Você é feliz?

Constantemente são lançadas pesquisas sobre índices de violência, de insegurança, de morte, de vida. No entanto, pouco se comenta sobre a felicidade. Falar sobre felicidade parece que saiu de moda. O escritor e psicólogo americano Robert Wright, em um artigo para a Revista Americana Time, escreveu que a leis que governam a felicidade não foram desenhadas para nosso bem-estar psicológico, mas para aumentar as chances de sobrevivência dos nossos genes a longo prazo.

Buscar a felicidade tem sido a meta de quase a metade da população do mundo e nos últimos anos cada vez mais pesquisadores tem se debruçado na busca desse combustível que move a humanidade. Encaminhei um email da minha caixa postal para 205 pessoas perguntando o que é felicidade? O que elas fazem para ser feliz? As respostas foram as mais variadas possíveis.

O dicionário eletrônico Aurélio define a felicidade como uma qualidade ou estado de quem é feliz. Significa ter bom êxito, boa fortuna; dita, sorte. Na opinião do administrador de empresas, Carlos Fernando Farias, casado, pai de dois filhos, a felicidade é viver equilibradamente com Deus, a família e os amigos. “Adoro a Deus, dedico-me a minha família e amigos, preservo a minha saúde e a de meus filhos e procuro desenvolver o meu trabalho com criatividade, responsabilidade e profissionalismo”, comentou.

A felicidade força a estudar, trabalhar, ter fé, construir casas, realizar coisas, juntar dinheiro, gastar dinheiro, fazer amigos, brigar, casar, separar, ter filhos e depois protegê-los. Ela nos convence de que cada uma dessas conquistas é a coisa mais importante do mundo e nos dá disposição para lutar por elas. Mas tudo isso é ilusão. A cada vitória surge uma nova necessidade.

“A felicidade é um truque” disse a catadora de papel Guilhermina Silva. Se ela é um truque nos temos levado esse truque muito a sério. Vivemos uma época em que ser feliz é uma obrigação. As pessoas tristes são vistas como indesejadas, como fracassadas completas. A doença do momento é a depressão.

O escritor francês Pascal Brucker, autor do livro “A Euforia Perpétua” (Difel, Rio de Janeiro, 2002, R$ 32,00) diz que a depressão é o mal de uma sociedade que decidiu ser feliz a todo preço. “Muitos de nós estão fazendo força demais para demonstrar felicidade aos outros e sofrendo por dentro por causa disso. Felicidade está virando um peso: uma fonte terrível de ansiedade”, diz ele.

De acordo com o psicólogo Gleidson Marques a felicidade é algo extremamente subjetivo, é algo que varia de pessoa para pessoa e até de posição social e econômica. “A pessoa consegue ser feliz quando ela pára e percebe o que quer deseja para vida dela”, comentou.

O assunto até bem pouco tempo era desprezado pelos cientistas. Mas, na última década, um número cada vez maior deles, alguns influenciados pelas idéias de religiosos e filósofos, tem se esforçado para decifrar os segredos da felicidade. A idéia é finalmente desmascarar esse truque da natureza. Entender o que nos torna mais ou menos felizes e qual é a forma ideal de lidar com a ansiedade que essa busca infinita causa.


Prazer, engajamento e significado

No website da Universidade da Pensilvânia (http://www.upenn.edu), o psicólogo americano Martin Seligman, desenvolve há alguns anos uma pesquisa sobre o assunto e diz que a felicidade é na verdade a soma de três coisas diferentes: prazer, engajamento e significado.

Prazer, de acordo com o Aurélio, é uma sensação ou sentimento agradável, harmonioso, que atende a uma inclinação vital; alegria, contentamento, satisfação, deleite. É uma sensação que costuma tomar conta de nosso corpo quando dançamos uma música boa, ouvimos uma piada engraçada, conversamos com um bom amigo, fazemos sexo ou comemos chocolate.

O escritor e professor universitário Rinaldo Fernandes disse que felicidade é escrever, é encontrar a palavra certa da frase. “Melhor do que escrever só o ato sexual, talvez a mais importante forma de êxtase e prazer que existe”, acrescentou. Um jeito fácil de reconhecer se alguém está tendo prazer é procurar em seu rosto por um sorriso e por olhos brilhantes.

Engajar-se consiste em empenhar-se em uma determinada atividade ou empreendimento. O engajamento é a profundidade de envolvimento entre a pessoa e sua vida. Um sujeito engajado é aquele que está absorvido pelo que faz, que participa ativamente da vida. E, finalmente, significado é a sensação de que nossa vida faz parte de algo maior.

"Buscar a felicidade é uma meta meio vaga, fica difícil até de saber por onde começar. Mas, se você se conscientizar de que basta juntar essas três coisas - prazer, engajamento e significado - para a felicidade vir de brinde, a tarefa torna-se menos penosa”, garante o psicólogo americano Martin Seligman.

Seligman em seus estudos acrescenta ainda que um dos maiores erros das sociedades ocidentais contemporâneas é concentrar a busca da felicidade em apenas um dos três pilares, esquecendo os outros. E geralmente escolhemos justo o mais fraquinho deles: o prazer. "Engajamento e significado são muito mais importantes", disse ele numa entrevista à Time.

Algumas pessoas são capazes de se engajar em tudo: entram de cabeça nos romances, doa-se ao trabalho, dão tudo de si a todo o momento. Isso é raro e nem sempre é bom (inclusive porque gente engajada demais tende a negligenciar outros aspectos da vida, em especial o prazer). Ninguém precisa ir tão longe, mas o esforço de estar atento ao mundo, participando da vida, vale a pena.

Felicidade e o cérebro

Os Estados Unidos é o único lugar do mundo em que existe verba suficiente para fazer e mandar desfazer qualquer tipo de pesquisa sobre o comportamento da humanidade e sua evolução. Há cinco anos, por exemplo, o pesquisador Mihaly Csikszentmihalyi (pronuncie "txicsentmirrái"), da Universidade de Chicago (http://beta.uchicago.edu/), estuda um fenômeno cerebral chamado "fluxo", que ocorre quando o engajamento numa atividade torna-se tão intenso que dá aquela sensação boa de estar completamente absorto, a ponto de esquecer do mundo e perder a noção do tempo, ou seja, é um estado de alegria quase perfeita. Esse fenômeno acontece com monges em estado de meditação, mas também em situações muito mais comuns, como ao tocar um instrumento, andar de bicicleta ou até mesmo ao consertar a estante da casa.

Um outro pesquisador, o americano Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin (http://www.sk.com.br/sk-uwsp.html), observou em laboratório que as pessoas em estado de fluxo ativam uma região do cérebro chamada córtex pré-frontal esquerdo, o que pode ter uma série de efeitos no organismo, inclusive um melhor funcionamento do sistema imunológico. Ao longo de um estudo realizado na Holanda, pessoas que entraram em fluxo tiveram seu risco de morte reduzido em 50%, por reagirem melhor a doenças.

E como se entra no tal fluxo? Csikszentmihalyi afirma que o segredo é buscar atividades nas quais se possa usar todo o seu talento. Tem de ser um desafio não muito fácil a ponto de ser entediante, nem tão difícil que se torne frustrante. Procurar experiências desse tipo é recompensador e traz níveis bem altos de felicidade. Claro que infelizmente nem todo mundo tem a sorte de encontrar desafios assim no trabalho. Nesse caso, um hobby pode ajudar na busca por engajamento e por momentos de fluxo - pode tanto ser uma atividade manual ou intelectual quanto um esporte.

Infelicidade

É quase impossível falar da felicidade sem remete ao seu contrário, ou seja, a infelicidade. De acordo com o Aurélio, a infelicidade é a qualidade ou o estado de infeliz, está ligada também a desgraça, ao infortúnio.

Ser infeliz também é uma opção de vida, como também não se escolhe daqui para frente serei infeliz, até porque ninguém deseja a infelicidade. Assim como a felicidade, a infelicidade não há respostas concretas, mas existem pequenas pistas que leva até ela. O filósofo grego Aristóteles afirmava, há mais de dois mil anos, que a felicidade se atinge pelo exercício da virtude e não da posse.

Hoje encontramos toneladas de livros e revistas de auto-ajuda ensinando ou dando dicas de como ser feliz. São testes e mais testes engajados sobre o assunto. Todos numa tentativa de fazer marketing com a felicidade.

Uma das causas da infelicidade, de acordo com alguns estudos, é a depressão. Em artigo publicado no British Medical Journal, professor Gordon Parker chama a depressão de diagnóstico que "engloba tudo", difundido por estratégias de marketing.

Cerca de um em cada cinco adultos é diagnosticado com depressão em, algum momento da vida. Em países como a Grã-Bretanha, os custos com a perda de produtividade e tratamento da doença é estimado em bilhões de dólares.

“O que acontece é que o ser humano pensa muito negativo sobre o mundo e sobre si mesmo”, avaliou Gleidson Marques que recebe diariamente em seu consultório pessoas com depressão. É a tríade cognitiva, diz ele: se penso negativo, vou atraiu coisas negativas e ter sensações negativas.

Para Marques a maior dificuldade do ser humano é párar e olhar para dentro de si mesmo. A vida está tão corrida que poucos param para saber o que realmente desejam. “A felicidade acaba se tornando clandestina. Porque as pessoas terminam entrando na convenção daquilo que outros nos coloca e não naquilo que realmente quero”, avaliou.

Religião e felicidade

Então quer dizer que para ser feliz basta juntar prazer, engajamento e significado e nossa vida se resolve para sempre? Se a fórmula fosse assim tão simples seria uma maravilha. A felicidade, como não cansam de repetir os poetas e os chatos, é breve. Ainda bem. Felicidade, por definição, é um estado no qual não temos vontade de mudar nada. Ou seja, se passássemos tempo demais assim, nossas vidas estacionariam.

A busca da felicidade é o que nos empurra para a frente. "Felicidade é projetada para evaporar", escreveu Robert Wright. E, segundo ele, há uma razão evolutiva para isso também: "Se a alegria que vem após o sexo não acabasse nunca, então os animais copulariam apenas uma vez na vida". Mora aí um dos grandes problemas atuais. Muita gente acredita que é possível viver uma existência só de altos, sem nenhum ponto baixo, sem tristeza, sem sofrimento. E alguns estão dispostos a conseguir isso sem esforço algum, só à custa de antidepressivos.

Os religiosos, em especial os budistas, afirmam algo parecido há muito tempo. Um de seus preceitos básicos é o de que "a vida é sofrimento". Coisa chata, não é? Talvez, mas ter consciência de que o sofrimento é inevitável pode ajudar a trazer felicidade, e certamente diminui a ansiedade. O conselho do Dalai-Lama é que, quando as coisas estiverem mal, em vez de se entregar à infelicidade ou tentar apenas minimizar os sintomas, você respire fundo e tente descobrir o porquê da situação.

De acordo com ele, grande parte da dor é criada por nós mesmos, pela nossa inabilidade de lidar com a tristeza e pela sensação de que somos obrigados a ser sempre felizes. Ao encarar o sofrimento de frente e identificar as suas causas reais, você estará dando um passo na direção do autoconhecimento, o que vai lhe permitir entender quais seus objetivos na vida, quais seus valores.

Há milênios, a humanidade encontra alento na crença de que cada um de nós faz parte de uma ordem maior. Pesquisas mostram que as pessoas religiosas consideram-se, na média, mais felizes que as não-religiosas. Elas também têm menos depressão, menos ansiedade e suicidam-se menos. A crença de que Deus está nos observando, nas palavras do psicólogo e estudioso da religião, Michael McCullough, da Universidade de Miami, é uma espécie de "equivalente em grande escala do pensamento “se eu não conseguir pagar o aluguel, meu pai vai ajudar”, ou seja, é um conforto, uma garantia de que, no final, as injustiças serão corrigidas e nossos esforços, reconhecidos.

No entanto a religião não é a única forma de dar significado à vida. Um truque eficaz para ficar mais feliz é fazer o bem para os outros, pode ser uma vista a um orfanato, ajudar a uma instituição de caridade, dar um presente útil a alguém. E isso não é conversa mole. Seligman mediu em laboratório os efeitos do altruísmo e percebeu que um único ato de bondade pode melhorar efetivamente os níveis de felicidade de uma pessoa por até dois meses.

Cinco atos de bondade por semana turbinaram sensivelmente o astral das cobaias do tal cientista. Também se alcança significado construindo algo que pode sobreviver a você. O exemplo clássico é criar filhos. Uma outra dica é acreditar que sua vida é importante para alguma grande causa: a história, a ciência, a justiça social, a democracia, a liberdade, o progresso, a natureza, ou seja, é útil crer em algo.

Para terminar, há uma regra da qual especialista nenhum discorda: ter amigos (e nem precisam ser muitos) ajuda a ser feliz. Amigos contam pontos nos três critérios: trazem, ao mesmo tempo, prazer, engajamento e significado para nossas vidas.


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
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