Frevo ou samba?


"Frevo ou samba? Swingue bamba... mandinga de pagé"


As músicas que sempre embalaram o carnaval dos brasileiros de norte a sul do país estão agora registradas em dois discos duplos lançados pelo selo Biscoito Fino. São eles: “Sassaricando e o Rio inventou a marchinha e 100 anos do Frevo é de perder o sapato”.
O primeiro a ser lançado pelo selo, no finalzinho do mês de janeiro deste ano, foi “Sassaricando e o Rio Inventou a Marchinha” que reuniu um elenco artístico e profissional de primeira linha para contar a história cronológica das marchinhas de carnaval. As músicas são registro musical do Rio de Janeiro das décadas de 20, 30, 40 e 50 onde os compositores da época faziam uma espécie de crônica da cidade e do país.
Por muito tempo a cidade do Rio de Janeiro e os cariocas haviam esquecido a sua cultura popular que agora resgatam com maestria neste trabalho muito bem pensado. Os idealizadores da edição foram os pesquisadores em música popular brasileira Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral que assinam o texto de abertura do encarte do disco.
Para interpretar as canções foram convidados Eduardo Dusek, Soraya Ravenle, Pedro Paulo Malta, Alfredo Del-Penho, Juliana Diniz e Sabrina Korgut. Foram tantas músicas encontradas pelos pesquisadores que elas foram divididas no primeiro disco em blocos (Comportamento, Entre quatro paredes, De onde vem o dinheiro?, Cidade que me seduz). Cada bloco com seqüência de três a seis músicas juntas.
Nos dois discos estão canções de Lamartine Babo (Ai, hein?, Infelizmente, Cantores do rádio, Linda Morena), Ary Barroso (A casta Suzana), Noel Rosa (Você, por exemplo, prato fundo), Mário Lago (Aurora), Max Nunes (Bandeira branca), João de Barro (Yes, nós temos banana, Cadë Mimi, Touradas de Madri, Chiquita Bacana, Garota de St. Tropez, Linda loirinha), Germano Augusto (A mulher do padeiro), Roberto Martins (Pedreiro Waldemar), Mirabeu (Turma do funil, Cachaça), Zé da Zilda (Saca-rola) e tantas outras.
Neste elenco de antigas marchinhas está presente o nosso querido Livardo Alves com sua “Marchinha da Cueca”, composta em parceira com Carlos Mendes e Sardinha (faixa 8) e Meu Brotinho de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Para compor este imenso trabalho os idealizadores escutaram mais de mil músicas. “Haverá certamente a ausência de uma ou outra marchinha neste disco”, comentou Sérgio Cabral. E de fato existe uma lacuna. Faltaram canções símbolos do carnaval, a exemplo de “A Jardineira”, “Malmequer”, “Me dá um dinheiro ai”.
Para compensar a ausência o selo Biscoito Fino lançou, dia 9 de fevereiro (data em que pela primeira vez a palavra foi publicada na imprensa pernambucana) o CD duplo “100 anos do frevo é de perder o sapato”. Enquanto o disco das marchinhas se guia pela sociologia do cotidiano carioca do século passado, o disco do frevo pernambucano se vale da história e das richas entre os puristas admiradores do frevo instrumental e dos modernistas com seus frevos-canção com sabor pop e temática contemporânea, para contar, em forma de música, como a música aconteceu e se tornou tão popular. E de fato é impossível passar despercebido por elas sem ao menos cantarolar. Mas, o disco deixa no ar uma dúvida: O frevo é uma dança ou uma música?
Valdemar Oliveira, no livro “Espetáculos Populares de Pernambuco” (Ed. Bagaço, 1999), já dizia ser impossível distinguir bem: se o frevo, que é a música, trouxe o passo ou se o passo, que é a dança, trouxe o frevo. “As duas coisas foram se inspirando uma na outra e completaram-se”, dizia ele.
Dança ou música o fato que o “blockboster”, para usar uma palavra moderna, promete ser o maior sucesso deste ano no gênero. É no passo dessa dança que o CD duplo traz uma primeira parte inteiramente instrumental (para agradar os puristas) com frevos como Três da Tarde (Lídio Macacão), Aninha no Frevo (Clovis Pereira), Duas Épocas (Edson Rodrigues), Último Dia (Levino Pereira), Luzia no Frevo (Antônio Sapateiro), Mordido (Alcides Leão), Gostosão (Nelson Ferreira), Cabelo de Fogo (Nunes).
Uma das músicas que destacaria é execução primorosa da peça instrumental “Fantasia Carnavalesca” de Clovis Pereira, baseado em Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, executada pela Orquestra Sinfônica de Pernambuco (OSPE), sob a regência do maestro Osman Giuseppe Gioia, gravada ao vivo numa bela apresentação em 7 de novembro de 2006, no Teatro de Santa Isabel, em Recife.
O segundo disco vozes de artistas conhecidos da música popular contemporânea brasileira são a tônica dos frevos. No elenco de estrelas estão: Gilberto Gil, Maria Bethânia, Lenine, Maria Rita, Alceu Valença, Vanessa da Mata, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Luiz Melodia, Edu Lobo, Silvério Pessoa, Geraldo Maia, Nena Queiroga, Claudionor Germano, Antônio Nóbrega, Lígia Miranda, Nena Queiroga, Rosana Simpson e Vanessa Oliveira.
O jornalista e crítico de música paraibano, radicado pernambucano, José Teles, que assina o texto do encarte, diz que o frevo evoluiu e cita a “Spokfrevo Orquestra”, conduzida pelo maestro Inaldo Cavalcanti, mais conhecido por Spok que tem esse nome devido às orelhas de lóbulos pontudos como o do personagem doutor Spok do seriado da televisão. José Teles, autor do livro “Do Frevo ao Manguebeat” (Ed. 34), se refere ao maestro Spok como a nova revelação do frevo pernambucano. “Ele chegou como uma nova concepção de arranjos e orquestração, tocando frevo para ser também ouvido, não apenas dançado”, avalia o jornalista. E Spok é presença marcante neste disco. Em boa parte das canções o nome dele é citado, não apenas tocando seu sax alto, mas compondo arranjos e com sua SpokFrevo Orquestra.
O CD duplo é uma mistura das três categorias de frevo claramente identificáveis: o frevo-de-rua, a marcha de bloco e o frevo-canção. E nesse “Frever” que se misturam os ritmos que o frevo tem atravessado fronteiras sendo conhecido mundialmente como uma música alegre e vibrante, que encanta e empolga. Para conhece-lo, não é suficiente apenas olhar a multidão passar, é preciso deixar a música fluir por todo corpo. O frevo é isto: um convite ao prazer, à diversão e à alegria.

Adriana Crisanto

Jornalista



Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em fevereiro de 2007.

OBS: Só agora lembrei de postar....rssss... desculpem...

Canção em forma de fogo


Como um fogo que queima sem precisar de auxílio, o jornalista, radialista e poeta, Ricardo Anísio, lança hoje, a partir das 20h, no Parahyba Café (confluências das avenidas Epitácio Pessoa com Juarez Távora, em Tambiá, seu mais novo livro de poesias intitulado “Canção do Fogo” (Editora Bagaço, 120 págs). O lançamento será em forma de recital e contará com a presença do poeta popular Jessier Quirino, Marco Di Aurélio e Oliveira de Panelas.
Esta é a quarta publicação do autor. O livro foi escrito depois do “Canção do Caos”, outro livro de sua autoria que deverá sair em novembro deste ano. “Ricardo Anísio é o um exemplo de poeta possesso”, referiu-se Chico Viana que escreve o prefácio da obra que recebe ilustrações de Clovis Júnior.
O livro é um sacramento de comunhão solitária de Ricardo Anísio como a poesia que arde como fogo aceso em seu peito apaixonado. Solitária porque a chama crepita e despertam sonhos poéticos característicos do autor. Sonhos solitários que ele comunga com seus amigos.
O artista plástico e escritor W.J.Solha escreve o prefácio da obra em forma de ensaio. “É impossível ler esses poemas sem sentir vontade de lhe fazer alterações, do mesmo modo como tenho vontade de lhe fazer alterações, do mesmo modo tenho vontade de fazer alterações em versos de Affonso Romano de Sant`Anna e de Drummond”, escreveu Solha autor dos livros “Trigal com Corvos, A Canga e História Universal da Angústia.
Para falar um pouco sobre esse novo momento de sua trajetória conversei com essa figura polêmica que me salvou e colocou-me em contato com os meandros do jornalismo cultural. Nesta entrevista ele fala um pouco sobre o gosto pela poesia, suas influências, crítica musical, poesia e literatura paraibana. Leia:

Como surgiu o gosto pela poesia e a necessidade de tê-las publicadas em livro?
A poesia entrou na minha vida primeiro pela voz da minha mãe, que sempre achou mais importante que tivéssemos cultura do que um diploma. Ela lia poemas de Adalgisa Néri para mim, do livro Ocasos de Sangue, e eu ficava fascinado. Mas foi somente no início da década de 80 que eu resolvi publicar meus rabiscos poéticos no livro Em Cada Canto Um Verso. Outro entrada da poesia deu-se através das canções de Bob Dylan, de Chico Buarque, de Lou Reed e Jim Morrison, que me fascinaram.

Quais tuas maiores influências?

Meus poetas preferidos são Garcia Lorca, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, mas sinto que há uma forte influência também dos versos de Augusto dos Anjos e da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Na verdade eu raramente não gosto de algum poeta; só abomino mesmo a poesia concreta, os irmãos Campos e suas invenções inférteis.

Mesmo você sendo duramente criticado por seus livros de poesia um de seus textos foram indicados num processo seletivo de vestibular em Pernambuco, não foi isso? Qual é a sensação?
Na verdade não foram meus poemas que chegaram ao vestibular em Recife, mas sim um ensaio crítico que escrevi sobre a obra do compositor Maciel Melo, que considero da mesma estatura dos mestres Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O texto foi tema geral da prova de Língua Portuguesa da PUC-PE. Antes o meu livro MPB De A a Z havia sido tema da prova de português aqui em João Pessoa, no Unipê. Minha poesia é bem recebida pelo público e pela crítica pernambucanos, mas ainda distante do nicho acadêmico.

É mais fácil escrever poesias ou fazer crítica de música?
Se fosse fácil todo mundo era, como diz o poeta. Acho que ambos são difíceis, mas quando temos por ofício do cotidiano elas se tornam menos complicadas. Os poemas me dão mais prazer. Diria, parafraseando Rita Lee e Jabor que poesia é divina e a crítica musical é animal (risos). Para mim ambas são fáceis no sentido de que ambas me dão prazer. Mas a poesia requer um burilamento especial, às vezes levo uma semana trabalhando na linguagem de um poema, e às vezes ainda não me satisfaz o resultado. É mais fácil escrever crítica musical mesmo!

Como poeta é mais difícil de ser compensado por aquilo que escreve?
Sim, é. A minha poesia é repleta de metáforas e de palavras mais rebuscadas que, na comunicação via jornalismo, eu evito para que os leitores me compreendam sem a ajuda de dicionário ou do baú da memória e do conhecimento. No poema eu até acho que ele tem essa função didática: o leitor vê uma palavra que não conhece e, para entender o verso, consulta o dicionário e fica com o vocabulário enriquecido. Eu aprendi boa parte do pouco que sei de português lendo Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Érico Veríssimo. A poesia requer rebuscamento infinitamente maior.

O que mais te intriga na literatura e na poesia paraibana atualmente?
Na arte as coisas nunca me intrigam, mas me instigam. A literatura de W J Solha, por exemplo em História Oficial da Angústia, me instiga. Os poemas de Sérgio de Castro Pinto e a música de Escurinho, me instigam. Me instiga a beleza inocente da pintura de Clóvis Júnior e os desenhos fantásticos de Flávio Tavares. Me instigam demais os contos de Marília Arnaud e os romances de Mercedes Cavancanti. Me instiga o romance de Aldo Lopes, o cinema de Marcus Vilar e o teatro de Tarcísio Pereira. Enfim, a arte original e rica me instiga. O que me intriga é aquilo que eu não entendo, como exemplo a tal arte conceitual, as instalações.

O sucesso do seu trabalho “MPB de A a Z” de certa forma contribuiu para que a editora Bagaço apostasse nesta publicação?
Não. Decididamente não. Na verdade eles nem conheciam meu livro sobre música. O que aconteceu é que fui ‘apadrinhado’ por escritores como Luiz Berto, Paulo Carvalho, Joselito Nunes e pela escritora e professora de Literatura Brasileira, Haidée Camelo Fonseca. Eles e mais os músicos pernambucanos se impressionaram com os meus poemas publicados no jornal eletrônico Jornal da Besta, e degustaram meus poemas com sabor diferente do que estavam acostumados a ler.

Qual música e qual poema você daria tudo para ter feito?
A música seria Hard Rain’s a Gonna Fall, de Bob Dylan, e o poema seria Fumo, de Florbela Espanca. Não sei se exatamente por questões estéticas ou de qualidade, mas talvez porque me tocaram de forma definitiva. A canção de Dylan por exemplo, é um dos poemas mais belos e instigantes que já li-ouvi. É um diálogo metafórico entre uma mãe e um filho que prevê a Bomba Atômica antes dela ser covardemente criada e usada.

Muitos jovens jornalistas desejam ingressar no jornalismo de cultura, fazer crítica de música. Que conselho você daria para os aspirantes a críticos?
Que antes de mais nada leiam tudo quanto puderem. Que ouçam música diariamente como eu faço, que vejam filmes incessantemente, que freqüentem o teatro e que fiquem atento a linguagem plástica dos artistas contemporâneos e dos clássicos. Depois disso, que eles se preparem para separar o coração da razão. Há coisas que eu ouço em casa, mas que não elogiaria ao escrever. Também já escrevi mal sobe obras de amigos. O crítico só será honesto quando, ao escrever, colocar o coração fora do peito. A isenção e a certeza de ter feito uma avaliação isenta é que fazem o crítico ser respeitado, mesmo que ele cometa erros, por ser humano.



Adriana Crisanto

Jornalista



Foto: Divulgação do escritor

Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O Norte no dia 28 de março (quarta-feira).

"O teatro é a arte da crise"


Após a ameaça de fechamento da casa de espetáculos Ednaldo do Egypto o “teatro” passou a ser o principal assunto nas conversas de quem entende e quem não entende também. O caminho não é dos mais simples para quem se aventurou ou tenta sobreviver do teatro. A falta de espaço para atuar, baixos salários, poucos espetáculos, preço das pautas impraticáveis para produção local, casas de teatro adequadas, a competitividade entre os companheiros são alguns dos fatores que fazem com que muita gente boa se perca nesta dura caminhada. Sem falar na ausência de uma política cultural que não seja discriminatória.
Há muito se fala sobre "crise dos teatros", e esquece-se freqüentemente que a crise, qualquer crise, é sempre um ponto de ruptura de uma falsa estabilidade. Crise pressupõe que se vai operar qualquer modificação no status quo. Crise é, portanto, fonte de movimento e nunca de estagnação. Claro que no teatro, como em qualquer situação da vida, há a posição passiva e a ativa de seus representantes, ou seja, há os que reagem e ensaiam soluções, e há os que aceitam. Prudência e bom senso têm conduzido algumas pessoas das áreas da cultura, como no teatro, a muitos becos sem saída.
Para falar sobre todo os assuntos relevantes dessa crise que passa o teatro paraibano convidamos um especialista no assunto, o único doutor em teatro do Estado, o professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal da Paraíba (DAC/UFPB), Paulo Vieira. Nesta entrevista o dramaturgo fala sobre a crise no teatro, faz um diagnóstico sobre os principais teatros da Capital e comenta sobre outros assuntos. Leia:


Quantas vezes o senhor ouviu a afirmação de que o teatro está em crise?

Risos. Desde que comecei a fazer teatro. Teve um momento que chegava a dizer que o teatro a arte da crise. Quando eu comecei a fazer teatro existia a Confenaca e a Federação Paraibana de Teatro Amador, em nível nacional, que organização os movimentos amadorísticas do teatro. A Confenaca desapareceu, mas hoje acho que existe ainda a Federação sob o comando de Balula, mas sem a mesmo poder de ação que tinha quando eu comecei a fazer teatro. Tempos depois apareceu o Sindicato de Artistas e Técnicos de Espetáculo. O que aconteceu foi que o sindicato foi criado a partir de uma ação de um grupo muito pequeno com pouca representatividade na classe teatral. O primeiro diretor do sindicato começou a exigir que as produções tivessem compromissos sociais iguais ao que uma empresa normal tem de manter com seus empregados. Às vezes você estava com o espetáculo preparado para entrar no palco e chegava o sindicato mandando parar o espetáculo.

O que está acontecendo com o teatro paraibano?

O que está acontecendo duas coisas. Um problema de políticas públicas, que não é um problema exclusivo da Paraíba. As leis de incentivo solucionam uma parte do problema quando elas permitem a produção do espetáculo, mas a demanda é maior do que a oferta. Há muito mais espetáculos para serem feitos do que dinheiro para produção. E isso as leis de incentivo não conseguem cobrir. Até porque uma lei de incentivo não discutida no teatro. Ela é abrangente. Por exemplo, o FIC, é uma lei que abarca desde a recuperação do patrimônio histórico até a produção de filmes. São duas pontas bastante caras na produção cultural. O teatro tanto pode ser feito com muito como pode ser feito com pouco dinheiro, depende do projeto. Na outra ponta tem a organização do mercado. Talvez essa ponta precisasse de uma discussão interna em nível profissional.

Então, como fazer para manter um espetáculo em cartaz?

É difícil manter um espetáculo muito tempo em cartaz aqui, pois esbarra numa série de dificuldades. Os espetáculos produzidos em João Pessoa preferencialmente se apresentam no Teatro Santa Roza. É tanto que a pauta do teatro vive lotada o ano inteiro. Não só com os espetáculos daqui como os de fora.

E os outros teatros da cidade por que não são ocupados?

Ai você tem uma série de problemas. Por exemplo, o teatro da Fiep, um teatro regular, tem uma boa estrutura de cadeiras, de platéia, mas o palco não é tão bom, mesmo assim ainda dá para fazer espetáculos de qualquer forma, mas por outro lado tem um preço alto da pauta para a produção local. Teatro Ednaldo do Egypto tem uma pauta barata, mas em compensação tem uma platéia pequena, que para determinados espetáculos, como os de Edílson Alves, por exemplo, não comporta o público que ele tem. Tem ainda os problemas de infraestrutura. O Teatro Paulo Pontes tem problemas de infraestrutura. O próprio Santa Roza precisa fechar as portas para reparar sua estrutura sempre. E é a jóia da coroa no meu ver. Na verdade, talvez o que precise é que os profissionais de teatro sentem frente a frente para discutir os problemas do teatro e não apenas os problemas da cultura, que muito mais abrangente. Isso fica com as secretarias de cultura, com o Ministério da Cultura.

Que outros problemas o senhor apontaria?

Os problemas do teatro têm ser discutidos por gente de teatro. Tentar encontrar o caminho para atuação profissional. Existe ainda uma outra ponta que se chama o mercado publicitário. As produtoras de propaganda da Paraíba quando precisam de ator manda buscar no Recife quando aqui temos ótimos atores de teatro. Por que eles se prontificam a pagar mais ao ator do Recife e a não pagar às vezes nada ou muito pouco ao ator local? Talvez seja a carência de uma interferência nossa enquanto profissionais de teatro nesse segmento. Talvez a gente precise chegar perto deles e mostrar que temos profissionais de qualidade. As perspectivas são difíceis, mas podem ser dirimidas sem nós deixarmos que o poder público resolva tudo. Resolver por nós mesmos determinados problemas.

O que a classe artística tem feito para reverter esse quadro?

Há quatro anos atrás nós criamos um fórum de teatro pela internet muito intenso, que ainda está lá vivo, contra a falta de uma política cultural. Esse movimento foi para as ruas, entregamos documentos às autoridades. O resultado disso foi: quando o novo governo entrou, Cida Lobo assumiu a subsecretaria de cultura e graças ao trabalho das duas secretarias podemos ter aquilo que reclamávamos no governo anterior, que era a falta de uma política cultural. Tivemos uma política cultural. Foi criado o FIC, que efetivamente funciona, mas em relação ao teatro especificamente, talvez nós tenhamos nos acomodado à situação nova. Começamos a imaginar que o FIC fosse a solução dos nossos problemas, quando na verdade não é. Ele é um apoio na produção.

E como o senhor avalia às leis de incentivo a cultura?

Esse é um problema muito sério. Porque agora mesmo na virada do ano, a Lei Rouanet, do governo federal, era especificamente uma lei de cultura. Hoje ela é uma lei de incentivo a cultura e esporte. O esporte tem um apelo popular muito maior, que bem ou mal, tem muito mais facilidade para se conseguir financiamento junto as grandes empresas divide hoje a mesma migalha da cultura. Só que a migalha da cultura a tendência é de que o dinheiro migre para o esporte.

Já aconteceu algum caso, aqui na Paraíba, em que o dinheiro de uma empresa que era destinada à cultura foi para o esporte?

Eu tive uma experiência em relação a essa migração com um projeto que venho tentando recurso. Cheguei numa grande rede de lojas daqui para tentar captar recursos e soube que o dinheiro que era para ter sido investido em cultura estava sendo revertido para um time de futebol na Bahia. Um grande empresário que tem dinheiro para investir na cultura não fazer isso, porque o apelo de público é muito menor do que um time de futebol.

Fale-se muito que a internet, os shoppings, as TV´s pagas, os cinemas afastaram o público do teatro, mas o que o teatro tem feito para substituir isso?

O teatro é uma arte muito antiga. Não sei se ela compete com outros meios de comunicação. Eu tenho impressão não é um problema maior. Acho que é muito mais profundo e séria na relação do teatro com o público que é a educação ou a não educação para o teatro. Tenho a impressão de que se por um lado tem os modernos veículos que podem potencialmente roubar o público do teatro. Eu acho que isso é uma meia verdade. Porque a verdade absoluta é a falta educação para população brasileira que faz com que ela sequer tenha o trabalho de pelo menos conhecer a beleza que é o prédio do teatro Santa Roza, por exemplo. Ter a curiosidade de entrar e conhecer o prédio. Muitos passam ignorando. O público do teatro existe. Ele pode chegar a qualquer lugar. Diversas vezes eu vi atores fazendo intervenções, espetáculos, performances, dentro dos shoppings. O leque em que um ator pode atuar é muito grande.



Adriana Crisanto

Jornalista



Foto: Divulgação

*Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O Norte, terça-feira, dia 27 de março. Dia Internacional do Teatro e do Circo.

Jessier Quirino, um xilopoeta arretado!


“Arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção” é assim que costuma declamar para as pessoas o poeta Jessier Quirino que realiza show “Bandeira Nordestina” nesta quarta-feira (14 de março), a partir das 20h00, no Teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho. O show é também comemorativo ao Dia Nacional da Poesia. Os ingressos para a apresentação estão sendo vendidos na bilheteria do teatro ao preço de R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (estudante).
Jessier Quirino é natural de Campina Grande, município localizado a cerca de 118 quilômetros da Capital João Pessoa, mas reside no município de Itabaiana, mais perto de João Pessoa, cerca de 80 quilômetros. Ele é um recordista em publicações literárias que tem como essência à expressão oral e linguagem nordestina, ou como costuma denominar os poetas, a poesia matuta.
Poeta, declamador, tocador, trovador, escritor, músico. Ele tem tantos adjetivos, funções e identidades que daria até para se fazer uma rima. A primeira incursão editorial de Jessier foi Paisagem de Interior (Bagaço, 158 págs.1996), ilustrado por ele com orelha escrita por Paulo Caldas. Desde então não parou mais de escrever e ser convidado para ministrar palestras em convenções, teatros e outras exibições públicas. Seguindo a mesma linha publicou também o livro de poesia Agruras da Lata D'Água (Bagaço, 166 págs. 1998), com prefácio escrito por Bráulio Tavares. Na literatura infantil publicou Chapéu Mau e Lobinho Vermelho (1998), A Muidinha (infantil) e ainda A Folha de Boldo - Notícia de Cachaceiro (esgotado), um livro encomendado pela empresa de aguardente Pitu que reuniu uma série de piadas sobre cachaceiro.
Lançou, ainda, no ano de 2001, Prosa Morena, um livro que acompanha um CD com declamações do autor. O livro contribuiu mais ainda para a linguagem e estética de sua obra. Jessier segue a tradição da poesia matuta, que teve início com poetas populares como Cornélio Pires e Catulo da Paixão Cearense. Tem ainda editado o livro “Política de Pé de Muro – O Comitê do Povão”, é um bem humorado comitê de legendas e imagens composto por 195 fotografias de pichações políticas exóticas e gargalhativas. No ano passado lançou “Bandeira Nordestina”, que leva o mesmo título do show, onde faz um verdadeiro mergulho na cultura nordestina. Para falar sobre essas e outras coisas da poesia matuta segue uma entrevista com esse arquiteto das palavras. Leia:

O dia nacional da poesia, não por acaso, coincide com a comemoração do nascimento do escritor baiano Castro Alves. Que análise você faz da poesia neste dia? Os poetas têm o que comemorar?
Há quem diga que a poesia é o laboratório da palavra. A poesia acabada é a palavra confeitada, polida, lapidada - no meu caso - lubrificada com óleo de risada e almofadada com penas de sobrecú de pavão; tudo isto, como forma de levar emoção às pessoas. Essa emoção, na realidade, é que precisa ser comemorada, não só no seu Dia Nacional, mas no bora-bora da vida diária.
Quanto aos poetas, têm sim o que comemorar; são discípulos de Castro Alves e, com a arma pontariosa da palavra, só ferem as pessoas a golpes de entusiasmo. Temos do ponto de vista didático, uma visão do poeta Castro Alves, em posição declamatória, como era do seu feitio, e usual no seu tempo. Por coincidência, faço uma poesia que pede voz e gestos largos, operísticos. Neste sentido, apesar de fazer uma poesia garranchenta, guardo um pouco dessa postura declamatória. É nessa relação de palco e platéia que tenho vivenciado intensamente essa emoção. Torço para que seja nossa cicerone no dia a dia.

O que falta a poesia popular para ela ser mais acessível do que é?
Talvez a chave de acesso esteja na sala de aula, como matéria obrigatória. A oralidade da rapaziada, o rádio e a própria internet cuidariam de espalhar o boato. Em outros outroras, poetas como Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira, entre outros, que, de tão cantados, até são considerados poetas populares, usavam o jornal e o panfleto como forma de divulgar suas obras. O próprio cordel foi, e ainda é, um grande veículo de difusão. Hoje, esse papel é desempenhado, na velocidade de Heródes pra Pilátos e em escala mundial pelo pombo-correio da internet. Caso as escolas adotassem como matéria obrigatória, a fonte de pesquisa seriam: cordéis, livros, cds, panfletos e esse folheto eletrônico, ferramenta indispensável nos dias de hoje.

No seu livro, “Bandeira Nordestina”, que não tive acesso ainda, há uma alusão à invenção da xilolinguagem. Em que sentido e de que maneira a xilogravura se situa na sua poesia?
Na realidade, essa expressão foi usada pelo escritor Gilberto Melo, que fez a apresentação do livro Bandeira Nordestina. Em determinado ponto, ele compara minha poesia à invenção de xilolinguagem. Refere-se que, de tão artesanal, seria como uma xilogravura; uma arte rústica de resultado sensível, capaz de retratar a riqueza cultural nordestina, sem perder o traço fundamental da simplicidade do seu povo. De fato, tenho muito zelo por essas miudezas. Retratar isto, de forma amanteigada foi à fórmula que descobri pra emocionar as pessoas.

Você participou das gravações da microssérie A Pedra do Reino. Como foi ter participado desta gravação?
Apesar de sempre imprimir uma boa dose de teatralidade nos meus espetáculos, nunca fiz teatro ou cinema propriamente dito. Na realidade entrei meio assustado feito papagaio que sobra do frechá, mas logo foi me familiarizando com o processo. Foram quatro meses de laboratórios, ensaios e gravações, amoitado no Cariri paraibano. O grande diferencial: Um elenco genuinamente nordestino e mestres de altura e robustura, mais jequitibá do território nacioná. Foi tarefa cumprida feito rabo de pavoa, mas, remédio de grande valimento. Volto aos palcos com esse aprendizado. Em formato de ator, fiz o fotógrafo e poeta Euclydes Villar, que acompanha o protagonista – Quaderna – em pelo menos uma, das inúmeras aventuras – a Caçada Aventurosa. Minha fala é pequena, feito escada de tirar maxixe, mas, tanto na caçada, como ao longo da microssérie, foi não foi, estou lá estampando minha quirinidade, ou minha euclydesdade, como queira. No decorrer das filmagens, findei fazendo outros personagens: um fanático religioso de túnica e enrolado numa rede e um padre com batina e tudo. Este último, já sem bigode e sem barba.

Você tem algumas publicações para criança. Como está essa produção para o público infantil? Parou?
Minha incursão literária infantil se resume a: “Chapéu Mau e Lobinho Vermelho” e “Miudinha”, são histórias alegres feito zoológico sem dragão. Foi não foi, estou sendo solicitado para fazer oficinas em escolas e colégios, principalmente em Recife e Natal, onde os livros são adotados. Nessas ocasiões, os gurizinhos soltam porções de: queremos mais. Ando com umas idéias na marmita dos pensamentos, e nesses dias sai coisa nova.

Quais são os planos para 2007? Mais livros, mais shows, mais eventos? Você não pensa em gravar um DVD para encartá-lo junto aos livros como já faz com os CD´s?
Os espetáculos e os eventos continuam. A feitura dos livros é mais lenta; é feita com recuos e volteios, bem ao sabor da ventania. Temos recebido muita cobrança de um Quirino falante em imagem buliçosa de DVD. Vamos fazer sim, mas ainda estamos arrumando as idéias para ter umas cenas campeiras e descritivas no andamento da palavra declamada, e isso requer mais produção.


Adriana Crisanto



Fotos: Divulgação do artista

Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte, no dia do lançamento.

"A Paraíba é terra de letras. A poesia está por toda parte"


Padre Fábio de Melo faz show para católicos em João Pessoa neste sábado
Um dos shows de música católica mais esperados do ano acontece hoje em João Pessoa, no Esporte Clube Cabo Branco, em Miramar, a partir das 20h. Trata-se do show do Padre Fábio de Melo, considerado atualmente como um dos mais centrados padres da nova igreja católica. O ingresso, a preço popular, custa R$ 7,00 e pode ser encontrado para compra nas livrarias católicas da Consolação, Paulinas e na Carmem Steffans (Shopping Manaíra).
Fábio de Melo é natural de Formiga, interior do Estado de Minas Gerais. Herdou do pai o amor pela música. Os sons e tons sempre embalavam suas brincadeiras de crianças. Ele é uma prova de que compondo ou cantando, encontra um jeito construtivo de empregar seus talentos artísticos. Antes de entrar para o seminário, Fábio de Melo já gostava de usar sua bela voz grave. Desde cedo mostrou sua inclinação para o mundo das letras, tendo inclusive recebido um prêmio em um concurso de literatura no Rio de Janeiro; mas voluntariamente, por suas próprias razões, renunciou um contrato com a editora que estava patrocinando o concurso.
É membro da congregação do Sagrado Coração de Jesus, e faz questão sempre de ressaltar que tudo que escreve e faz é naturalmente evangélico. A mensagem de Jesus Cristo é o viés de suas composições. Suas palavras e expressões ainda que estejam tocadas pelo específico de sua sensibilidade e criatividade, obviamente estão sinergizadas nas palavras do mestre de Jesus. Sua bibliografia é extensa. Ao comemorar 10 anos como cantor lançou um dos mais belos trabalhos de sua carreia, um disco intimista, diferente de tudo que havia produzido, o CD “Sou um Zé da Silva e outros tantos” pela editora Paulinas, em que faz uma verdadeira homenagem a música de raiz e resgate a cultura popular.
Tentei por vários dias entrar em contato com o Padre Fábio de Melo (que tem uma agenda lotada de compromissos) para falar de temas que até então não haviam sido abordados. Tarefa difícil, pois perguntaram a ele tudo ou quase tudo sobre religião. Nesta entrevista que segue ele fala, dentre outros assuntos, sobre teologia, poesia e como concilia o exercício religioso e as atividades artísticas. Leia:


Essa é a primeira vez que o senhor vem a João Pessoa?
Não. Na verdade João Pessoa já faz parte da minha vida. Minhas primeiras experiências com a música católica foram vividas aqui nesta terra.

Além do exercício religioso o senhor é professor, músico e escreve poesias. Entre ser professor, escrever poesia e música, o que mais o senhor se identifica ou ambas atividades se completam?
Eu não consigo me identificar compartimentado. Quando penso no que faço imediatamente eu me reporto ao que sou. É um jeito interessante de reconciliar minhas inúmeras atividades. A consistência do eu é que assegura um desdobramento das atividades sem o risco da perda da identidade. Gosto de ser, antes de fazer.

O senhor conhece algum poeta paraibano?
Conheço sim. A Paraíba é terra de letras. A poesia está por toda parte. Gosto muito de Augusto do Anjos, mas procuro conhecer as riquezas ainda desconhecidas. Os poetas do cotidiano, gente que ainda não alcançou o reconhecimento, mas que com mestria tornou-se tradutor dos sentimentos do povo.

Hoje muito mais pessoas procuram as faculdades e cursos de teologia não apenas para ingressar na vida religiosa, mas para ter conhecimento. A quê o senhor atribui esse interesse das pessoas pela religião?
A fé é uma mistura de certeza e dúvida. Não é possível crer, sem antes ter duvidado. A Teologia é uma palavra sobre Deus. Palavra que se movimenta no tempo. Por isso a investigação teológica é tão necessária nos dias de hoje. Teologia é experiência de desvelamento. Deus se mostra na vida, e nós, por meio do discurso teológico, tentamos dar nome a esta revelação. O que sabemos sobre Deus é também uma forma de saber sobre nós mesmos. Conhecer a Deus é também conhecer a humanidade. Neste tempo onde prevalece o interesse por Deus, de alguma forma identificamos o desejo de resolver as questões humanas. São dois fios entrelaçados. Divino e humano. O estudo sobre um lança luzes sobre o outro. E assim vamos compondo o tecido deste tear da existência.

A teologia sistemática é o ramo da teologia cristã que reúne as informações extraídas da pesquisa teológica, organiza-as em áreas afins, explica as suas aparentes contradições e, com isso, fornece um grande sistema explicativo. Não é isso? Já que ela tenta explicar “tudo” ou “quase tudo” como ela explicaria a violência no mundo?
O conceito de perfeição é muito fértil para entendermos esta questão. Tudo o que é perfeito é também processual. O acabado está distante de ser perfeito, porque corre o risco de cair de moda. Uma realidade para ser perfeita precisa atender ao movimento do tempo. Assim é o mundo. É perfeito, mas sofre das conseqüências do movimento. A violência do mundo é fruto das escolhas que fazemos e que atentam contra sua perfeição. O mundo criado é um mundo perfeito porque precisa de retoque constante, mas no momento em que abrimos mão da parte que nos cabe, de alguma forma estamos condenando o mundo à condição de caos.

Qual o ponto de vista cristão sobre o mundo?

Um dos grandes equívocos que nós podemos identificar no cristianismo é justamente o conceito de mundo. Isto se dá devido o fato de no contexto joanino a palavra mundo se referir ao império romano. É contra esta estrutura que Jesus se posiciona. O mundo que era contrário à felicidade humana precisava ser evitado, mas Jesus não se referia à realidade criada. O mundo, este lugar onde estamos situados é naturalmente bom. Mas não podemos negar que a metáfora do império que destrói ainda vale para os dias de hoje. Há muitas estruturas pecaminosas nos engolindo aos poucos.

O senhor é um padre jovem, bonito, tem uma voz privilegiada, é uma pessoa sensível, fala e escreve bem, e ainda por cima é poeta. Mas, também, como o senhor mesmo diz, é humano demais. Toda essa mitificação que as pessoas fazem de sua imagem não o incomoda e atrapalha?
Claro que sim. Ser imaginado é uma forma de aprisionamento. O que faço é reivindicar o direito de ser gente, de poder sofrer e de não ter respostas prontas para tudo. Não sou adepto de uma religião que responde a todas as perguntas do mundo. A religião que gosto de ensinar é a que ajuda a conviver com as questões.

O senhor nunca pensou em transformar em livro sua dissertação de mestrado?
Ainda não. O tema é interessante, mas precisa passar por um processo literário que ainda não tive tempo para realizar. Quem sabe um dia...

Quais suas pretensões para 2007? Algum livro novo?
Vou escrever muito neste ano. Estou me programando para isso. Vou lançar meu primeiro livro de contos: “Mulheres de aço e de flores”. Lançarei também dois livros pela Canção Nova: “Quem me roubou de mim? O seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa”, e “Uma palavra que lhe faça bem.”
Adriana Crisanto
Jornalista
Foto: Divulgação da Talentos Produções
*Matéria publicada no caderno show do jornal O Norte em 17 de março.

Teatros pedem socorro


Enquanto os grupos de artistas se reuniam para elaborar um documento manifesto a ser entregue as autoridades públicas, reivindicando melhorias na política cultural do Estado e do Município, o diretor do Teatro Ednaldo do Egypto, Fabiano do Egypto, se contorcia com a possibilidade de ver o teatro, herdado de seu pai, fechar as portas em definitivo, devido aos prejuízos financeiros que ultrapassam a R$ 3,6 mil.
Após a divulgação na imprensa de que o teatro fecharia suas portas, Fabiano do Egypto recebeu convite de dois políticos para uma conversa e verificar a possibilidade de resolver a situação do não fechamento da casa. “Se até o final dessa semana não conseguir resolver a situação, infelizmente vou ter fechar as portas do teatro e vender para alguma empresa ou igreja”, desabafou o diretor do teatro que teve, em 2006, uma receita total inferior a R$ 21 mil.
Fabiano do Egypto diz que há muito tempo vem procurando apoio dos órgãos públicos do Estado e do Município sem obter sucesso. Ele contou que no ano passado o único órgão que teve interesse em ajudar foi a Prefeitura Municipal, mediada pelo Vereador Fúba, na tentativa de obter isenção dos impostos municipais, no entanto, o prefeito Ricardo Coutinho, não encontrou respaldo legal na Lei de Responsabilidade Fiscal.
A proposta apontada foi à realização de um convênio entre a administração pública municipal e o teatro para realização de oficinas e cursos para os estudantes da rede municipal. O valor estipulado foi de R$ 3 mil por mês. Mas, o acordo esbarrou na Secretaria de Educação do Município, que alegou não ter condições de arcar com os custos do IPTU do imóvel, além do salário de dois funcionários: um iluminador e uma secretária.
Sobre essa questão Fabiano do Egypto disse que não pediu a prefeitura descontos no IPTU, mas adiantou que o valor do imposto a ser pago pelo teatro este ano será de R$ 1.319,06. “Fora à taxa do lixo. Não tenho condições infelizmente”, contou emocionado. A reportagem procurou o secretário de educação do Município, Walter Galvão, durante toda a manhã e o mesmo não pode atender por está despachando os diretores das escolas.
Fabiano do Egypto diz que viu nascer aquele teatro de um sonho de seu pai. “Ele tinha um sonho de erguer o primeiro teatro particular do Estado e conseguiu”, disse. Ednaldo do Egypto conseguiu construir o teatro com o dinheiro de sua aposentadoria de professor universitário, coisa inédita nesse país.
O teatro tem 172 lugares e um sistema ainda precário de refrigeração. , foi palco de espetáculos como o show de lançamento do CD “Aos vivos”, de Chico César, as comédias “Vovô viu a uva” e “Vovó viu a ave”, com Cristovam Tadeu, humorísticos com Zé Lezin, Piancó, Márcio Tadeu e peças infantis como “Os três porquinhos”, “Os três mosqueteiros”, “Rock monstro” e “Scooby-doo”. Este final de semana apresenta “Espantaram o espantalho” e, na próxima semana “O gato de botas”, ambas para crianças.

A pauta do Ednaldo do Egypto custa R$ 100. Com dois espetáculos por final de semana e dando público suficiente para que este valor seja cumprido, o rendimento após cinco finais de semana é de R$ 2 mil. Mesmo com alguma renda extra vinda de cursos e oficinas, que são irregulares, o montante somado é inferior aos mais de R$ 3 mil necessários para custear a casa. “Este é um teatro privado, que deveria dar lucro, mas a realidade tem sido bem diferente”, conta Fabiano, que já teve três funcionários e hoje conta apenas com um que acumula as funções de iluminador e serviços gerais.

Teatro Lima Penante

Na semana passada o Teatro Lima Penante, que pertence ao Núcleo de Teatro Universitário da Universidade Federal da Paraíba (NTU/UFPB), uma parte do fôrro do teatro caiu devido às infiltrações, interrompendo uma oficina de música que estava acontecendo no local. O diretor do NTU, o ator Edílson Alves, comunicou que o teatro ficará sem funcionar por cerca de 40 dias e que todas as atividades programadas estão sendo canceladas, até que dos órgãos da prefeitura universitária tome as devidas providências.
O laudo que interrompeu as atividades no teatro foi dado pela Divisão de Manutenção e Conservação da Universidade Federal da Paraíba (DMC/UFPB), a engenheira, Ligia da Silva Brito. “Os espíritos do teatro estão soltos”, comentou Edílson Alves, um dos recordistas em bilheteria nos teatros paraibanos.
A história do Núcleo de Teatro Universitário se confunde com a do Teatro Lima Penante, inaugurado no dia 08 de fevereiro de 1980. O Núcleo é subordinado a Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários (PRAC), setor responsável pelo estudo, pesquisa e produção teatral, através de ações extensionistas voltadas para o desenvolvimento cultural na região. As ameaças ao fechamento do Lima Penante também são constantes. Durante um tempo as atividades do NTU estiveram ameaçadas, pela falta de verba e de uma política cultural planejada, sem falar nas condições estruturais do teatro e no seu alojamento.
Apesar de ser considerado um teatro pequeno o Lima Penante possui uma boa acústica, o palco é elevado, tipo italiano, conta com 150 cadeiras, dois camarins, uma bilheteria, cabines de som e luz. Na noite de sua estréia quem subiu ao palco foi o espetáculo “A Noite de Matias Flores”, em que faziam parte do elenco: Ednaldo do Egypto (ator e diretor), Clizenite Assis, Ubiratan Assis, Carlos Lima, Osvaldo Travassos, Marcos Tavares e a atriz Nautília Mendonça, que se apresentou pela última vez.
O Núcleo de Teatro consiste num complexo físico de fundamental importância para o Estado, porque representa o resgate de anos de lutas e conquistas na relação universidade e movimento cultural, ao mesmo tempo em que concretiza nos espaços, planos e projetos de trabalho que provocam discussões sobre a real importância do teatro para as comunidades e de que forma beneficiam ou alteram a vida das pessoas enquanto cidadãos.

O NTU Núcleo, que abrange teatro, pousada, café, salas de ensaio e biblioteca, sofreram uma grande reforma na sua estrutura física. Em outubro de 1999 o NTU inaugurou a Biblioteca Ângelo Nunes, a Pousada Nautília Mendonça, a Praça Pedro Santos, onde funciona o bar e o restaurante (Café do Lima) e mais quatro salas de ensaio.

A Biblioteca de Artes Cênicas conta com um acervo de 418 livros sobre artes, história do teatro no Brasil, nordeste e na Paraíba, abriga periódicos (cartazes, calendários, programas, folders, textos e agendas). Possui ainda um arquivo fotográfico dos espetáculos encenados no Teatro Lima Penante. A biblioteca passou a se chamar Ângelo Nunes, uma homenagem do Núcleo ao jovem ator e diretor de teatro falecido em acidente de carro. Ângelo foi diretor de uma das peças mais vistas no Teatro Lima Penante, o premiado espetáculo “Não se incomode pelo Carnaval”. O ator também deixou sua contribuição para o Curso de Teatro para Crianças e Adolescentes, ministrando aulas nos cursos promovidos pelo Núcleo.

O presidente do Sindicato dos Artistas do Estado da Paraíba (Sated), o ator Horiebe Ribeiro, lamentou o fechamento do teatro Ednaldo do Egypto e diz que a crise no teatro paraibano não é geral. “Os artistas sofrem com a falta de apoio e com a desunião da própria classe artística” comentou Horiebe que está à frente do sindicato desde 2005.
O Sated mesmo funciona apenas com a metade do número de artistas que deveria funcionar. De acordo com ele, contribuem com o sindicato regularmente apenas 15 sócios. A mensalidade é R$ 10,00 e anual fica por R$ 60,00.

Adriana Crisanto
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O NORTE, em março de 2007.
Foto: de arquivo.

Paixão de Humberto


Técnicas de circo e a verticalidade do teatro de rua são alguns aspectos inseridos no espetáculo “Jesus, uma Paixão”, montagem teatral promovida anualmente pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), durante a Semana Santa, na Praça do Bispo, em João Pessoa. O ator e diretor, Humberto Lopes, foi o escolhido para dirigir o espetáculo religioso que narra sobre a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, na visão das mulheres.
Humberto Lopes e Celly Freitas (autora do texto) concorreram ao edital de seleção da Funjope com outros três de diretores locais. Essa é a quarta vez que Humberto participa de montagem sobre a história de Cristo. Há cerca de 12 anos ele produziu três espetáculos, da mesma natureza, na gestão do então secretário de educação Raimundo Nonato.
A montagem será diferente dos anos anteriores. Ela estará fundamentalmente centrada nas técnicas do espetáculo de rua, com o uso da verticalidade. Terá o espaço urbano como cenário e uso das técnicas de circo, sem deixar de fora os aspectos da cultura popular.
Uma das coisas que incentivou o diretor a concorrer o edital para encenação do espetáculo foi o fato de ser uma montagem centrada no ponto de vista das mulheres. “Costumo dizer para alguns amigos que estou dirigindo o espetáculo com meu lado feminino”, se diverte o diretor que sempre esteve ligado aos órgãos que apóiam a luta pelos direitos das mulheres no Estado.
“A concepção do espetáculo em si é como se ele não existisse, uma coisa de mesa-teatro, que tenta aproximar o Deus do humano” explicou Humberto Lopes. A história é narrada no plano da realidade (dias atuais) e no plano da memória que são os acontecimentos ocorridos no passado histórico. A memória será mantida através dos figurinos do espetáculo e no cenário.
No papel das lavadeiras narradoras da história de Cristo estão as atrizes: Patrícia Braz, Melânia Silveira e Francijane Cavalcanti. O personagem central Jesus será interpretado pelo ator Daniel Porpino e Maria será dramatizado pela atriz Valeska Picado. No elenco estão ainda os atores: Ângelo Guimarães (Judas), Fernando Teixeira (Caifás), Vladimir Santiago (João Batista), David Muniz (Pilatos), Neto Ribeiro (Herodes), Kilma Farias (Salomé). Interpretando os evangelistas estão os atores: Joti Cavalcanti (Pedro), Joevan Oliveira (Tiago), Felipe de Oliveira (André) e Paulo Henrique (João).
Além dos 55 atores em cena Humberto coordena uma equipe com cerca de 150 pessoas. São técnicos de luz, som, imagem, maquilagem e outros tantos profissionais. A parte cantada de “Jesus, uma Paixão” será realizada por um coral de vozes femininas e uma orquestra de pequena formação que serão coordenadas pelo maestro Carlos Anísio.
Uma das características do espetáculo é a utilização do tempo e espaço urbanos e nesta montagem, de acordo com Lopes, todos os espaços da praça serão aproveitados de uma forma ou de outra. Como o espetáculo está centrado na imaginação das lavadeiras os elementos do circo vão ajudar a compor a idéia essencial do teatro que é o caráter lúdico.
A proposta de Humberto Lopes é que o espetáculo seja encenado uma média de dez vezes, durante toda a Semana Santa. “Essa gestão deu uma nova cara ao projeto, à medida que foi democratizado o acesso à Paixão de Cristo e valorizado o artista local”, destacou.

Sobre o Diretor

Humberto Lopes nasceu em Alto Santo (sertão do Ceará), mas desde da infância reside em Campina Grande, município localizado a cerca de 118 quilômetros, da Capital, João Pessoa. Toda a formação artística foi em Campina Grande, onde participou de todo movimento artístico-cultural das décadas de 1970, 1980 e 1990.
Embora venha de uma formação católica Humberto diz que foi seminarista, espírita, comunista, e ateu e mesmo não sendo um católico fervoroso diz que a espiritualidade está em tudo e acredita que o mundo ainda não piorou porque as pessoas ainda acreditam em Deus. “Trabalhar com um tema como a Paixão de Cristo termina transformando a gente em pessoas melhores ou mais sensíveis que já é melhor”, disse.
Há cerca de 20 anos que atua em teatro. Sempre esteve ligado ao teatro de rua, embora seu processo criativo abarque várias coisas ao mesmo tempo. Coordena o grupo “Quem tem boca é para gritar” com quem já produziu 16 montagens teatrais de rua e 10 de palco. Foi ator e diretor de “A Feira”, “Lampião vai o inferno buscar Maria Bonita”, “Paixões urgentes”, “A árvore dos mamulengos” (vencedor de prêmio em festivais de teatro no Paraná), “Trupizupe o raio da silibrina” (texto de Bráulio Tavares), “A festa do Rei”, “As aventuras de uma alucinada”, “Quem tiver achando ruim que saia”, “Quatro na Lona”, “A farsa do advogado Pathelin” (espetáculo com penas de pau), entre outros.
No cinema atuou no filme “A Sintomática Narrativa de Constantino”, do diretor Carlos Downling, “Por Trinta Dinheiros”, filme de Vânia Perazzo, e recentemente gravou cenas para minissérie A Pedra do Reino.

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Arquivo O Norte
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte, 4 de março de 2007.