40 anos de poesia


Em meados de setembro, o poeta Sérgio de Castro Pinto estará lançando a obra “O Cristal dos Verões”, livro com o qual registra os seus 60 anos de idade e quarenta de poesia. A obra será lançada pela Editora Escrituras, de São Paulo, a mesma que publicou “Zôo Imaginário”, que, além de conquistar o prêmio Guilherme de Almeida, promovido pela União Brasileira de Escritores (Seção do Rio de Janeiro), foi adotado nos vestibulares do Cefet, da Universidade Federal de Campina Grande e nas escolas públicas de São Paulo, através do Programa Lendo e Aprendendo, promovido pela Secretaria da Educação daquele Estado do sudeste brasileiro.
“O Cristal dos Verões” reúne poemas escolhidos desde o livro de estréia de Sérgio de Castro Pinto, “Gestos Lúcidos”, até o mais recente “Zôo Imaginário”. Nesta entrevista que segue o escritor faz um balanço de sua inspiração poética que completam 40 anos, fala sobre as traduções dos romances russos. Opina sobre o ingresso de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras e diz, como muita naturalidade, que nem sempre na academia brilham os bons, e fala de assuntos ligados à literatura. Leia:


Citando Mário de Andrade, certa vez, o senhor disse, em entrevista a um jornalista local, que o poeta somente pode ser considerado poeta se ele continuar a produzir depois dos 30 anos. O senhor completa 60 anos e não parou de escrever poesias. De onde vem tanta inspiração?
Às vezes, a poesia é tão transitória quanto à adolescência. Dura o tempo de uma noite de verão. Quem, quando jovem, na tentativa de superar um amor não correspondido, o início ou o final de um namoro, não expôs os seus sentimentos numa folha de papel? Pois bem, o poeta, o verdadeiro poeta, é aquele que persevera, que se entrega de corpo e alma à palavra escrita, que não abdica dessa luta vã, inglória, que é “lutar com as palavras/ mal surge a manhã”. É o que alia sentimento e linguagem, a partir da elaboração de ambos. Quanto à inspiração, ela nem sempre vem, muitas vezes eu vou buscá-la.

Que balanço o senhor faz desses 40 anos de poesia?
Que escrever, hoje, transcorrido todo esse tempo, é-me tão difícil, tão torturante, quanto o foi em 1967, ano em que estreei com o livro “Gestos lúcidos”. Aliás, em poesia, longevidade nem sempre é sinônimo de qualidade. Em todo caso, porém, tenho a satisfação de ter colhido alguns frutos como, recentemente, o Prêmio Guilherme de Almeida – melhor livro do ano de 2005 – , outorgado pela União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro, a “Zôo imaginário”. Isso sem contar que esse mesmo volume está sendo adotado nas escolas de 1º grau da rede pública de São Paulo, através do programa “Lendo e aprendendo”, da Secretaria de Educação daquele Estado, que o selecionou entre dezenas de outros. Já o livro “O Cerco da memória” foi adotado no vestibular do CEFET e da Universidade Federal de Campina Grande.

O historiador Alfredo Manguel acredita que hoje se leia mais do que no século XIX. O senhor concorda?
Alfredo Manguel deve dispor de elementos para ter chegado a tal conclusão. Tenho para mim, no entanto, que hoje se lê mais, sobretudo se levarmos em conta o advento da Internet e dos livros de auto-ajuda. É bem verdade que, na maioria das vezes, os textos de auto-ajuda são menores, descartáveis, mas, nem por isso, deixo de acreditar que, por vias transversas, tortuosas, pode-se chegar, através desse tipo de leitura, a Graciliano, Zé Lins e outros autores maiores da literatura brasileira. Ler é sempre melhor do que não ler.

Como o senhor observa as atuais traduções que estão sendo feitas dos romances russos?
Até quase recentemente, as traduções dos romances russos eram de segunda mão, ou seja, Tolstoi, Dostoievski e outros, eram traduzidos do inglês, do francês. Hoje, graças ao paraibano Paulo Bezerra, a tradução é feita diretamente do russo. Aliás, foi Paulo Bezerra quem introduziu Baktrin entre nós, isso quando verteu, para o português, “Problemas da poética de Dostoievski”, no qual o crítico russo traz à baila a teoria da carnavalização.

Como sentiu o ingresso de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras?
Com naturalidade, pois as academias, nem sempre, abrigam os melhores. Que o diga, para citar apenas um exemplo, Ataulfo de Paiva, de quem Zé Lins, ao sucedê-lo, disse cobras e lagartos. Segundo Edilberto Coutinho, “Do ponto de vista da realização literária, não representa coisa alguma o ingresso numa Academia”. E finaliza: “As Academias não farão de quem não é, bom escritor, e se o acadêmico tiver alguma valor, não o perderá na cerimônia de posse”.

Muitos escritores e críticos colocam a poesia numa redoma de vidro. Algo ligado apenas aos privilegiados da escrita. Isso acontecia no passado e continua nos dias atuais. A quê o senhor atribui esse comportamento?
Creio que os que assim procedem acreditam que a poesia é uma dádiva dos deuses. E, como tal, deve se distanciar do “estéril turbilhão das ruas” e se isolar numa torre de marfim. Prefiro-a, no entanto, com a “marca suja da vida”, assim como Manuel Bandeira a desejou quando, em “Nova poética”, lançou a “teoria do poeta sórdido”. Como disse o grande poeta pernambucano, “O poema deve ser como a nódoa no brim”. E brim branco.

O que o senhor está lendo no momento?
Sou um leitor compulsivo, eclético e indisciplinado, sou daqueles que lêem, simultaneamente, dois, três ou mais livros. E o faço para respirar novos ares, para estabelecer novos diálogos. Ou, em última instância, quem sabe não procuro, na diversidade dos gêneros literários, a minha unidade desde há muito perdida? Com efeito, quase sempre empilho, na minha mesa de cabeceira, livros de poesia, de ensaio e de ficção. No momento, leio: “Ou o poema contínuo” (A Girafa), do poeta português Herberto Helder, “A Cegueira e o saber” (Editora Rocco), de Affonso Romano de Sant’Anna, “O Último leitor” (Companhia das Letras), do argentino Ricardo Piglia e “47 Contos de Juan Carlos Onetti” (Companhia das Letras).

Adriana Crisanto
Repórter
Foto: Gustavo Moura
Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O NORTE em maio de 2007.

"Segundo" Maria Rita


”Segundo” é o nome do show que a cantora Maria Rita apresenta em João Pessoa dia 23 de maio (quarta-feira), às 20h30, no Esporte Clube Cabo Branco, em Miramar. Os ingressos estão sendo vendidos antecipadamente na secretaria do clube com os seguintes preços: R$ 220,00 (mesa 4 pessoas), R$ 40,00 (individual inteira) e R$ 20,00 (estudante). A produção local é dos meninos da Casa de Taipa Produções.
Coincidentemente está também é a segunda vez que a cantora vem a João Pessoa. O show é o mesmo do CD e DVD que cantora lançou em 2005 pela Warner. O DVD foi gravado em dois lugares: uma parte no Claro Hall, no Rio de Janeiro e na Toca do Bandido, também no Rio em setembro de 2005.
No disco e DVD vale a pena ouvir “Muito Pouco”, uma canção de Paulinho Moska, a terceira faixa “Mal Intento”, de autoria de Jorge Drexler, “Lavadeira do Céu” de Lenine e Bráulio Tavares.
A cantora Maria Rita iniciou a carreira com cerca de 24 anos, apesar de querer cantar desde os quatorze anos, com disse certa vez em entrevista na televisão. O peso da carreira da mãe, Elis Regina, influenciou o adiamento de sua obra. Nas entrevistas concedidas a imprensa do sudeste a própria cantora diz que sempre teve a consciência de ser a única filha mulher de uma grande cantora.
Antes de se tornar cantora profissional, Maria Rita fez um estágio em uma revista para adolescentes, na Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, quando fez o curso de marketing e estudos latino-americanos. Apesar do sucesso e da bela voz Maria Rita ainda é acusada pelos especialistas de música por imitar o estilo da mãe. Estigma que a cantora vai carregar enquanto vida tiver. Mesmo assim Maria Rita foi à ganhadora do Grammy Latino em três categorias: revelação do ano, melhor disco de MPB e melhor canção brasileira.
Na internet circula o comentário de que “Segundo” caiu na rede e não se sabe como. Muita gente baixou Santana, música do compositor pernambucano Júnior Barreto que a cantora tinha decidido gravar, mas acabou desistindo ao saber que Gal Costa tinha se interessado pela inclusão de Santana no seu também recém-lançado disco “Hoje” e que já tinha o aval do compositor. A versão-demo de Santana com Maria Rita é cantada em dueto com Lenine. A gravação dura nove minutos exatos e rivaliza com a brilhante releitura de Gal pelo arranjo forte e pelos vocais incisivos de Rita. Pena que ficou fora da seleção final de Segundo.

Serviço:
Maria Rita

Quarta-feira (23)
Hora: 20h30
Local: Esporte Clube Cabo Branco – Miramar
Ingressos antecipados: Secretaria do Clube
Preço: R$ 220,00 (mesa 4 pessoas), R$ 40,00 (individual inteira) e R$ 20,00 (estudante).

Adriana Crisanto
Repórter
Matéria publicada no Jornal O NORTE

Cineport 2007 balanço


Como fomos acusados de não divulgar o Festival de Língua Portuguesa (Cineport), o evento mais importante do ano da cidade de João Pessoa, ocorrido no período de 4 a 13 de maio, na Usina Cultural da Saelpa, segue aqui algumas considerações finais.
O festival, como disse o pessoal da Overmundo, foi “bacanérrimo” e de fato foi. Este ano o homenageado foi o cineasta paraibano Vladimir Carvalho que se fez presente em vários dias do festival e esteve cercado por admiradores e amigos. A programação, extremamente vasta, precisaria do engajamento de uma comissão de frente, formada por jornalistas culturais para cobertura de cada área, sem falar nas oficinas, palestras e mesas redondas, que ocorreram na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e ações culturais promovidas pela Fundação Ormeo Junqueira.
De acordo com a comissão organizadora do evento, o festival teve uma média de oito horas ininterruptas de projeções e recebeu mais de 500 trabalhos, entre longas, curtos, documentários e animações, que foram avaliados por profissionais do segmento audiovisual de Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraíba.
Foram exibidos filmes do Brasil, Timor Leste, Portugal, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Cabo Verde, atendendo os mais variados gostos. A maratona cinematográfica começava sempre muito cedo, às 9h00 da manhã, com exibições direcionadas ao público infantil e a última exibição por volta das 23h00.
Entre uma exibição e outra aconteceram performances, esquetes e danças. A cada dia do evento uma atração musical aconteceu no Parahyba Café (Cineport Música) que teve dois pontos de apoio, um na entrada e outro na parte de trás da Usina Cultural. Uma das mais interessantes apresentações foi do pianista Bernardo Sassetti, que à frente de um belo piano de calda desfilou um repertório eclético, de Dori Caymmi a João Gilberto.
Uma das músicas teve a performance da dançarina Zamélia Pentes que acompanhou Bernardo num show de contorcionismo contemporâneo. Dentro de um macaquito vermelho, a moça percorreu todo tablado ao som instrumental de autoria do pianista. O melhor momento do show ficou mesmo por conta da apresentação de Bernardo com o grupo de forró paraibano “Os Cabras de Pai Matheus”. Os gringos foram à loucura e muitos se atreverem ensaiar alguns passos.
O show ameaçava começar quando a tenda Cineport-música foi invadida por angolanos e africanos que surgiam de vários buracos da Usina para assistir ao show do angolano Galisá. Munido de um instrumento que mistura harpa com beribau Galisa e seus companheiros levou o público a dançar, inclusive, em cima do palco. Os angolanos tiveram o apoio de músicos paraibanos, que ensaiaram apenas um dia com os angolanos e pegaram de primeira a batida da mãe Angola.
Os filmes puderam ser assistidos nas tendas Andorinha e Andorinha Digital e quando batia aquela fomezinha bastava freqüentar as barraquinhas espalhadas pela área externa ou mesmo Parahyba Café. “Não sabia da existência de um lugar como este em João Pessoa. Isso me deixa muito feliz”, comentou a estudante Cynthia Alencar que pagou apenas R$ 1,00 para assistir os filmes e não enfrentou uma longa fila para entrar na terça-feira (8).
Como o tempo foi corrido pude assistir a alguns filmes, como o português “Coisa Ruim”, um suspense muito bem trabalhado e o brasileiro “Mulheres do Brasil”. “Uma das coisas que me chamou atenção foram às legendas no filme português. Isso facilitou a compreensão das falas, já que não estamos acostumados com o português de outros países”, disse o estudante de direito Fernando Aguiar.
Um dos destaques do festival foi o filme “Cartola”, premiado como melhor documentário do Cineport. “Cartola” era um lorde, como bem o definiu Cacá Diegues. O longa-metragem segue a linha de Vinícius, de Miguel Faria Júnior (que foi um grande sucesso de público - o documentário mais visto da história do cinema brasileiro, com 204 mil espectadores).
O roteirista (Hilton Lacerda) e o diretor (Lírio Ferreira) não souberam dizer em que momento eles se apaixonaram pelo personagem, mas o público sabe e saiu falando da beleza que foi o filme. “Eu fiquei tomada por Cartola”, comentou a cantora paraibana Gláucia Lima. Diz a lenda que Villa-Lobos subia o morro da Mangueira só para ouvir os sambas de Cartola. Um dia, disse ao compositor "não estuda, não. Você faz tudo errado, mas fica lindo!". Nem o mais exigente dos críticos ousaria contestar o criador das Bachianas brasileiras.
Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock n’ Roll, de Otto Guerra foi outro filme que lotou a Tenda Andorinha e teve que ser reprisado a pedido do público que ficou do lado de fora. O filme é uma festa na virada para 1972. Na casa de Cosmo, estão os jovens Wood, Stock, Lady Jane, Rê Bordosa, Rampal, Nanico e Meiaoito, que vivem intensamente o barato do “flower power” ao explodir dos fogos de ano novo. Trinta anos se passam e nossos heróis, agora carecas e barrigudos, enfrentam as dificuldades de um mundo cada vez mais individualista e consumista.

Entrega dos prêmios

Os vencedores dos Troféus Andorinha, Andorinha Digital e Andorinha Criança foram divulgados ainda há pouco, durante a cerimônia de encerramento do Festival Cineport, no Teatro Santa Rosa. O Céu de Suely, do brasileiro Karim Aïnouz, foi o grande vencedor da noite, levando o Troféu Andorinha como melhor diretor e melhor filme na categoria 35mm. Evaristo Abreu levou o Andorinha de melhor ator por seu trabalho em “O Jardim do Outro Homem”, do moçambicano Sol de Carvalho.
A portuguesa Ana Moreira ganhou como melhor atriz por Transe, de Teresa Villaverde. O vencedor do Prêmio Saelpa/Cineport, no valor de dez mil reais e destinado a cineastas paraibanos, foi O Fazedor de Filmes, de Arthur Lins e Ely Marques. A seguir, a relação completa dos agraciados com os Troféus Andorinha, Andorinha Digital e Andorinha Criança.

Troféu Andorinha

Melhor Filme: O Céu de Suely
Melhor Direção: Karim Aïnouz (O Céu de Suely)
Melhor Ator: Evaristo Abreu (O Jardim do Outro Homem)
Melhor Atriz: Ana Moreira (Transe)
Melhor Ator coadjuvante: Selton Mello (Árido Movie)
Melhor Atriz coadjuvante: Dira Paes (Mulheres do Brasil)
Melhor Roteiro: Pedro Costa (Juventude em Marcha)
Melhor Produtor: Luís Galvão Teles, Serge Zeitoun, Sol de Carvalho (O Jardim do Outro Homem)
Melhor Montagem: Mair Tavares (Veneno da Madrugada)
Melhor Música: Berna Ceppas, Kamal Kassim, Otto e Pupilo (Árido Movie)
Melhor Fotografia: João Ribeiro (Transe)
Melhor Direção de arte: Cássio Amarante (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias)
Melhor Figurino: Kika Lopes (Zuzu Angel)
Melhor Documentário: Estamira
Melhor Fotografia de documentário: Marcos Prado (Estamira)
Melhor Montagem de documentário: Pedro Marques (Lisboetas)
Melhor Direção de documentário: Sérgio Tréfaut (Lisboetas)

Prêmio Saelpa/Cineport
"O Fazedor de Filmes", de Arthur Lins e Ely Marques

Troféu Andorinha Digital
Melhor Ficção Curta: Sete Minutos (Cavi Borges).
Menção Especial Ficção Curta: Augusto na Praia (Rafael Eiras).
Melhor Documentário Curta: Trecho (Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr)
Melhor Animação Curta: Stuart (Zepe).
Menção Especial Animação Curta: O Jumento Santo (William Paiva e Leonardo Domingues).
Melhor Documentário Longa: Cartola (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda)

Troféu Andorinha Criança
No Meio da Rua (Antônio Carlos da Fontoura).

Adriana Crisanto
Repórter
Matéria não publicada no caderno Show do Jornal O NORTE.
Fotos: Divulgação.




Bernardo e os Cabras de Pai Matheus no Cineport


Quem ainda não foi não vá correndo prestigiar o Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport) que está acontecendo na Usina Cultural da Saelpa (Tambiá), em João Pessoa. O festival prossegue até o dia 13 de maio e para entrar custa apenas R$ 1,00. A programação é vasta e agrada a gregos e paraibanos.
Na última segunda-feira chuvosa em João Pessoa, o show do festival ficou por conta do pianista Bernardo Sassetti. À frente de um belo piano de calda o musicista, natural de Lisboa, desfilou um repertório eclético. A primeira peça apresentada pelo compositor foi um prelúdio em sol para piano, em que revela sua paixão pelo cinema. Da música popular brasileira o pianista destilou sua paixão pela música do Brasil e executou uma canção de Dori Caymmi e dedilhou “Nós pés da Santa Cruz” de João Gilberto.
Uma das músicas foi acompanhada pela amiga dançarina Zamélia Pentes que acompanhou Bernardo num show de contorcionismo contemporâneo. Dentro de um macaquito vermelho a moça percorreu todo tablado ao som instrumental de sua autoria. O melhor momento do show ficou mesmo por conta da apresentação do pianista com o grupo de forró paraibano “Os Cabras de Matheus”. Os gringos foram à loucura e muitos se atreverem ensaiar alguns passos.
Bernardo Sassetti começou sua carreira profissional, em concertos e clubes locais, com o quarteto de Carlos Martins e o Moreiras Jazztet. Participou de inúmeros festivais com músicos tais como Al Grey, John Stubblefield, Frank Lacy e Andy Sheppard. Desde então, nos primeiros 15 anos de carreira, apresenta-se por todo o mundo ao lado de Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Paquito D´Rivera, Benny Golson, Curtis Fuller, Eddie Henderson, Charles McPherson, Steve Nelson, integrado na United Nations Orchestra e no quinteto de Guy Barker com o qual gravou o CD "Into the blue" (Verve), nomeado para os Mercury Awards 95- Ten albuns of the year. Em Novembro de 1997, também com Guy Barker, gravou "What Love is", acompanhado pela London Philarmonic Orchestra e tendo como convidado especial o cantor Sting.
O Cineport meio que se espalhou pela cidade e está acontecendo em vários pontos. Na Usina Cultural uma cidade do cinema foi erguida no local com três gigantescas tendas, duas galerias de arte, uma lojinha com produtos do festival e uma livraria. A programação do Cineport também está acontecendo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) como Encontro de Literatura em Diálogo na Língua Portuguesa, no auditório da Reitoria.
A programação do cinema infantil está com pauta certa no Cine Bangüê do Espaço Cultural José Lins do Rego, com apresentações exclusivas para crianças da rede pública de ensino. Tem ainda o Cine Volante, realizada em parceria com o governo municipal, com exibição de filmes em plena praça pública. É de encher os olhos de tanta coisa para fazer por lá. O evento conta ainda com oficinas de teatro, teledramaturgia, mesas redondas, encontros de cineclubistas e outras atividades.
Essa é a primeira vez que um evento desta natureza aporta na cidade de João Pessoa. “É raro ter um evento assim tão grande no nosso Estado. As pessoas precisam mesmo prestigiar sem falta”, disse a estudante Nayara Rodrigues que junto com os amigos da escola não perdeu ainda uma noite de filmes na Cidade do Cinema.

Adriana Crisanto
Repórter
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte

Mada em fotos

Banda mineira Shank completamente sem sal na apresentação do Mada
Foto: Rodrigo Vidal (acima).
Paralamas do Sucesso ainda um sucesso no palco
Foto: Rodrigo Vidal (acima)
Herbert Viana soprando velinha no camarim do Mada.
Do lado minha amiga Valentine a autora do bolo. Foto: Rodrigo Vidal (acima)

Banda Detonautas - Homenagem tatuada a Rodrigo, ex-integrante da banda morto
violentamente em assalto no Rio de Janeiro.
Foto: Rodrigo Vidal (acima).

Momentos do Mada

Electron - Manfredo e Arthur - Foto: Rodrigo Vidal (acima)

Banda pernambucana Mombojó - Foto: Rodrigo Vidal (acima)


Banda Madame Sattan - Vocalista Sammliz ( é assim que escreve?) - Foto: Rodrigo Vidal


Banda Mellatrons - Foto: Rodrigo Vidal (acima)
Banda Superguindis - Foto: Rodrigo Vidal (acima)
Tenda Eletrônica do Mada - Foto: Rodrigo Vidal (acima)

Feira Mix do Mada - Foto: Rodrigo Vidal (acima)

Banda Reverse - Rio de Janeiro - Foto: Rodrigo Vidal (acima)

Alimentar a alma com música

O festival de música alternativa Mada (Música Alimento da Alma) que ocorreu neste último final de semana na arena do Imirá Plaza Hotel, via costeira de Natal (RN) teve algumas surpresas. A chuva visitou a arena do evento no segundo dia, data em que menos pessoas compareceram no festival de música alternativa que tem se consolidado nos últimos anos.
Dividiram os dois palcos do Mada, no primeiro dia, as bandas Pandora no Hako (RN), Lucy and The Popsonics (DF), Manacá (RJ), Rockassetes (SE), Memória Rom (RN), Cabaret (RJ), Mellotrons (PE), Bugs (RN), Mombojó (PE), Móveis Coloniais de Acaju (DF) e Detonautas Roque Clube (RJ).
A banda potiguar Pandora abriu as apresentações no local. A proposta do grupo é uma das mais difíceis de explicar. Eles tocaram músicas antigas dos desenhos animados japoneses com um tal de fundo metal melódico. Para quem não entende muito dessa “coisa jovem demais da conta de ser” a música parece esquisita com jeito nerd, só os iniciados poderiam explicar.
Os grupos Lucy and the Popsonics (DF) e Manacá (RJ) chegaram no festival com cara e jeito de quem realmente iriam surpreender. Tanto potencial não resultou em muita coisa. O que salvou foram os covers e as performances da banda Manacá, mesmo assim a moça de saia tule vermelha matou o samba dos cariocas. Cartola a essas alturas deveria está se contorcendo na cova.
Há quem diga que o Mada é o grande peneirão da música independente brasileira, pois lá estão os olhos, ouvidos e mentes aguçadas e entendidas em rock. Os comentários são os mais variados possíveis. Na seqüência do segundo dia a banda Cabaret (RJ), que já esteve no festival com outra formação, subiu no palco xingando todo mundo, como não poderia deixar de ser, faz parte do jogo cênico das bandas. “Copacabana só quer falar de amor”, dizia a letra de uma das canções da Cabaret. Na tentativa de abrilhantar o show, o vocalista convidou a cantora Letícia, da banda Manacá (aquela que matou o samba) para fazer um duo performático no palco. O resultado não foi dos melhores.
Minha mente estava ardendo com tanta distorção de guitarras quando entrou o grupo Bugs de Natal (RN). Está é de fato a melhor banda potiguar. Boas músicas e um instrumental rock impecável. Fui conferir de perto a apresentação para ter certeza do que estava escutando. A banda é madura e não deixa a desejar a nenhuma grande banda de rock brasileiro.
O Bugs com a formação básica: baixo e voz (Paolo), guitarra (Denilton) e bateria (Augusto) mostrou que sabe o que faz. Recentemente eles lançaram o EP/CD-Demo “Exílio” com seis músicas que estava sendo vendido na feira mix do evento. O show estava sendo gravado por seis câmaras para edição do primeiro DVD da banda.
Muita gente permaneceu na arena de shows do Mada para ver o show da banda Mombojó (PE). Sinceramente eu não sei por que fazem tanto alarde com essa banda. E muita gente foi lá conferir qual recado deles. O vocalista quando percebeu que a coisa estava dando em água se contorceu, berrou e se jogou nos braços do público. “Quanta comoção e exagero”, comentou um jornalista do sudeste.
O melhor do show da sexta-feira foi sem dúvida nenhuma da banda Móveis Coloniais de Acaju (DF). O grupo entrou pontualmente às 1h30 da madrugada. “Tudo lindo. Muito lindo”, vibrava o vocalista da banda. Em cena um bando de músicos loucos por música se divertindo com o trabalho que fazem. A fórmula meio circo-teatro com música autêntica e espontânea agradou em cheio a multidão.
Com guitarras, baixo, bateria e um conjunto de metais para lá de afinado eles interagiram com público e até fizeram arranjo novo para uma música do Ultraje a Rigor. “Somos uma banda independente totalmente depende de vocês”, brincava com a platéia o vocalista. Mesmo quem estava ali apenas para assistir os shows das big band’s nacionais se divertiu e aplaudiu a Móveis Coloniais.
O grupo brasiliense recebe as influências de Karnak e Brasov, só pra citar dois exemplos, ou seja, mistura rock, pop, ska e ritmos de países inóspitos do leste europeu. Soma-se a isso letras pretensamente sem pé nem cabeça que pode muito bem servir para algum filme moderno.
A banda Detonautas Roque Clube que se apresentou pela primeira vez no Mada, em 2001, retornou a arena do evento quase 2h20 da madrugada e detonou um repertório de mensagens de paz e não violência. O vocalista e líder da banda vestido ao estilo Devendras tocou uma música do Legião Urbana, homenageou Cazuza e Rodrigo Neto, ex-integrante da banda assassinado violentamente em um assalto no Rio de Janeiro. O show terminou quase 4h00 da madrugada ao som de Raul Seixas.
A banda paraibana Dalila ao Caos foi a primeira a subir no palco do Mada e mandou bem o seu recado, sem fazer muito alarde, mas, no último dia do evento a noite foi mesmo dos gaúchos. Das onze bandas a se apresentar na noite três delas eram gaúchas “tchê”. A primeira a se apresentar foi a Pública seguida da Superguidis e Cartolas. O sul do país, considerado o berço da cena rock alternativa brasileira, não mandou seus melhores. Todas as bandas gaúchas têm um som pesado e mesmo sendo pequenas apresentam perfil de big band.
O grupo canadense The Russian Futurist, a grande atração internacional do Mada, munidos com teclados e programações não muito criativas não convenceu. A potiguar Belina Mamão que vinha com a promessa de diversão com canções como Pneu Furado, Fulera e Princesa do Papai não convenceu também. A grande atração nacional a banda mineira Shank, que deu coletiva apenas para televisões, entrou fria e saiu gelada do palco do Mada. Pareciam que estavam ali apenas para cumprir tabela, desfilaram algumas canções do seu lado B, cumpriram a pauta e foram embora sem fazer muita diferença.
O Mada é um evento organizado pelo produtor Jomard Jomas. “O homem do Mada”, com chama a imprensa potiguar, ralou um bocado para levar um evento de qualidade para o público e tem conseguido se firmar no cenário musical independente brasileiro. O evento é um dos poucos existentes no país e teve o apoio da Lei Câmara Cascudo e o super patrocínio da operadora de telefones móveis Tim que deu oportunidade a profissionais de imprensa de todo norte-nordeste para cobrir o evento. Valeu Tim!
Adriana Crisanto
Repórter
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte
Fotos: Rodrigo Vidal
Viajei ao Mada a convite da TIM.

Especialistas comentam sobre o rumo do jornalismo cultural


A Fundação Itaú Cultural em parceria com a Summus Editorial lançou está semana um catálogo luxuoso e sistemático em que traz discussões super relevantes à cerca do jornalismo cultural brasileiro. Trata-se de “Rumos (do) Jornalismo Cultural” (232 págs. R$ 98,00) organizado pelo antropólogo e jornalista Felipe Lindoso, em que apresenta reflexões de renomados jornalistas brasileiros e estrangeiros sobre a atividade no Brasil e no exterior.
A obra reúne nomes como Teixeira Coelho (ensaísta, docente da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), Cremilda Medina (pesquisadora e coordenadora de Comunicação Social da USP), Gilmar de Carvalho (jornalista e professor da Universidade Federal do Ceará), Humberto Werneck (jornalista e autor do songbook Chico Buarque letra e música), Israel do Vale (diretor de produção e programação da Rede Minas de Televisão), Maria Hirszman (critica de arte e colaboradora do caderno 2 do Estado de São Paulo) entre outros nomes.
Num primeiro momento os autores dos textos traçam um panorama com os principais debates sobre as relações entre mídia e cultura (formação e contexto, economia da cultura, práticas profissionais, arte e tecnologia). São tentativas de definir e conceituar o jornalismo cultural. Os textos dos autores foram transcritos e editados a partir das falas no Seminário Internacional e Colóquio Rumos.
A segunda parte da publicação “Rumos Jornalismo Cultural: História” os autores registram os principais momentos da primeira edição do programa em 2004 e 2005. São pareceres, discussões virtuais e textos explicativos sobre os rumos do jornalismo cultural. A última parte do catalogo traz leituras, nomes, endereços, agendas que ajudam ao profissional que escreve nas editoriais culturais.
O catálogo é recomendado não apenas a estudantes que almejam um dia escrever sobre cultura, mas a profissionais de comunicação social e produção cultural. A edição foi criada com base em sugestões dos profissionais envolvidos no programa Rumos Itaú Cultural, um dos mais abrangentes programas de estímulo à produção artística e cultural em voga hoje no país.
O jornalismo cultural é hoje uma das profissões mais cobiçadas pelos profissionais e estudantes de jornalismo. Apesar do glamour aparente da profissão a atividade padece de muitos questionamentos. É acusado diariamente de não dialogar com os artistas e suas obras, por viver ainda com maus hábitos, por incutir na cabeça dos leitores uma ideologia velha de 20 e 40 anos atrás que são apresentadas como válidas e atuais.
Os maus hábitos ainda prosseguem. E nada pior em cultura do que hábito cultural. E o jornalismo cultural brasileiro ainda está cheio de hábitos culturais. A cultura, como diz Teixeira Coelho, pode ser feita de hábitos culturais, mas o jornalismo cultural, não.
É possível encontrar ainda alguns maus hábitos sendo repetidos pelos mais novos que tem que se incorporar ao sistema das empresas de comunicação, ditados ainda pelos dinossauros do jornalismo cultural. Um desses maus hábitos é o jornalismo cultural de serviço, orientado para divulgação de Cd’s, livros e Dvd’s ou ainda a divulgação de polêmicas culturais rasas e inúteis em suas colunas. Muitos ainda nem sequer conhecem a carta dos direitos culturais de seus cidadãos. Os direitos culturais são uma herança dos Direitos Humanos da Carta de 1948 e, no entanto, demoraram até 1966 e a rigor até 1976, para começar a serem de fato entendidos como tais, e divulgados.
O fato de conhecer a carta de direitos é lógico que não vai resolver todos os problemas do jornalista de cultura, muito embora permita ao profissional de imprensa cultural entrar em sintonia com o seu tempo e entender que uma das balizas do jornalismo cultural é a garantia da diversidade. Apoiar não apenas aquilo que diz respeito à minha cultura, mas abrir espaço real para a cultura do outro.
Hoje assim como ontem continua a serem eleitos artistas e produtos de arte, por exemplo, como os únicos passíveis de serem noticiados e criticados e não há o acompanhamento democrático da reportagem, das tendências da arte brasileira de todos os artistas, sejam eles consagrados ou não, de todas as manifestações, da periferia ao centro.
Na Paraíba, na maioria dos jornais, esse é um campo de prestígio relativamente baixo. A maioria dos jornais está presa no século XIX. As colunas de opiniões, que são responsáveis por questionar determinada arte e fomentar discussões relevantes, na maioria das vezes não o fazem. Nos jornais existem críticos de artes visuais, críticos de música, de cinema, de literatura que estabelecem as fronteiras das artes. Na maioria das vezes são pessoas de prestígio na sociedade e acadêmicos, que escrevem em colunas com uma linguagem cifrada, gratuitamente, e que não são capazes de adaptar-se rápida e dinamicamente a cultura em transformação.
Essa ainda é a realidade de nossos cadernos culturais. No entanto, vários estudantes dos cursos de jornalismo desejam forma-se jornalistas de cultura, mas, poucos sabem que a formação do jornalista de cultura não depende unicamente da universidade ou simplesmente gostar de assistir filmes. A faculdade e os cursos de especialização são vetores importantes na formação, de modo geral benéfica, mas não são tudo. A abordagem mais crítica do jornalista da área de cultura não é vista nos cursos de especialização, talvez possa se conseguir maior êxito através de uma pós-graduação, que nos permita codificar melhor as formas da arte e aliá-las ao jornalismo.
Muito do que aprendi sobre cultura vem do contato da minha família com a arte que foi aprimorada nos cursos paralelos e de extensão cultural da universidade. Além do contato com atores, artistas, com livros, e muitas idas e vindas a eventos culturais.
É fundamental para o jornalista que escreve sobre cultura que ele tenha o conhecimento das fontes, goste da pesquisa, faça comparação de textos e opiniões, não baseado apenas no “achismo” e que evite a crítica prescritiva. É importante refletir e compartilhar com a comunidade, pois a prática do jornalismo cultural, como em qualquer outra área da comunicação está ligada ao exercício da cidadania.



Adriana Crisanto


Serviço:
Rumos do Jornalismo Cultural
Organizador Felipe Lindoso
Summuns Editorial e Rumos Itaú Cultural
Preço: R$ 98,00
Páginas 232.
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte, em abril de 2007.

Biografia de uma mãe menina

Frente da Casa de Mãe Menininha do Gantoá. Foto: Divulgação

A profunda relação entre a personalidade de Mãe Menininha e segmentos do mais alto significado no processo cultural brasileiro pode ser encontrado no livro “Mãe Menininha do Gantois uma biografia” (Editoras Corrupio e Ediouro, Salvador. 320 págs. 2006. R$ 59,90) que acaba de ser lançado pela paraibana Cida Nóbrega e a baiana Regina Echeverria.
Escolástica Maria da Conceição Nazaré (Menininha do Gantois) recebeu este apelido na infância por ser franzina. Nasceu em Salvador em 10 de fevereiro de 1894 e faleceu no dia 13 de agosto de 1986, de causas naturais aos 92 anos de idade.
Ela foi a mais famosa de todas as Iyalorixás brasileiras e viveu num dos mais conhecidos terreiros de candomblé de Salvador, o Gantois. Mãe Menininha vem de uma longa linhagem de Iyalorixás, que são as chefas dos terreiros. O Gantois foi fundado em 1849, por sua bisavó Maria Júlia da Conceição Nazaré, no bairro da consolação em Salvador.
Nesta obra as autoras revelam não apenas os fatos históricos da trajetória de Mãe Menininha, mas trazem vários depoimentos que ajudam a desvendar a personalidade e os dons da mãe-de-santo mais popular do Brasil. A obra tanto encanta pesquisadores como é uma leitura que fascina e esclarece tanto os leigos, com preceitos na religião do candomblé, como para os iniciados.
O livro traz uma série de fotografias com personalidades do cenário cultural da Bahia, a exemplo de Maria Bethânia, Antônio Carlos Magalhães, Jorge Amado e outros tantos registros de época. “Foi uma tarefa gratificante registrar a vida dela, mas também contar a história do terreiro do Gantois e sua trajetória na preservação do culto aos orixás, na religião dos descendentes de negos africanos escravizados”, disse Cida Nóbrega uma das autoras da obra.
De acordo com Cida Nóbrega foram cinco anos de pesquisas e teve início com a gravação de mais de sessenta depoimentos de pessoas que ajudaram a reconstruir a vida de Menininha. Um segundo momento importante foi edição feita por Regina que se integrou ao projeto do livro para finalizar a obra.
“Mãe Menininha do Gantois uma biografia” é um grande esforço coletivo de pesquisa que resultou nesta grande reportagem que contribui, sem sombra de dúvida, para salvaguardar a memória cultural do povo baiano e construir a história do negro no Brasil. O terreiro, de acordo com Cida, tem várias histórias. Mudou-se por diversas vezes até se instalar na Federação.
Existe uma versão contada, segundo Cida, pelos mais tradicionais em que fala que a real motivação da saída de Maria Júlia da Conceição Nazareth (que comandava o terreiro no início do século XX) do bairro da Barroquinha teria sido a pressão causada pela idéias desenvolvimentistas do então presidente da província, Francisco Gonçalves Martins. Ele planejava realizar obras de urbanização no antigo centro (Barroquinha com Rua da Vala, atual JJ. Seabra, a popular Baixa dos Sapateiros). Esse fato fez com que houvesse uma pressão enorme para o afastamento da população negra naquela área da cidade de Salvador, uma vez que o governo pensava em mostrar aos estrangeiros uma cidade civilizada, ou seja, branca. Isso, diz Cida, fez com que cada vez mais houvesse uma perseguição policial aos cultos de candomblé.
O terreiro do Gantois, talvez seja o único no Brasil que preserva em sua direção uma descendente direta das africanas fundadoras do primeiro candomblé de origem yoruba, o Ile Axé Aira Entile. O terreiro do Gantois foi fundado em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazareth, avó de Mãe Meninha. Quando de seu falecimento, foi sucedida, em 1918, por Pulchéria, tia de Mãe Menininha, que faleceu em 1818, deixando o posto para a sobrinha Mãe Meninha, que após seu falecimento foi sucedida por Mãe Cleusa de Nanã, sua filha mais velha. Com seu falecimento, hoje o Gantois é presidido pela filha mais jovem de Mãe Menininha, Mãe Carmem de Oxalá.
O terreiro do Gantois desfruta atualmente o privilégio da hereditariedade que o torna particular dos demais. Os baianos contam que que Mãe Menininha, apesar de batizada pelo nome de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, não professava sua religião com sincretismo.
Existem, inclusive, polêmicas a respeito do Gantois ser tão famoso por ser sincrético, no entanto, observa-se que eles acreditam e respeitam que Deus é um só, não importa em que idioma é falado o nome do criador. O Gantois herdou esse nome de um francês que doou o terreno onde foi erguido o terreiro.
Mãe Menininha era um exemplo a ser seguido de mulher afro-descendente, pois era uma pessoa muito à frente do seu tempo. A humildade, a doçura e o pulso firme, quando necessário, fez dela uma grande personalidade, nada abalando sua fé nessa religião e cultura de resistência, até hoje perseguida por uns e não compreendida por outros. “De candomblé eu entendo tudo e ao mesmo tempo não entendo nada”, dizia Mãe Menininha.
Admirada pela sabedoria, gentileza, conhecimentos, humildade e pulso firme, Mãe Menininha do Gantois foi a grande responsável pela difusão e popularização do candomblé na Bahia, tendo sido amiga e conselheira espiritual de várias personalidades ilustres, a exemplo de Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Zélia Gatai, Pierre Verger, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Caribe e Nina Rodrigues.
Jorge Amado, um dos seus grandes admiradores, dizia que ela era uma filha de escravos que se fez rainha, e que havia orientado o povo baiano com exemplar dedicação e perene bondade. Caymmi, por sua vez, no verso de sua canção Mãe Menininha, ressaltava que a mão da doçura estava no Gantois. E, Vinicius, enalteceria em prosa e verso a famosa mãe-de-santo que usava saias de renda e óculos de lentes grossas.

Sobre as autoras

Cida Nóbrega é psicóloga de formação e há cerca de 30 anos trabalha com edição de livros, traduções e artes gráficas. Foi a tradutora de Pierre Verger e uma das colaboradoras da fundação que leva o mesmo nome do sociólogo. É autora dos livros: Caminhos da Índia (1990), Maria Bibiana do Espírito Santos, Mãe Senhora do Axé Opói Afonjá (2000) e Pierre Verger, um retrato em preto e branco (2003).
Regina Echeverria é jornalista desde 1972. Trabalhou nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal A Tarde, Folha de São Paulo e nas revistas Veja, Isto É, Placar, A Revista. É também autora dos livros: Furacão Elis (1985), Só as mães são felizes (1997), Cazuza, Preciso dizer que te amo (2001), Pierre Verger (2003), Gonzaguinha e Gonzagão – uma história brasileira (2006).
Adriana Crisanto
Repórter


Serviço: Mãe Menininha – uma biografia
Editora Corrupio e Ediouro
Autoras: Cida Nóbrega e Regina Echeverria
320 páginas
R$ 59,90.
*Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em abril de 2007.
Foto dir. p/esq.: Cida Nóbrega, Regina e a cantora Gal Costa.