Homenagem à mulher


Elizabeth Teixeira
Vida e luta pelos direitos do homem do campo


No último sábado (8) comemorou-se o Dia Internacional da Mulher, dia que poderia ser todos os dias, pois ser mulher neste país, apesar dos avanços, ainda não é uma coisa muito fácil. Estatísticas sobre o comportamento, a saúde, o poder, o mercado de trabalho, a violência e tantas outras foram recorrentes na mídia brasileira nos últimos dias. Belas ou feias a imagem da mul
her foi publicizada de várias maneiras, com o intuito de reconhecê-la enquanto ser humano, coisa que Eva tratou de estragar nos últimos milênios. E já que é para homenagear trago uma história que uma mulher que não viveu no paraíso como Eva, nem teve grana para fazer lipoaspiração, colocar silicone e botox na boca, nem muito menos exerce um cargo de renomada importância intelectual ou jurídica. Essa mulher chama-se Elizabeth Teixeira, uma camponesa que lutou em defesa não apenas da mulher, mas o ser humano que busca incessantemente por justiça e dignidade. Leia a matéria:

Saí da redação do jornal de onze horas da manhã em João Pessoa com a incumbência de entrevistar uma mulher que hoje é símbolo nacional da luta pelo direito a vida da terra, a líder camponesa Elizabeth Altina Teixeira. O sol a pino de um verão que parece que nem tão cedo vai terminar sigo para Rua Genésio Gambarra, 160, em Cruz das Armas. A casa, antepenúltima da rua, uma senhora de 83 anos, completados em fevereiro deste ano, me atende com um largo sorriso no rosto e dá mais luz ao meu dia.

A casa é boa, pequena, mas aconchegante e extremamente agradável. Ao atravessar o portão uma cachorrinha saltitante duas redes armadas e mesinha com algumas cadeiras prontamente nos espera no terraço coberto da casa. Elizabeth Teixeira (1925) deu continuidade à luta do marido João Pedro, quando este foi assassinado por latifundiários, em 1962. Dona de casa, mãe de onze filhos, ela assumiu a presidência da Liga Camponesa da Paraíba, primeiro órgão de defesa dos agricultores no Estado, fundado por João Pedro em 1958.

Elizabeth Teixeira passou a percorrer a região, explicando aos camponeses seus direitos, enfrentando fazendeiros, denunciando as violências no campo. Organizou reuniões e coordenou atos públicos na cidade. Perseguida pela ditadura, viveu dezesseis anos na clandestinidade. Sua vida de resistência e coragem está perpetuada no filme Cabra Marcado para Morrer, de autoria do cineasta Eduardo Coutinho.

A camponesa esbanja uma lucidez de dar inveja a muitas pessoas. Ela nasceu na Fazenda Antas, município de Sapé. Filha mais velha de nove irmãos, sendo o pai, um médio proprietário, dono de mercearia e negociante de algodão. A mãe, descendente de uma família de latifundiários.

Antes de conhecer o marido João Pedro ela trabalhava nos serviços de casa e ajudava o pai na mercearia. Foi alfabetizada, mas teve que sair da escola no 2º ano primário, por proibição de seu pai. Desfrutava de uma vida relativamente confortável até o momento em que conheceu João Pedro Teixeira, trabalhador de uma pedreira próxima, negro e pobre, com quem fugiu para se casar, uma vez que seu pai se opunha ao relacionamento devido à condição social.

Fugida casou em Cruz do Espírito Santo e foi morar com o marido na fazenda Massangana, na Paraíba, onde o tio de João Pedro era gerente. Sem emprego mudou-se com João Pedro para Açú (PE) em 1945, quando começou a trabalhar numa pedreira e alfabetizá-lo. “Alugamos uma casa em Recife e João Pedro trabalhava na pedreira”, explicou. Neste período começa o contato dele com o movimento operário e funda o sindicato de sua categoria, o que lhe valeu perseguição dos patrões, não lhe dando emprego. É quando a família retorna a Sapé em 1954, para uma propriedade do pai de Elizabeth, e começam a viver do roçado e do trabalho de João Pedro. Nessa época, conta Elizabeth, as condições dos camponeses da região Nordeste se agravavam, levando-os à organização das Ligas Camponesas para lutarem contra a exploração dos latifundiários e pela melhoria das condições de vida no campo.

Como se não bastassem os conflitos com o pai de Elizabeth, devido à sua participação e do marido nas Ligas, o clima no campo começou a ficar mais pesado. “João Pedro foi assassinado em 2 de abril de 1962, a mando dos latifundiários da região. Dois policiais fizeram uma emboscada na estrada que liga café do vento. Ele tinha vindo a João Pessoa resolver alguns problemas. Quando fui ver o corpo dele peguei em sua mão de disse: João Pedro nunca tive uma resposta para te dar, mas vou assumir o seu lugar”, relembrou.

João Pedro Teixeira foi assinado por dois policiais, um cabo e um soldado da polícia, e o vaqueiro Aguinaldo Veloso Borges. O cabo da polícia chamava-se Francisco Pedro, apelido de Chiquinho, o soldado, Antonio Alexandre. “Uma senhora que morava perto do local disse que depois de ter levado os três tiros, João Pedro dizia, levantando a mão e ainda em pé: “Tentaram, tentaram até que tiraram a minha vida”. Sei que não reencontro mais a minha mulher e meus filhos, deu alguns gemidos e já estava no chão”. O primeiro que o encontrou foi o companheiro Antonio José Dantas, que estava na estrada com o prefeito de Santa Rita.

O crime repercutiu dentro e fora do país. Elizabeth, mesmo sem saber muita coisa, assumiu a direção da Liga de Sapé. Logo após seu segundo filho, Abraão Teixeira, é assinado com uma bala na cabeça. Tempos depois sua filha mais velha Marluce Teixeira suicida-se. “Ela tinha muito medo que eu morresse também, pois eu estava protestando contra a retirada de uma família de camponeses da terra”, contou.

Em 1964, o regime militar instaurado no país reprimiu violentamente e desestruturou o movimento. Pouco tempo depois é presa pelo exército brasileiro e passa cerca de 16 anos confinada nas dependências do Grupamento de Engenharia em João Pessoa. Depois que foi libertada buscou exílio na cidade de São Rafael, no Rio Grande do Norte, onde permaneceu com outra identidade (Marta Maria da Costa) até 1981, levando apenas um de seus filhos."Eu fugi com o meu filho, e os outros ficaram espalhados, com parentes. Eu vivia lavando roupa de ganho, no rio”, disse Elizabeth que nessa época pegou uma infecção, ficou muito doente, e foi hospitalizada. “O médico disse que eu tinha que parar de lavar roupa, e a situação ficou mais difícil ainda. Cheguei a passar fome. Um dia, eu estava sentada na calçada, chorando, então um motorista que viu a minha situação foi na venda e comprou uma feira com muita coisa, inclusive quatro latas de leite, e me entregou, num gesto de grande solidariedade”, disse.

Em São Rafael percebeu que as crianças viviam pelas ruas, sem, sem ensino nenhum. “Aí falei com as mães e propus ensinar às crianças em troca de algum dinheiro. Elas se reuniram, cada uma cedeu uma cadeira, outra emprestou a sala da sua casa, que foi transformada em sala de aula e passei a ensinar às crianças a ler, contar e escrever”, contou.

Após um longo processo de procura, em 1981, o cineasta Eduardo Coutinho, a encontrou. Abandonou a vida clandestina que levava e revelou seu verdadeiro nome e sua história às vizinhas e amigas do município de São Rafael. Depois que foi encontrada sua primeira iniciativa foi, com o apoio do cineasta, reencontrar os demais filhos, que moravam na Paraíba, no Recife, no Rio de Janeiro e em Cuba.

O Filme

O Eduardo Coutinho (foto ao lado) foi ao Nordeste fazer umas filmagens sobre o povo do interior, com os estudantes da UNE, e mudou o projeto de seu filme quando soube do assassinato de João Pedro. Eles todos foram ao ato público que realizamos depois do assassinato, e aí ficaram revoltados. “Eduardo me procurou e disse que deveria fazer um filme, que só foi rodado em 1964. Filmamos no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco", relatou Elizabeth. As filmagens, de acordo com Elizabeth, na Galiléia, foram interrompidas pelo golpe de 1°de abril de 1964, sendo retomadas apenas dezessete anos depois.

O filme acabou sendo focado na vida de Elizabeth Teixeira para contar o assassinato de João Pedro. “Cabra marcado para morrer” (120 min) é de 1984 e tem no elenco Elizabeth Teixeira e família, João Virgínio da Silva e os habitantes de Galiléia (Pernambuco). Narração de Ferreira Gullar, Tite Lemos e Eduardo Coutinho.

Em uma das muitas cenas do filme Elizabeth diz: "(...) a luta que não pára. A mesma necessidade de 64 está plantada, ela não fugiu um milímetro, a mesma necessidade do operário, do homem do campo, a luta que não pode parar. Enquanto existir fome e salário de miséria o povo tem que lutar. Quem é que não luta? É preciso mudar o regime, enquanto tiver este regime, esta democracia, (...) democracia sem liberdade? Democracia com salário de miséria e de fome? Democracia com o filho do operário sem direito de estudar, sem ter condição de estudar?"

Hoje

Atualmente Elizabeth Teixeira reside em João Pessoa, com uma das filhas e duas de suas 23 netas e netos. Aos 83 anos, a dirigente camponesa permanece atenta à luta dos trabalhadores, mas pouco participa dos atos públicos em si. “Não sei como está hoje o sindicato rural, pois hoje não é mais Liga Camponesa, mas sindicato. Não sei como está. Minha velhice não deixa mais acompanhar o movimento”, lamentou.

Hoje ela é convidada para dar seu depoimento em congressos e conferências pelo país. "No dia 10 de maio, estive num acampamento de camponeses, no município de Itabaiana, chamado Acampamento Elizabeth Teixeira. Foi uma honra saber que os companheiros que lutam lembram de mim, viúva de João Pedro Teixeira. E é triste saber que depois de sua morte, a miséria, a fome, as injustiças e os crimes do latifúndio continuam acontecendo do mesmo jeitinho”, disse.

Em 1963, Elizabeth esteve em Cuba, acompanhada dos companheiros camponeses. Passamos 24 dias percorrendo todo aquele país. “Fui muito bem recebida por Fidel Castro. Ele me apresentou uma casa, dizendo que se eu quisesse voltar com meus filhos, teria toda a assistência. Mas, eu disse para Fidel que tinha um compromisso com a luta do Brasil, não só pelo assassinato do meu marido, mas de muitos outros companheiros, amigos que tombaram na luta. Quando veio o golpe, naquele momento difícil, eu pensava, às vezes, no convite de Fidel”, relatou.

Apesar das muitas marcas que vida lhe deixou impressas em seu rosto ela é perseverante na sua fala. É dotada de um espírito resistente à dor, e ainda se mantém doce e solidária. Por trás daquele corpo franzino estão escondidos os vultos de muitas lembranças difíceis de apagar. Ao contar e recontar sua vida a qualquer pessoa, informada ou desinformada, que chegue até ela sempre se emociona. Mas, procura, em meio ao baú de lembranças, motivar a nova geração para a continuidade de ação em prol da justiça social.

O trabalho de Elizabeth influenciou outros trabalhos, uma dessas influências é o Movimento das Mulheres do Brejo Paraibano, surgido na mesma área geográfica das Ligas. Há trabalhos que demonstram a persistência da memória das Ligas na região. Elizabeth tem sido referência simbólica de muitos movimentos sociais no país. Além do filme Cabra Marcado Para Morrer que deu enorme visibilidade a sua vida ela já foi homenageada pelo grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro, com a medalha Chico Mendes; Câmara Municipal de São Paulo, Igrejas Evangélicas da Suíça (1989); Assembléia Legislativa da Paraíba e outros reconhecimentos.

Elizabeth Teixeira é uma dessas mulheres em que a dor não mais a abate, onde o fatalismo não tem vez, a fama muito pouco a seduziu, mas apenas uma coisa a direcionou: a justiça e dignidade para o ser humano.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
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Fotos: Divulgação e arquivo