Aumenta que isso aí é “Roquenrrouuuuu”

Polícia manda parar show da
banda Zeferina Bomba no Galpão 14


Ao mesmo em que o cantor e compositor santista Luiz Melodia cantava lindamente suas canções na Praça Antenor Navarro, no centro histórico de João Pessoa, dentro do projeto Estação Nordeste, um incidente lamentável ocorria bem perto dali no Galpão 14, durante o show da banda paraibana Zefirina Bomba. O fato aconteceu na sexta-feira da semana passada, dia 18 de janeiro. O local, um dos poucos espaços para shows de música alternativa na cidade, foi invadido por policiais que abusando de sua autoridade e munidos de várias algemas obrigaram aos donos da casa e aos músicos pararem com o show.

O fato revoltou a platéia, na sua maioria adolescentes, que assistiam ao show da banda, que hoje é reconhecida pela imprensa do sul e sudeste do país. Circula na internet um vídeo no website Youtube disponibilizado por um jovem que assistia e gravava do celular o incidente. Os policiais foram vaiados, mas a situação foi contornada pelo vocalista da banda Ilson Barros que prontamente tratou de acalmar os ânimos da galera e desligou os equipamentos.

A situação revoltou a todos entendidos e não entendidos no assunto rock que se questionavam sobre o fato de que fora dali, a poucos metros e fazendo um barulho bem maior o cantor Luiz Melodia se apresentava com potência de som superior ao som do grupo. A denúncia, de acordo com algumas pessoas, teria vindo de um morador do local que sempre chama a polícia para encerra as apresentações.

O que não dá para entender é porque incidentes como estes acontecem com maior freqüência com a turma do rock, uma vez que o Forrock (casa de show localizada na Br 230), que de rock não tem nada, apela para shows de forrós de plástico e bandas do Pará, e fazem barulho tanto do lado de fora como dentro. Queria entender por que a polícia também não vai lá mandar parar a música e tirar os músicos do palco.

Desde que o mundo é mundo e que o rock é rock que fatos como este acontecem no cenário musical e não são diferentes. A irreverência e atitude dos mais jovens incomodam e há aqueles que não conseguem entender sobre a diversidade da música e apelam para posições ortodoxas faltando inclusive com respeito aos outros.

O Rock'n'Roll nasceu da mistura de três gêneros musicais distintos da música americana: blues, country e jazz. Com o passar dos anos ele mudou, foi acompanhando os mais jovens. Hoje são mais de 50 estilos diferentes e ainda é o mercado em que mais se produz Cd´s e DVD´s. O estilo é tão importante que até ganhou um dia internacional (dia 13 de julho).

Zefirina Bomba

Lamentável que fatos como este aconteçam exatamente com uma banda que está imprimindo o nome do nosso Estado brilhantemente no sul e sudeste do país. Os integrantes estão de férias em João Pessoa e avisam que outros shows estão sendo programados. Nesta sexta-feira, dia 25 de janeiro, a banda se apresenta no Sebo Cultural, às 18h00, com outros grupos locais: Rotten Flies, Letal (Sapé/PB) e João e os bons jovens (Natal/RN). No sábado a apresentação será na praça do Cajú, no bairro do Bessa.

No ano passado a Zeferina Bomba lançou o CD “Noisecoregroovecocoenvenenado”, escrito assim tudo junto, pelo selo-gravadora Trama Virtual, seu primeiro trabalho autoral. A banda, que fixou residência na capital paulista, traz neste disco um trabalho bem diferente do que vinha produzindo na garagem de casa.

Gravado no melhor estilo nordestino de se fazer rock, os produtores e a divulgação reclamaram, que a mídia local nem deu tanto destaque assim ao trabalho da banda como a imprensa do sudeste. A Folha de São Paulo, diz a produção, deu metade de uma página ao grupo da Paraíba.

Todas as quinze letras são de autoria do fundador da banda, o guitarrista, Ilsom Barros, um pernambucano, que se sente mais paraibano do que qualquer nativo. A banda amadureceu bastante e deixou de lado o estilo meio “mangue beat de ser” do início para investir num som mais pesado e ligeiro, muito embora ainda apresente numa e outra música um timbre sutil e amaneirado de ritmos nordestinos.

Munido de um violão eletrificado com cordas de aço e as vezes cordas normais de um violão antigo e surrado Ilsom Barros tira solos pesados com toda distorção necessária para o estilo de som que tentam imprimir. As letras das músicas não parecem tolas, mas estão carregadas de uma poética de cordel, como na canção “Oportunidade” em que diz: “Seu doutor me dê uma chance. Pra eu mostrar minha força. Ajuda a vingar meu sustento. E se eu tiver uma oportunidade eu lhe provo que to disposto. Me ajuda a vencer meu sustento. E mostrar que eu sei”.

A atitude irreverente do rock e toda sua indignação vem estampada na décima faixa “Vá se Foder”. A música tem poucos minutos. Você não entende muita coisa, mas como diz o próprio guitarrista, no encarte do disco: “Mas quem se importa?”. É nesse fazer de coisas que o trabalho segue irreverente e tem chamado a atenção dos ouvidos mais aguçados e exigentes do sul e sudeste do país.

“Power-trio”, “banda pós-punk” são alguns dos adjetivos que estão qualificando o grupo paraibano. Quanto surgiu, fazia parte ainda da banda o baixista Edy Gonzaga (ex-Flávio C). Hoje o grupo é formado por dois nordestinos Ilsom Barros (violão eletrificado) e Guga (bateria), e um paulista Martim (baixo) que se encantou com o trabalho do grupo desde que os viu tocar pela primeira numa noite em São Paulo. Neste trabalho ninguém é melhor que ninguém. O baixo distorcido aparece forte e com destaque na faixa 14 (HC) e a bateria exibe todo o seu peso sincopado em músicas como “A-M-N”.

O nome da banda foi dado por Ilsom quando conheceu, na infância, uma velha lavadeira que trabalhava na casa de seus pais em João Pessoa e que ganhou o apelido de Bomba por causa do barulho que fazia ao bater com a roupa molhada na pedra à beira do rio. Ilsom integrou a banda Pau de Dá em Doido (pop-rock com forte acento regional). Depois que a banda acabou resolveu buscar novos parceiros e rever seus objetivos musicais. Guga foi um dos caras que topou juntar bateria e baixo a uma certa viola-guitarra inventada pelo próprio Ilson para formar o Zefirina Bomba, cuja relação com a velha lavadeira não está somente no nome, mas também no som que os três músicos perseguem: um rock direto, de impacto, feito com vigor, como a pancada da roupa molhada na pedra.

Para quem gosta de som pesado eis a dica: o disco “Noisecoregroovecocoenvenenado”da Zefirina Bomba. É peso do início ao fim. Os ouvidos descansam um pouco apenas na 15a faixa, “Enquanto Otacílio Batista Explicava”, em que rendem uma homenagem ao repentista pernambucano Otacílio Batista. O repentista, que estava radicado em João Pessoa há vários anos, faleceu em 5 de agosto de 2003. Foi autor de livros como: Poemas que o Povo Pede; Rir Até Cair de Costas; Poema e Canções; e Antologia Ilustrada dos Cantadores, este último com F. Linhares. Versos de Otacílio foram musicados pelo compositor Zé Ramalho, dando origem à canção “Mulher Nova Bonita e Carinhosa”, gravada inicialmente pela cantora Amelinha e depois pelo próprio Zé Ramalho. A canção foi tema de uma filme brasileiro sobre Lampião, o Rei do Cangaço.

Em João Pessoa, o disco está sendo vendido na loja de discos “Música Urbana”, localizada no centro da cidade. Agora quem quiser escutar uma prova do trabalho da Zeferina pode acessar o site da Trama Virtual, através do endereço eletrônico: http://www.tramavirtual.com.br/zeferina. Lá o internauta vai encontrar também galeria de fotos, o premix do disco e algumas canções do primeiro CD-demo.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação