Poesia abençoada

Nesta semana santa a dica cultural são dois livros do padre paraibano José Antônio Barbosa da Silva que recebi, há aproximadamente dois meses passados, quando o pároco, recém-chegado de suas missões na Espanha, Filipinas, Argentina, Uruguai e Paraguai presenteou-me com “Esperenzas del dia” (Editora Mis Escritos, Argentina: 2007, 64p) e “Dolor del Tiempo – vocês y poemas” (Editora D Primeira Mano, Paraguai: 2006, 61p.).

No momento em que recebi pensava comigo como é magistral a arte da palavra escrita em forma de poesia, como essa “coisa” pode extrapolar conceitos e juízo de valores. Nos tempos de hoje cristalizou-se a imagem de que a relação entre religião e poesia está em conflito, de que as duas formas de entender e sentir a realidade não são conciliáveis ou não se comunica (o que é totalmente equivocado).

Não é de hoje que os padres escrevem poesias. Só para lembrar Padre José de Anchieta escreveu em versos medievais o poema “De Beata Virgine Dei Matre Maria”, mais conhecido como “Poema à Virgem”, com 4.172 versos. Os autos misturavam características religiosas e indígenas, a primeira gramática do tupi-guarani (A Cartilha dos nativos).

A poesia do Padre José Barbosa é mais contemporânea que a de Anchieta, sem sombra de dúvida, pois como bem diz a prefaciadora de “Esperenzas del dia”, a poetisa Marta de Paris: “Toda obra criada deve identificar-se com o seu criador. Cada artista em sua época e sua arte”.

A surpresa se dá a cada poema lido. Sem nenhum alarde os versos são diálogos íntimos e livres do homem moderno que observa o cotidiano das pessoas no meio da rua, as vítimas e os assassinos de almas. Como também mostra suas angústias, dores, o seu cotidiano. “Não havia versos nas almas homicidas”, diz ele no poema “Incêndio em Setiembre”. E não havia mesmo padre José, não havia até quem os chegasse e olhasse de fora com tamanha expressão.

Aos poetas populares nordestinos ele dedica “Piedra de Molino” (p.44) em que comparar o homem do nordeste como pedra de um molino que segue sempre firme aos seus propósitos. Nas reentrâncias do poema a viagem estética de suas recordações de infância e a lembrança de seus heróis. Como ele bem diz: “Uso a filosofia para falar de uma rosa”.

Da página 50 em diante ele escreve pequenos poemas de três ou duas linhas, poemas curtos, parecidos com o haikai, uma pequena poesia com métrica e molde orientais. “Há dias que são tão escuros que se fazem noites”, diz um dos poemas.

E assim ele segue em todo livro construindo pontes entre o homem religioso e a poesia, e tenta mostrar que esse diálogo é possível, que pode inclusive ampliar o conhecimento do mundo seja de cientistas, poetas, seja dos intelectuais da tradição religiosa.

Já o segundo livro de sua autoria “Dolor del Tiempo – Voces y poemas” o tempo é o tema mais recorrente nos poemas. O tempo da agonia, o perdão do tempo, o tempo em qualquer lugar, o tempo de nascer e de morrer, de buscar tempo, de perder tempo, o tempo da guerra e da paz. Tudo tem seu tempo até para sentir a dor do tempo que parece nunca passar. Uma pessoa que sentiu de perto as poderosas armadilhas do tempo e lutou até quase ao desespero foi Santo Agostinho. Nos capítulos, senão me engano 14-28, do Livro XI das Confissões, ele se ocupa com o problema do tempo.

O pensamento geral de Agostinho e, conseqüentemente, seu pensamento sobre o tempo tem como base fundamental sua teoria da verdade, que consiste primariamente em entender a verdade como “aquilo que é”, lógica peculiar de sua época. É fazendo uso desta lógica e aplicando sua idéia da verdade na sua teoria do tempo que Agostinho chegou as suas conclusões sobre o passado e o futuro.

E é nessa seqüência entre o tempo futuro e o passado que os poemas de “Dolor del Tiempo – Voces y poemas” prossegue, como nos versos “Incandescência”, em que o poeta relembra os 60 anos da destruição de Hiroshima. É o tempo passado que deixaram marcas profundas nos muros da memória.

Na obra, em que até o silêncio se comunica, imprime muita simplicidade. A mística do livro seja ela de natureza religiosa ou humanística caminha como se enxergassem o invisível por detrás dos acontecimentos da vida. O único detalhe é que os dois livros são escritos em espanhol, o que por outro lado não dificulta em nada o entendimento, muito pelo contrário, talvez se vertida para o português não ganhasse tanta tenacidade.

Sobre o autor

José Barbosa da Silva é paraibano. Realizou seus estudos de Filosofia e Teologia aqui na Paraíba e deu continuidade a eles em Manila (Filipinas). Em “Isla de Samar”, centro do arquipélago foi diretor da Casa de Formação de sua Congregação Religiosa. Morou na Argentina entre os anos de 2001 a 2005, onde prestou serviço na Casa Sagrado Coração da Diocese de Laferrere, e acompanhou os alunos do Centro San José e aspirantes a vida religiosa.

É pós-graduado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Católica da Argentina. Em 2006, foi transferido para o Paraguai, sendo nomeado pároco da Paróquia Nossa Senhora de Caacupé da cidade del este. Ele é membro do Instituto Literário e Cultural Hispânico, com sede em Westminster, Califórnia e do Movimento Poetas do Mundo.

Nosso padre poeta é autor dos livros: “Dolor del Tiempo e Esperanzas del dia”. Atualmente José Barbosa da Silva está em João Pessoa (PB) como novo pároco da Paróquia São Rafael no Castelo Branco.

Serviço:
Esperenzas del dia
Editora Mis Escritos
Argentina
Ano: 2007, 64p

Dolor del Tiempo – voces y poemas

Editora D Primeira Mano
Paraguai
Ano: 2006, 61p.

Contatos com autor: jobarbosa33@yahoo.com ou jbarbosa33@yahoo.com
http://vocesinpoemas.blogspot.com


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
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