macêdo.
Este ano, o bloco Muriçocas do Miramar completa a maior idade e adotou o slogan "21 Anos – Dona do seu próprio nariz". O estandarte está sendo confeccionado pelo artista plástico Chico Pereira, e a arte da camiseta quem assina é o grafiteiro Shiko. A nova sede do bloco está localizada na Rua Nevinha Cavalcante, 277, no bairro do Miramar (Praça do Rotary).
No ano passado, o bloco rendeu homenagem aos artistas paraibanos e trouxe entre outras atrações o cantor e compositor Zé Ramalho. De acordo com o atual diretor do bloco, Marconi Serpa, a intenção das Muriçocas, desde sua criação, foi fazer com que o frevo fosse o som predominante e o trio de Dodô e Osmar tem essa tradição do frevo. “Com o tempo foi que o axé foi tomando conta da Bahia e tomou a dimensão que é atualmente com uma diversidade infinita de sons, mas o Dodô e Osmar têm essa tradição desde quando Moraes Moreira se apresentava junto com o trio”, comentou.
A família Macêdo vai executar, nas Muriçocas, clássicos do frevo pernambucano, a exemplo de Vassourinhas. “Estamos ensaiando sucessos antigos do Dodô e Osmar, que fazem parte da história do trio. E o frevo é um desses ritmos que sempre tocamos nas nossas apresentações. Por isso estaremos reforçando e resgatando os frevos antigos, o frevo rasgado, o frevo-rock e um frevo mais lento que mistura um pouco da batida do reggae e do samba”, explicou por telefone o guitarrista Armandinho Macêdo.
Todos os anos a cidade consegue reunir cerca de 400 mil pessoas entre pessoenses e turistas de todas as partes do país e do mundo numa única noite para se divertirem num percurso aproximado de cinco quilômetros. A concentração do bloco está prevista para começa às 19h00, na Praça Tito Silva, que mais uma vez será animada pela clássica Orquestra Metalúrgica Filipéia. O projeto cultural 'Muriçocas do Miramar' tem o patrocínio da Eletrobrás e Chesf, através da 'Lei de Incentivo à Cultura' (Lei Roaunet do Governo Federal).

Armandinho e a guitarra baiana

Armando da Costa Macêdo é um velho conhecido dos paraibanos. Instrumentista, cantor e compositor brasileiro, natural de Salvador (BA), desde criança Armandinho esteve plugado a música de carnaval, do frevo e dos trios. “Desde que me entendo de gente eu e meus irmãos temos uma ligação com a música de carnaval e com os trios elétricos. A primeira coisa que aprendi foi aquela batida característica do frevo”, disse.
Com o tempo Armandinho começou a ter destaque também com a guitarra baiana, um instrumento elétrico de quatro cordas, criado por seu pai Osmar Macêdo. Ele nasceu para ser executado em trio elétrico. Com suas quatro cordas originais, a guitarra baiana é afinada como o bandolim ou o violino - sol, ré, lá e mi (do grave para o agudo). Armandinho, filho de Osmar Macêdo, sentindo necessidade de obter um som mais grave, adicionou ao instrumento uma quinta corda, com afinação em dó.
A dupla "Dodô e Osmar" (Adolfo Nascimento e Osmar Álvares Macêdo), ambos de Salvador, teve a idéia de construir um novo instrumento a partir de uma apresentação, na capital baiana, do músico Benedito Chaves, que utilizava um amplificador acoplado a um violão.
Dodô, técnico em eletrônica, junto ao amigo, fez vários testes com madeira e posicionando o amplificador sob as cordas, conseguiu evitar a microfonia que verificaram ocorrer na apresentação que tinham assistidos.
Feito o instrumento, um ano depois do americano Les Paul haver criado o protótipo da primeira guitarra elétrica - e sem conhecer o trabalho deste - dois baianos inventavam a guitarra, que ganhou o apelido de pau elétrico. Era o ano de 1942, e da apresentação deste invento, sobre uma velha "fobica" nas ruas de Salvador, teve início o trio elétrico nos carnavais, pois a dupla tinha, tocando o pau elétrico, o amigo Temístoles Aragão.
Com o tempo Armandinho foi se destacando na guitarra e no bandolim eletrificado. Na década de 1970 formou o grupo A Cor do Som. Com a banda gravou cinco LP´s, um CD e recentemente, após o retorno da banda gravou um CD e um DVD, gravado no Canecão no Rio de Janeiro. Além da banda Armandinho tem sua carreira solo, onde se apresenta em quase todo mundo divulgando a sua música instrumental.A discografia dele é bem extensa. Tem gravado o compacto simples Armandinho Macedo, ao vivo (1969), o compacto duplo Armandinho Macedo (1969), o LP Armandinho Macedo (1970), o independente Brasilêro (1990) e regravado pela Movieplay em 1996, o CD “O Melhor do Chorinho: Armandinho e Época de Ouro” (1996), Armandinho e Rafael Rabelo (1997), Retocando o Choro Tom Brasil (1999), A Voz do Bandolim (2001) e Retocando o Choro Ao Vivo (2003). Além da vasta discografia com o Trio Elétrico Dodô e Osmar. Fora os projetos musicais de resgate da música, a exemplo do projeto “Homenagem a Tom Jobim – Música Instrumental Brasileira”, “Armandinho e Trio Elétrico Instrumental”, “Por do Sol no Castelo” e “Armandinho Convida”.
Adriana Crisanto
Fotos de divulgaçao
Texto publicado no caderno Show do Jornal O NORTE em Janeiro de 2007.

Andorinhas à vista


No período de 4 a 13 de maio a cidade de João Pessoa será palco da terceira edição do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport), evento instituído pela Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, instituição ligada à empresa Guataguazes de Energia Elétrica, que na Paraíba é representada pela Saelpa. O 3o Cineport terá como sede a Usina Cultural da Saelpa, localizada entre os bairros de Tambiá e Torre.
O evento foi criado com o objetivo de integrar e desenvolver o mercado audiovisual, promovendo os filmes realizados em português e dialetos falados nas nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
O Festival esse ano terá como homenageado o cineasta paraibano Vladmir Carvalho. A presidente da Fundação Ormeu Junqueira, Mônica Botelho, disse que os preparativos para o evento estão a todo vapor e que o 3°Cineport irá conceder cinco tipos de troféus: Andorinha, Andorinha Digital, Andorinha Técnica, Andorinha Criança e Humberto Mauro. Para selecionar as realizações e conceder o Troféu Andorinha, na modalidade 35mm, foi criada em 2004, a Confraria do Cinema, formada por profissionais da área, que atua nos países de língua oficial portuguesa.
Para falar sobre os detalhes da programação, esclarecer aos pontos do evento, procuramos a presidente da instituição Mônica Botelho que nos concedeu gentilmente uma boa entrevista via correio eletrônico. Leia a entrevista:


Como se encontram os preparativos para a edição do CINEPORT aqui em João Pessoa?
Os preparativos estão correndo muito bem, estamos viajando para Portugal no Carnaval para fechar vários acordos para esta edição, nosso diretor do Festival e responsável pela curadoria dos filmes digitais, o cineasta Marcos Pimentel, irá para Cabo Verde e Angola em fevereiro e março para ministrar umas oficinas e conferir de perto a produção atual desses países.Em João Pessoa iniciaremos em março um programa nas escolas públicas em colaboração com o Estado abordando o universo dos países de língua portuguesa e preparando as crianças e jovens para o Festival que vai acontecer na cidade.

Quais atrações estão confirmadas?
No campo das atrações e presenças confirmadas ainda é muito cedo para apresentar todos os nomes, estamos ainda em fase de seleção dos filmes e das atrações. Já posso adiantar que nossos homenageados do Festival serão os cineastas Vladimir Carvalho com quem tive o prazer de almoçar ontem aqui no Rio, o cineasta africano Zezé Gamboa e a portuguesa Maria Medeiros ainda a confirmar. Fiquei muito feliz em homenagear nesta edição o paraibano Vladimir Carvalho que apresentará na abertura do Festival o seu novo filme, O Engenho de Zé Lins, sobre o escritor paraibano, Enfim, ainda bem que a Paraíba tem tantas coisas par apresentar no Festival. Já estamos fechando também com o Marcus Villar a participação do novo filme dele em homenagem a Ariano Suassuna.

A presença do escritor Gabriel Garcia Marquez está confirmada?
Não convidamos o Gabriel Garcia Marques, e nem pensamos em fazê-lo, apesar de que ele seria uma presença importante, que honraria qualquer festival. No entanto, como nosso Festival tem seu foco de atuação nos países de língua portuguesa, vamos convidar autores desses países. Aliás, estamos fazendo uma parceria com uma nova editora, a Língua Geral, que é dirigida pelo celebrado escritor angolano José Eduardo Agualusa, para o desenvolvimento de um Laboratório de Roteiros envolvendo seus autores, todos oriundos dos países de língua portuguesa. Esta será uma das novidades desta edição do Festival. Pretendemos realizar um ciclo de debates cinema-literatura no âmbito do Festival. Neste sentido, vamos contatar a Universidade da Paraíba em nossa próxima visita a João Pessoa, e propor uma parceria para esse segmento especifico do Festival.

Os funcionários da Saelpa vão poder participar do evento? Como acontecerá?
Sim todos os funcionários serão convidados a participar do evento, bem como toda a população de João Pessoa, pois o acesso ao Festival se dará de forma muito democrática. Todos os ingressos para as sessões serão distribuídos gratuitamente, com exceção de poucas sessões exclusivas para convidados. O esquema de distribuição de senhas será divulgado oportunamente.

Além do CINEPORT que outras atividades e projetos culturais estão sendo planejados para 2007 pela Fundação Ormeu Junqueira para a Usina Cultural da Saelpa?
Temos já definida nossas exposições de artes visuais para o ano de 2007, sempre dentro dos parâmetros que fazem da nossa galeria de artes uma das melhores do Estado, trazendo sempre para João Pessoa exposições de fatura contemporânea e de grande qualidade. Além disto, os projetos de arte –educação aliados ao projeto Café com Pão Arte ConFusão estão a mil, e cumprindo uma agenda de grande importância na vida de seus jovens freqüentadores, que descobrem na arte uma possibilidade de crescimento e desenvolvimento pessoal.

O que levou a senhora e sua equipe a desenvolver um projeto como o CinePort?
O desejo de realizar um Festival inédito que pudesse estabelecer laços com os países que compartilham da nossa mesma língua.

Qual a maior ou maiores dificuldades de levar cultura para os estados da Paraíba, Minas Gerais e Rio de Janeiro?
A Fundação atua em espaços e lugares identificados como fora do eixo da produção/difusão cultural brasileira, a Paraíba, a Zona da Mata Leste de Minas Gerais, o Estado de Sergipe e o município de Nova Friburgo no Estado do Rio de Janeiro. No entanto, pautamos nossas ações com a mesma qualidade e ousadia das chamadas cidades do eixo. È óbvio que é mais fácil realizar eventos de grande porte em cidades e estados maiores, onde existe maior circulação de recursos. Mas creio na excelência da produção dos lugares onde atuamos, que é também muito vigorosa e de muita qualidade, e não fica nada a dever aos outros lugares. Sendo assim, acredito que temos que pensar grande e lutar para conseguir realizar eventos que se traduzam em visibilidade para esta produção. O Ministério da Cultura do atual governo tem pensado estratégias para driblar esta concentração de recursos no Sudeste e nas grandes capitais, mais ainda nada de muito efetivo foi realizado neste sentido. Acho que uma estrutura de incentivos fiscais diferenciada deveria ser adotada nos projetos que são realizados fora do eixo, com o objetivo de seduzir as empresas a participarem mais. No nosso caso, temos a sorte de contar com a nossa mantenedora, a Saelpa, que financiará grande parte do evento. Mas ainda sim estamos buscando patrocínios complementares em outras empresas, pois Festivais consomem grandes recursos e, no caso especifico do CINEPORT, sua característica internacional eleva os gastos com passagens e hospedagens.

E como é para a senhora estar presidindo uma das mais importantes instituições culturais do país?
Acho que a Fundação tem tido o reconhecimento público de suas ações porque fazemos tudo dentro do espírito muito bem sintetizado por uma frase de Santo Agostinho, que se tornou nossa lema: ”Nada merece ser feito mesmo que bem feito se a alma não estiver no feito”, ou seja, é com um alto grau de entrega e paixão que realizamos nossas ações. E por isto me sinto muito orgulhosa de estar à frente de uma instituição que pensa e age assim.

O que a Fundação Ormeo Junqueira pensa em fazer pela cultura popular no Estado da Paraíba?
Estaremos intensificando muito em breve nossa atuação neste campo da cultura popular na Paraíba. Ainda estamos em fase de consolidação de nossas propostas iniciais de trabalho e, portanto novos programas e projetos podem ser aguardados para o futuro.

No ano passado, estavam sendo programados para funcionar o Memorial Ataulfo Alves em Miraí, o Memorial Humberto Mauro em Cataguases, a Biblioteca Infanto-Juvenil Lya Maria Müller Botelho em Leopoldina. Esses espaços já foram inaugurados?


Infelizmente houve um atraso em nosso cronograma devido a uma cirurgia que me tirou de combate por dois meses no ano passado. Mas nosso novo cronograma prevê para abril as aberturas dos Memoriais Humberto Mauro e Ataulfo Alves e para o segundo semestre, provavelmente em agosto, a inauguração da Biblioteca Lya Maria Junqueira Botelho em Leopoldina.




Adriana Crisanto





Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O NORTE em fevereiro de 2007.


Fotos de divulgaçao da assessoria de imprensa da Saelpa.






Celly e sua paixão por Jesus


“Foi uma iluminação divina”. Está foi a frase usada pela arte-educadora, atriz, diretora e agora dramaturga Celly de Freitas autora do texto “Jesus, uma paixão”, a nova montagem teatral que será encenada na semana em que se celebra o mistério da crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
O texto concorreu ao edital de seleção da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) com outros três de autores locais. Em Jesus, uma paixão, a autora escreve sobre a presença da mulher na vida de Jesus em sua passagem pela terra na visão de quatro lavadeiras (Maria das Graças, Maria das Dores e Maria da Glória). As idéias para texto, de acordo com Celly de Freitas, surgiram após assistir a encenação da montagem “Cordel da Paixão de Deus”, que teve o texto assinado pelo dramaturgo Tarcísio Pereira, em que tinha como protagonistas principais quatro evangelistas homens.
Antes de escrever Celly de Freitas freqüentou, como aluna especial, aulas sobre “teoria do texto dramático” e “dramaturgia contemporânea de autoria feminina nordestina”, com a professora Sandra Luna, no curso de mestrado em Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “Isso me deu muita base para criação do texto”, acrescentou a autora.
O processo de pesquisa e construção do texto durou aproximadamente três meses. “Foi muito rápido. Quando dei por mim estava pronto”, comentou a dramaturga. A idéia de colocar as lavadeiras surgiu da necessidade de criar personagens, que além de serem femininos, teriam que trazer em sua concepção o viés popular a que se propõem as montagens teatrais da Funjope.
A primeira cena de “Jesus, uma paixão”, tem início com a entrada de um grupo de doze mulheres lavadeiras, cantando uma música e dirigindo-se ao rio onde costumam lavar as roupas para encenação da paixão de cristo que acontece na comunidade aonde moram Maria da Graças (que narra todas os milagres e benfeitorias), Maria das Dores (que relata a partir do sofrimento e das dores de Jesus) e Maria da Glória (contando às particularidades dos fatos que aconteceram depois que passa o sofrimento de Cristo).
O espetáculo ao mesmo tempo em que narra a história mais antiga do mundo traz para cena os conflitos sociais vividos pela mulher na antiguidade e nos dias atuais, como a violência e preconceito. Além de mostrar o olhar apaixonado das mulheres sobre Jesus na sua época e nos dias de hoje. “Por isso tem esse título: Jesus, uma Paixão. E também porque Jesus é um homem apaixonante”, acrescentou a autora.
O texto mostra as mulheres que acompanharam Jesus na sua jornada. Não só Maria, a mãe, mas também Maria Madalena, personagem que a autora dá bastante ênfase não só como uma mulher adúltera, como é retratada no livro sagrado dos católicos, a Bíblia, mas a mulher que se apaixonou por Jesus. E ainda a mulher dos grandes homens do império, a importância que elas tiveram na vida deles e como decidiram o destino e o rumo da história.

Sobre a autora

Celly de Freitas é natural da cidade de Cajazeiras, município que fica a cerca de 461 quilômetros da Capital, João Pessoa, no alto sertão da Paraíba. Cidade responsável por gerir uma leva grande de atores de teatro e cinema que hoje atuam com freqüência nos palcos de todo país.
Ela tem um currículo extenso. Além de farmacêutica e bioquímica, suas atividades profissionais cotidianas, se desdobra na atividade de ser mulher-mãe de três filhos, arte-educadora, atriz, diretora e agora mais do que nunca autora de textos para teatro.
Desde 1988 que escreve para o teatro infantil. A primeira montagem foi “As Aventuras de Peter Pan”, escrito por ela, Evaldo de Souza e Socorro Coutinho, com direção de Ednaldo do Egypto (2000) e encenado pela Companhia de Teatro Encena. Dois anos mais tarde escreveu “Quem tem medo do lobo mau”. Em 2004, escreveu “Amor em desatino”, um monólogo fruto da sua especialização em teatro, em que também atuou, e teve a direção do professor de teatro Paulo Vieira.
No ano de 2005 escreveu e dirigiu o espetáculo “O Reino do Chocolate” que concorreu aos editais de seleção dos fundos de cultura municipal para circular pelas escolas do município. É de sua autoria o texto do espetáculo “Os Três Mosqueteiros Atrapalhados”, uma adaptação da saga de Arturo, Dartan e Azamix, que além de atrapalhados servem ao reino do rei Arturo e ainda "Contadores de História” (2006). No ano passado Celly de Freitas foi contemplada no projeto “Novos Escritos da Paraíba”, também da Funjope, para publicação do livro “Teatro para crianças e jovens: Ler e/ou Encenar”, que contará com seus textos para o teatro infantil.
Adriana Crisanto
Publicado no caderno Show do Jornal O NORTE, em janeiro de 2007.
Foto de Helder Pinto



Aceita-se Desafios


Rinaldo Fernandes é o responsável por quatro belas coletâneas. Uma delas “O Clarim e a Oração: Cem Anos de Os Sertões”, uma obra que reúne textos de autores contemporâneos das áreas de jornalismo, literatura, poesia e história, e de quebra, traz entrevistas com moradores de Canudos. O livro-coletânea foi editado pela Garamond, no ano de 2005, para celebrar os 50 anos de publicação do romance “Os Sertões” de João Guimarães Rosa.

No final do ano passado Rinaldo Fernandes recebeu Prêmio Nacional de Contos do Paraná, um dos mais tradicionais da literatura brasileira. Prêmio este que colocou o maranhense (que resolveu adotar a cidade de João Pessoa como sua casa oficial) em destaque no cenário literário nacional.

Além de professor de literatura na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com doutorado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é autor dos livros de contos: O Caçador (1997) e O Perfume de Roberta (2005) e da novela Rita no Pomar (ainda inédita). Recentemente o conto “Negro”, do livro “O Caçador”, virou um curta-metragem, de autoria do cineasta Renato Alves, que de acordo com Rinaldo, deverá ser lançado em 2007.

Enquanto pesquisador produziu os textos da antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século (já na terceira edição), organizada pelo escritor paraibano José Nêumanne Pinto (2001). Foi colaborador nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil (caderno “Idéias”). Atualmente assina a coluna “Rodapé/Ponto de vista crítico” nos suplementos literários Rascunho, de Curitiba (PR).

É de sua autoria também Chico Buarque do Brasil (2004), Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (2006), Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (2006). Para falar sobre toda essa produção literária tive uma longa conversa com o autor que deverá publicar este ano, por uma editora de São Paulo, sua primeira novela “Rita No Pomar”, que virá junto com cinco contos. Leia a entrevista:

O senhor é responsável por pelo menos três belas coletâneas que uniram autores paraibanos e escritores de outras regiões do país. Como surgiu a idéia de fazer coletâneas, de ser antologista?

Na verdade, já publiquei quatro coletâneas, duas de ensaios (O Clarim e a Oração: Cem Anos de Os Sertões e Chico Buarque do Brasil: textos sobre as canções, o teatro e a ficção de um artista brasileiro) e duas de contos (Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa) e fico contente que, entre elas, você tenha escolhido duas como “belas”. Foi por acaso que comecei a ser antologista. Eu estava em São Paulo e recebi o convite do jornalista e escritor José Nêumanne Pinto e de Luís Fernando Emediato, da Geração Editorial, para preparar os textos da antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século. Aceitei o convite – na verdade, o desafio, pela grande responsabilidade. Foi extremamente trabalhoso preparar esses textos, fazer a pesquisa, que me exigiu muito e foi apoiada numa enorme bibliografia. Como pesquisador, sou muito meticuloso, gosto de checar tudo. Resultado: a antologia, quando saiu no final de 2001, vendeu bastante, foi um sucesso editorial e recebeu ótimas resenhas. A minha credibilidade cresceu junto ao editor Luís Fernando Emediato. Como eu tinha aprendido, preparando a antologia do José Nêumanne, os passos para ser um antologista, especialmente as questões que envolvem direitos autorais, a forma de contato com os autores, etc., eu resolvi que ia organizar um livro sobre Euclides da Cunha. Eu fazia doutorado em literatura na Unicamp e pesquisava o tema de Canudos a partir do romance A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa. Fiquei entusiasmado com o universo de Canudos, com o romance do escritor peruano, com a obra de Euclides da Cunha. Como em 2002 se comemorariam os 100 anos da publicação de Os Sertões, conversei com Emediato sobre a idéia de organizar um livro abordando a obra capital de Euclides. Um livro que reunisse grandes especialistas, escritores, historiadores, sociólogos – gente como Ariano Suassuna, Luiz Costa Lima, Roberto Ventura, Benedito Nunes, Moacyr Scliar, Mario Chamie, Regina Zilberman, etc. O livro saiu, numa bela edição, em setembro de 2002, reunindo essa gente toda e mais uma série de entrevistas que os jornalistas Sandra Moura e Suênio Campos de Lucena fizeram na região de Canudos, e foi muito bem recebido pela mídia e pelo público, especialmente o acadêmico. Hoje virou um livro de referência, é adotado em várias universidades do Brasil e do exterior. O Clarim e a Oração ainda está bem exposto nas principais livrarias e vende bem.

Quais as dificuldades encontradas para preparar as coletâneas?

Minhas coletâneas dão muito trabalho. Normalmente passo entre doze a quinze meses preparando cada uma delas, num trabalho diário, que envolve desde a concepção geral da obra, a escolha de autores, até o preparo e revisão de textos. Eu reviso todos os textos de minhas coletâneas, não aceito a revisão das editoras. E mais: acompanho a confecção da capa, a preparação dos releases na hora em que o livro vai para a mídia, etc. Acompanho até mesmo o envio dos exemplares a que têm direito os autores. Fico aporrinhando o editor: “Já enviou os livros de fulano? E os de sicrano?”. É assim, sou muito perfeccionista no que faço.

Como é o processo de seleção dos textos?

Normalmente eu convido escritores que já têm uma obra reconhecida ou autores emergentes, que vejo que têm potencial, que escrevem bem. Entendo que o bom texto está em vários lugares. Há pessoas que escrevem bem em São Paulo, Rio, Minas, mas há os que escrevem bem na Paraíba, na Bahia, no Ceará. Assim, um dos meus critérios é também o geográfico, o de fazer um mapeamento. Embora a maioria dos autores seja do Sudeste, até por ser a maior região do país, eu sempre descentralizo as escolhas e incluo pessoas de outras regiões. Qual o antologista que incluiria 15 autores do Nordeste numa edição nacional? Eu fiz isso com o livro Contos Cruéis. São 47 autores, quinze dos quais aqui do Nordeste. Aqui na Paraíba há ótimos escritores e pesquisadores, como Marilia Arnaud, W. S. Solha, Geraldo Maciel, Maria Valéria Rezende, Amador Ribeiro Neto, Sérgio de Castro Pinto, Carlos Gildemar Pontes, Aldo Lopes, Arturo Gouveia, Wellington Pereira, Linaldo Guedes, Astier Basílio, Antônio Mariano, Hildeberto Barbosa Filho, Sônia L. Ramalho de Farias, Sônia Maria van Dijck Lima, João Batista de Brito, Luís Antonio Mousinho, Diógenes Maciel, os quais eu tenho convidado para participar de minhas coletâneas. E não faço isso pela amizade, não. É porque são bons autores mesmo, têm qualidade.

Como fica a questão dos direitos autorais dos escritores?

Normalmente as editores pagam ou uma quantia em dinheiro (mínima, pois os meus projetos envolvem sempre muitos autores) ou uma cota em livros. Como organizador, evidentemente, recebo mais. Eu tenho, nos últimos 5 anos, “sobrevivido” de literatura. O que ganho com direitos autorais daria, certamente, para “sobreviver”, mas não para “viver”. De qualquer modo, o que ganho aumenta o meu orçamento doméstico, já que tenho o meu emprego de professor de literatura na UFPB. São bem poucos os autores que “vivem” de literatura no nosso país. Agora, tem alguns aí que, como eu, “sobrevivem”...

Como foram abertas as portas das grandes editoras, a exemplo da Garamond e da Geração Editorial?

As da Geração Editorial, como já indiquei acima, foram abertas por ocasião da preparação da antologia do José Nêumanne Os cem melhores poetas brasileiros do século e, logo em seguida, com a organização de minha antologia O Clarim e a Oração. Quando resolvi preparar a segunda antologia de artigos e ensaios, a intitulada Chico Buarque do Brasil, levei o projeto para o editor Luís Fernando Emediato. Ele achou interessante, mas me disse que só publicaria o livro se eu agregasse ao mesmo um CD com músicas de Chico Buarque. Fui ao Rio, tentei com os colaboradores de Chico, mas isso envolveria gravadoras, um universo que desconheço, pelo qual não sei transitar. Como Emediato fincou pé, dizendo que só publicaria o livro com o CD, apareceu, por intermédio de minha amiga Maria Alzira Brum Lemos, que era assessora de imprensa da Garamond, o convite para apresentar ao editor Ari Roitman (proprietário da Garamond) o projeto do livro. Ari aprovou-o imediatamente. Chico Buarque do Brasil foi lançado em 2004 e teve um sucesso maravilhoso, de mídia e de vendas. Com dois anos e meio de lançado, já está na quarta edição.

Como tem sido o feedback com os leitores?

Eu diria que é a parte mais apaixonante de tudo isso. É incrível como meus livros são bem recebidos por leitores de todo o país. Recebo e-mails quase que diariamente de gente falando bem de meu trabalho, querendo me conhecer. Por onde ando, fazendo lançamentos ou palestras, recebo a boa acolhida dos leitores. Às vezes, tem gente que pega a fila de autógrafos com todos os meus livros nas mãos, como aconteceu ano passado em Brasília, na UnB. Você não imagina como isso é gratificante. Uma leitora carioca do Chico Buarque do Brasil passou-me um e-mail pedindo minha opinião sobre o fato de Chico ter sido flagrado na praia com uma morena. Eu disse: “Eu não sei falar sobre isso, me perdoe, é difícil...”. Ela mandou um outro e-mail, sorridente: “É que eu estou frustrada. Queria ser aquela morena...”. O público feminino do Chico é mesmo enorme e, em certos casos, engenhoso!

Um dos seus livros mais vendidos é esse sobre o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda. Como surgiu a idéia de editá-lo?

Em meados dos anos 90, fiz meu mestrado em literatura, aqui na UFPB, sobre Chico Buarque. Passei três anos estudando suas letras, analisando as canções que tematizavam a mulher. Nesse momento eu li o que achei – e foi muita coisa! – sobre o compositor e escritor. Quando, em 2004, após ter publicado O Clarim e a Oração, resolvi preparar o Chico Buarque do Brasil, eu já tinha essa base do mestrado, já me sentia à vontade para, agregando mais algumas pesquisas, organizar a antologia. O mestrado foi decisivo. Eu só organizo um livro se me sinto preparado. É uma coisa fundamental no trabalho do antologista – o preparo.

Esse livro já chegou às mãos de Chico? O que ele achou?

Num gesto de cavalheirismo, enviei o livro para ele, mas não obtive resposta. Chico já sabia do livro, inclusive, num primeiro momento, pareceu disposto a me dar uma entrevista. Mas depois desistiu. Aliás, por ocasião de seus 60 anos, Chico não deu entrevista para ninguém. Foi um critério dele, respeitei.

O gênero literário com o qual o senhor mais se identifica? O conto, o romance ou a novela?

O conto. É um gênero que pode conter lirismo, drama, tragédia. Um bom conto traz toda a temática de uma novela ou mesmo de um romance. Gosto de sua forma concentrada, compacta. Mas admiro também os demais gêneros ficcionais. Acabei de escrever a novela Rita no pomar, que pretendo publicar mais adiante. É a minha primeira experiência com uma narrativa mais longa.

O senhor é professor universitário. Como se encontra hoje o ensino da literatura na Universidade?

A Universidade, com suas pesquisas, dá uma enorme contribuição para o ensino de literatura. Com as exceções de sempre, o melhor da crítica que se faz hoje no Brasil vem da Universidade. Todo bom crítico de algum modo teve que absorver a produção acadêmica. E os resultados dessas pesquisas, quase sempre, são carreados para a sala de aula. Na sala de aula, além das obras, trabalhamos sempre com grandes ensaios, com análises consistentes de contextos e de textos literários. Embora com as dificuldades de sempre, como os investimentos em livros para as bibliotecas, ou com a falta de verbas para as editoras, especialmente as de universidades nordestinas, ainda assim a nossa produção acadêmica, no que diz respeito à literatura, é de muito valor.

A violência é uma temática recorrente em alguns textos e obras suas. O que tem a falar sobre isso?

Um escritor quase sempre aborda um determinado tema com a finalidade de fazer o leitor refletir sobre ele, mas refletir se sensibilizando, se humanizando. É papel histórico da arte humanizar (ou pelo menos tentar humanizar) as pessoas. O tema da violência em meus contos tem essa função. Eu não sou e não quero a violência para ninguém. Mas reconheço que vivemos numa sociedade, em certo sentido, bárbara, numa sociedade injusta, perversa em vários aspectos. Uma sociedade injusta gera como resposta, entre outras coisas graves, a violência, a crueldade. Escrevo para sensibilizar as pessoas. A antologia Contos Cruéis, que organizei em 2006 e que reúne grandes autores brasileiros da atualidade, traz cenas das mais brutais do nosso cotidiano. Essa brutalidade que está na temática e às vezes na linguagem dos autores, é importante para fazer o leitor, através do distanciamento próprio do texto literário, refletir.

Quais são seus projetos editorais e literários para o ano de 2007?

Devo publicar, por uma editora de São Paulo, minha novela Rita No Pomar, que virá junto com cinco contos. Entre os contos está “Beleza”, com o qual obtive recentemente o Prêmio Nacional de Contos do Paraná, um dos mais tradicionais da literatura brasileira. A novela, que no final é muito violenta, se passa numa fictícia praia paraibana e tem como protagonista uma paulistana que vive e conversa com um cachorro. Para a minha alegria, a novela recebeu um competente posfácio de Silviano Santiago, um dos maiores críticos brasileiros. Continuarei fazendo antologias, sempre com muito critério, trabalhando muito nelas. Neste momento – e estou revelando em primeira mão – preparo uma coletânea sobre Machado de Assis, para sair em 2008.

Adriana Crisanto

adriana@jornalonorte.com.br

adrianacrisanto@gmail.com

Publicado no caderno Show do Jornal O NORTE, em janeiro de 2007.

Palavras de Guerra cantadas por Olívia


Toda a expressividade da palavra e poética musical do cineasta moçambicano Ruy Guerra foi registrada em CD pela cantora e interprete Olívia Hime. Trata-se de “Palavras de Guerra” o mais novo trabalho da cantora produzido em parceria com seu companheiro Francis Hime.

São 17 canções com letras de Ruy para músicas de Edu Lobo, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Carlos Lyra e Francis Hime. As letras são ao mesmo tempo corrosivas, trôpegas, dóceis, professadas com emoção numa lírica que converge à África e a Europa num só canto que ganha a maior expressividade na voz de Olívia.

“Ruy faz parte da minha história como amigo e artista”, comentou Olívia numa breve conversa por telefone, quando ainda estava em repouso e se recuperando de uma forte crise de pneumonia que deixou a cantora acamada por quase uma semana. As músicas de “Palavras de Guerra”, em sua maioria, são das décadas de 1960 e 1970, embora traga canções de Chico, Francis, Edu e Carlos Lyra de outros tempos.

O processo de seleção das músicas é semelhante a outros trabalhos da cantora. “É como num quebra-cabeça. Vou juntando peça por peça. Para este disco primeiro selecionei 70 poemas, em seguida 40. Até chegar as 17 canções-poemas”, revelou. E nesta seleção não poderia faltar as canções compostas para o musical “Calabar”, de Ruy Guerra e Chico Buarque. Entre elas estão: Fortaleza, Tatuagem e Bárbara. A última em forma de dueto com Olívia Byington. As parceiras com Edu Lobo e Ruy estão nas canções “Jogo da Roda” e “Em Tempo de Adeus”, com a participação do poeta recitando os versos de “Tigrana”, em que diz: “A morte é um tigre paciente, me mastiga todos os segundos”.

O disco registra ainda músicas de Carlos Lyra, como a marcha-rancho “Entrudo” e inclui 10 músicas compostas em parceria com Francis Hime. Entre elas, uma inédita intitulada “Corpo Marinheiro” que traz a participação especial da cantora Nilze Carvalho.

A idéia de dedicar um álbum inteiro à poética de Ruy teve início à cerca de um ano quando a cantora foi assistir o filme “Casa de Areia”, do diretor Andrucha Waddington. “E a presença de Ruy me chamou bastante atenção. Pensava nas canções, cantarolava algumas, lembrava de outras. Foi quando recebi um e-mail de um fã me sugerindo gravar um disco com a obra de Ruy. Foram muitas coincidências juntas”, comentou a cantora.

Olívia Hime define o disco como uma história de um filme com temas recorrentes sobre o mar, o amor, a morte, a mulher. “Constantes na obra de cinematográfica do Ruy”, disse. O disco conta ainda com a participação percurssiva de Dona Edith do Prato, Nilze Carvalho, Olívia Byington, Quarteto Maogani.

A belíssima “Tatuagem” (faixa 4) de Chico Buarque em parceira com Ruy não poderia faltar. Tatuagem é uma canção que tem uma estrutura única de construção e por mais que queira colocar novos arranjos novos ela nunca deixa de ser linda. É tanto que nessa interpretação bastou apenas o piano de Francis e a voz tatuada de Olívia.

Essa não é primeira vez que Olívia Hime coloca música em poemas de outros escritores. Ela musicou o poema “Glosa” de um certo poeta português chamado Fernando Pessoa e rendeu uma homenagem a Manuel Bandeira, gravando seus poemas em um disco intitulado “A estrela da vida inteira”, que pode ser encontrado para compra no website do selo Biscoito Fino, através do endereço eletrônico www.biscoitofino.com.br.

Ela diz que sua relação com a poesia sempre foi muito forte. “Isso acaba adquirindo um peso muito grande no meu trabalho artístico”, acrescentou Olívia que comanda, ao lado da empresária Kati Almeida Braga, um dos poucos selos de música do país que ainda consegue, a duras penas, driblar a pirataria e produzir excelentes trabalhos com um custo final mais baixo para o consumidor. O selo Biscoito Fino está a seis anos no mercado e conta hoje com mais de 200 títulos de artistas que estavam até bem pouco tempo fora do circuito musical.

“Palavra de Guerra” é o resultado desse trabalho difícil que é produzir música de qualidade no país do futebol. O disco é suave e dá gosto de ouvir. É para ter na coleção e escutar depois de uma dura jornada de trabalho, numa prazerosa roda de amigos, num final de semana tranqüilo de verão, de preferência, olhando para o mar verde esmeralda da praia do Cabo Branco que em nada deixa a desejar as belas paisagens das praias do Rio de Janeiro.

Paralelo aos shows que devem acontecer em 2007 para divulgar suas “Palavras de Guerra”, Olívia Hime pretende, junto com seu marido, Francis Hime, finalizar “A Ópera do Futebol”, um novo trabalho artístico que irá conter músicas brasileiras em moldes clássicos. É aguardar e conferir. Boa audição.

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br

adrianacrisanto@gmail.com

Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, domingo, 11 de fevereiro de 2007

Fotos de divulgaçao da Biscoito Fino.