Um Titã quase sinfônico


O músico e poeta Arnaldo Antunes (ex-integrante do grupo pop rock Titãs) foi a grande atração da abertura da XII edição do Festival Nacional de Arte (Fenart). O show aconteceu na última sexta-feira (18), na Praça do Povo do Espaço Cultural José Lins do Rego, localizado no bairro de Tambauzinho, em João Pessoa. Antunes subiu no palco logo após a apresentação bailarino Arthur Marques que dançou ao som do bolero de Ravel conduzido pela Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB).

O repertório, sem dúvida, foi muito bem selecionado. Arnaldo Antunes brindou o público, estimado pelos organizadores em cinco mil pessoas, com as canções: “Não vou me adaptar”, “O quê” e “O Pulso”, intercaladas com canções como “Saiba”, “Pedido de Casamento” (a bastante aplaudida) e “Socorro”. No entanto, para variar, a acústica não ajudou muito. Quem estava nas laterais do palco e no fundo da praça escutava muito ruim a voz do artista e não teve nenhum arranjo especial da OSPB para as canções pop/rock de Antunes.

A surpresa revelada apenas na hora por ele foi quando recitou o poema do escritor paraibano Augusto dos Anjos, “Ao Luar”, musicado por Borges e cantou uma versão para “Qualquer Coisa”, de Caetano Veloso.

No palco ele ainda deu o ar de sua atitude roqueira levantando a perna até a cabeça, deitou no chão e fez algumas performances quando ainda integrava como vocalista e letrista o grupo de rock Titãs. No encerramento do show Antunes cantou “Exagerado”, numa homenagem ao cinqüentenário do poeta carioca Cazuza, que morreu vitima da Aids em 1990.

Escutar a Sinfônica da Paraíba é sempre muito bom, mas o som e o brilho dos melhores músicos do país só foi sentido, de fato, quando a cantora Maria Juliana subiu no palco e cantou o poema musicado. A OSPB foi regida pelo maestro assistente Carlos Durier que substitui temporariamente o maestro Marcos Arakaki que se encontra no Rio de Janeiro.

Solenidade de abertura

A solenidade oficial aconteceu no Teatro Paulo Pontes, com atraso de quase uma hora. Teve início com a apresentação de um vídeo institucional com os tradicionais artistas locais e um outro nacional comentando sobre a importância do festival.

O governador campinense, Cássio Cunha Lima, não compareceu a abertura do evento, mas foi representado pelo secretário de educação do Estado, o professor Neroaldo Pontes. De acordo com os seus assessores, o governador estava em reunião com empresários fora do Estado.

O presidente da Funesc, Antônio Alcântara, que tinha um discurso de nove páginas para fazer, não o fez, conforme o mesmo falou, devido às inúmeras explicações que teria de dar (tem mesmo, uma delas é o patrocínio da OI). E ainda bem que ele não fez porque a platéia, que já havia ficado esperando quase uma hora em pé na entrada do teatro não agüentaria com toda certeza.

Um dos grandes momentos foram os aplausos ao ator Fernando Teixeira e a atriz Zezita Matos, aplaudida de pé pela platéia que se fazia presente no Teatro Paulo Pontes. Estavam presentes ainda os apoiadores do evento: Ministério da Cultura (representado por Tarciana Portela), Banco do Brasil (representado por Robero Wagner de Mariz Queiroga), CEF (representado por Cristiane Medeiros), Oi/Telemar (representado por Ana Paula Cavalcanti Souza), Gráfica Santa Marta, o Superintendente do Sebrae na Paraíba Júlio Rafael, o gerente comercial da Cerâmica Elizabeth, Banco Real (William Freire) e a Zenitran (Alberto Queiroga). Tiveram também homenagens à professora de dança Estela Paula, Arnaldo Antunes e a funcionária da Funesc, Jucélia Farias, representando os servidores e organizadores do evento. Todos receberam das mãos do presidente da Funesc, Antônio Alcântara, uma placa concebida pelo artista plástico Chico Ferreira.

O Fenart está orçado em R$ 1,2 milhão, mas a organização do evento baixou os custos pela metade, devido às várias parcerias firmadas que deu suporte financeiro ao evento. Em entrevista posterior a imprensa Antônio Alcântara, disse que festival não sofreu cortes orçamentários para destinar recursos os atingidos pelas chuvas, porque tem receita própria.

O Espaço Cultural teve que receber algumas melhorias para poder produzir o evento. Foram retirados alguns vazamentos, consertados as infiltrações e o palco principal foi baixado em 70 centímetros para possibilitar uma melhor visão para a platéia.

Este ano o Fenart não teve decoração, os artistas locais tiveram um cachê inferior aos dos artistas nacionais, como também não tem nenhuma programação dirigida ao público infantil.

Por uma vida menos ordinária

O ator global, Eduardo Moscovis, certamente leva muitos fãs ao teatro. Mas quem assistiu ao espetáculo “Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária”, na abertura oficial do Fenart de ontem não encontrou uma história leve, como nas telenovelas das quais participa o ator. De acordo com os críticos de teatro o ator Eduardo Moscovis tem uma trajetória no teatro que contraria o “status de galã”, pois sempre atua em espetáculos que suscitam reflexões e tocam o espectador de alguma maneira.

O espetáculo terá nova apresentação neste sábado, a partir das 20h00. Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária fala de três jovens, unidos por laços afetivos, que perdem o controle de suas vidas em virtude do uso excessivo de cocaína. A falta de perspectivas impede a busca por um futuro promissor.

O personagem Adriano interpretado por Eduardo Moscovis é músico de uma orquestra, mas não sente prazer no que faz. Natália (Liliana Castro), irmã de Adriano, está desiludida porque acabou de fechar o bar do qual era proprietária. Joelson Medeiros é o policial Marques, conivente com o uso e com o tráfico de drogas.

Numa brincadeira entre Adriano e o amigo policial ocasiona um acidente com a bala perdida. A arma pertencia ao policial, que, abusando de sua autoridade, impede, através de ameaças, que Adriano se entregue. Natália, entretanto, não consegue superar a culpa por sua silenciosa cumplicidade e tenta convencer o irmão a se denunciar.

A autora Daniela Pereira de Carvalho, novo nome da dramaturgia, criou um texto interessante, mas a encenação de Gilberto Gawronski conseguiu aumentar a força gramática da obra. O espetáculo chocou muita gente que foi ao teatro e foi comum vê-las se retirando de mansinho da sala.

O espetáculo tem apenas dois momentos poéticos, quase imperceptíveis pelos menos sensíveis, o restante só mostra a degradação humana e o que se tornaram as pessoas que residem na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de o diretor dizer que faz com que o os atores explorem o espaço físico do palco o que se viu aqui no teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural José Lins do Rego foi muito espaço físico e pouca voz de ator. Quem estava sentado nas últimas filas do teatro não escutava o que os atores, com aquele sotoque carioca de matar, diziam no palco. Deveria se exigir também no teatro que o sotoque dos sulistas fosse correto, como fazem com os nordestinos quando começam a atuar nas televisões globais.

O ritmo da montagem é alucinante e deprimente. Os mais curiosos e resistentes foram até o final para não ficar imune aos acontecimentos. A situação fica incontrolável e o final retrata o destino de inúmeros jovens que não conseguem um rumo digno para as suas vidas.

Cenário, trilha, iluminação e figurinos acentuam o caráter moderno, tenso e impactante do texto. O cenário sugere uma realidade movediça. São baldes espalhados pelo palco formando verdadeiras cachoeiras de cocaína, uma idéia por sinal bem original e moderna. Na verdade tudo é um jogo cênico que se relaciona com o conteúdo da dramaturgia. O tempo inteiro os personagens consomem muita cocaína e aos poucos vão sendo soterrados pelo uso da droga.

"Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária" não é uma peça fácil. É sufocante, deprimente e traz uma realidade que talvez não gostaríamos de presenciar. Representa muito bem a loucura da nossa vida moderna e trata de questões pertinentes, pois o transtorno que a organização em torno do tráfico de drogas provoca nos cidadãos é uma questão presente no nosso cotidiano, cuja esperança fica muitas vezes estagnada.

Um detalhe acontecido nesta apresentação foi quando o ator global, Eduardo Moscovi, meio irritado, no meio do espetáculo, saiu de cena e pediu para que alguém da platéia parasse de fotografar. Coisa de certa forma impossível nos dias atuais de se controlar, devido às centenas de aparelhos celulares com câmeras embutidas disponíveis no mercado.

O Fenart

O Festival Nacional de Arte (Fenart) é um evento organizado pela Fundação Espaço Cultural (Funesc/PB). Ele acontece anualmente, desde 1994, geralmente ocorrida no mês de novembro, no Espaço Cultural José Lins do Rego em João Pessoa, na Paraíba.

O Fenart é um festival concebido para ser aberto ao grande público com apresentações de teatro, dança e curtas-metragens, além de exposições de artes plásticas, fotografias e artesanatos. Diariamente, há um encerramento com apresentações musicais de artistas com apelo cultural.

Nestes doze anos depois de tantas idas e vindas passaram pelo Fenart: Paralamas do Sucesso, Cabruêra, Lobão, Cordel do Fogo Encantado, Tom Zé, Nação Zumbi, Elba Ramalho, Frejat, Alceu Valença, Chico César e Sivuca e tantos outros.

A cada edição do festival, um artista é homenageado. Entre os homenageados já estiveram Raul Córdula, Jackson do Pandeiro, Pedro Américo, Zabé da Loca, José Lins do Rego e Paulo Pontes. Este ano, como o próprio presidente da Fundação disse, o orçamento foi apertado. O evento prossegue até o dia 26 de abril e muita coisa ainda tem que assistida e escutada.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação do Fenart (Guto Zafalan).