Afro Bossa Nova

Armandinho e Paulo Moura homenageiam os 50 anos da Bossa Nova com projeto Afro Bossa apoiado pelo grupo Votorantim

Apesar da chuva insistente que caiu na cidade na última sexta-feira (16) o público ansioso por música instrumental compareceu ao chamado afro bossa comandado pelo guitarrista Armandinho Macedo e o saxofonista Paulo Moura. Quem esteve na praça do povo do Espaço Cultural José Lins do Rego pode conferir de perto uma verdadeira releitura do gênero musical bossa nova com instrumentos de percussão.

A vinda deles a cidade de João Pessoa foi possível graças ao Projeto Homenagem a Tom Jobim Afro Bossa apoiado pelo Instituto Votorantim. O repertório base foi formado em cima de composições de Tom Jobim, algumas até pouco executadas nas rádios, a exemplo de Surfboard, Radamé e Pelé, Brigas nunca mais (Tom e Vinicius), além das clássicas: Morro não tem vê, Chorando na roseira, Garota de Ipanema, Águas de Março, Insensatez, Luiza, Chega de Saudades e outras. A produção leva a assinatura de Paulo Moura e arranjos inconfundíveis de Armandinho.

Paulo Moura e Armandinho foram acompanhados pelo violonista e guitarrista Gabriel Improta que já acompanhou vários artistas de renome nacional, como Francis Hime, Jorge Mautner, Dona Ivone Lara, Antônio Adolfo e outros. Na linha do meio do palco estavam os percussionistas Giba Conceição, Nei Sacramento. Todos com expressiva carreira percussiva fora do país.

Pode-se dizer que os 50 anos da Bossa Nova foi comemorado em grande estilo em João Pessoa, que por sinal, foi a primeira Capital do projeto que homenageia a bossa nova e Tom Jobim. Depois da Paraíba a caravana afro bossa segue para Recife, Fortaleza, Belém, Palmas, Brasília, Campo Grande, Aracaju, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba e Rio de Janeiro.

Em entrevista Paulo Moura disse que é uma honra começar um projeto de música instrumental por João Pessoa, pois, de acordo com ele, a Paraíba é berço de excelentes instrumentistas. A idéia de homenagear a bossa nova, segundo Armandinho, surgiu a cerca de cinco anos em uma viagem que fez a Los Angeles com Marcos Suzano e Paulo Moura. “Marcos não pode, pois tinha outros compromissos, continuamos nós, eu e Paulo”, explicou.

O projeto teve uma edição experimental, digamos assim, no Festival de Verão em Salvador (BA) deste ano e foi apresentado em um palco aberto, em praça pública. “Percebemos que dava certo fazer em um local aberto e saímos em busca de apoio para nossa idéia”, disse Armandinho.

Armandinho contou que foram realizadas várias pesquisas musicais em cima do repertório e feitas experiências. “Não estávamos buscando um momento dançante, mas fazendo experiências musicais”, contou em entrevista exclusiva.

Quem são eles?

Paulo Moura nasceu em 15 de julho de 1932, na cidade de São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo. Em 1941, aos nove anos de idade, precocemente, pede ao pai para estudar música, encantado pelas fotos de seus irmãos nos programas dos shows dos Cassinos do Rio, regularmente enviadas para a família. Ganha do seu pai a primeira clarineta. Anos depois começa a tocar no conjunto de seu pai, Pedro Moura, em bailes populares, fazendo seu primeiro solo no choro composto pelo saxofonista Domingos Pecci.

No ano de 1945, a família Moura chega ao Rio de Janeiro, para morar na Rua Barão de Mesquita 363 , na Tijuca. “Vieram meu pai, minha mãe e nós, os filhos mais novos: Tita (Cesarina), Lico (Alberico), Nena (Filomena) e Tude (Edeltrudes). Fillinha, assim com 2 "eles" como ela escrevia (Dalila), já casada com o mecânico de carros Alcides Salgado, ficou na cidade de São Paulo”, contou.

Enquanto continuava os estudos de clarineta, ganhava alguns trocados em bailes de classe média, nos clubes israelitas "Monte Sinai" e o "Israelita Brasileiro" da Tijuca, e nas gafieiras do Andaraí, Centro da cidade, Praça da Bandeira, Belfort Roxo e Pavuna. Freqüentando o Ponto dos Músicos (em frente ao Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes) conseguiu dar início a carreira profissional e voltar a estudar formalmente no "Ginásio Luiza de Castro".

Moura já tocou com uma leva de grandes maestros, músicos e arranjadores, a exemplo de Lírio Panicalli, Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, Guerra Peixe e Moacir Santos, e de músicos como o violonista Menezes, o baterista Luciano Perrone, Moacyr Silva, Chiquinho do Acordeon e Jacó do Bandolim e tantos outros.

Só em 2000 ganhou o primeiro Grammy Latino para Música de Raiz com seu trabalho "Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas” (Rob Digital) e interpreta o papel de Zé Espinguela, músico popular que influenciou Villa-Lobos na sua aprendizagem de choro, no filme “Villa-Lobos uma vida de paixão”, de Zelito Viana.

No ano de 2005 Paulo Moura recebe o Prêmio Tim de Melhor Solista Popular por sua interpretação no CD "El Negro Del Blanco" e participa do documentário "Brasileirinho", dirigido por Mika Kaurismaki e produzido por Marco Forster, com enorme repercussão no Festival de Filmes de Berlim, e em Marseille, na França.

Dando um salto na sua longa trajetória musical em maio de 2007 surpreende com o Cd Samba de Latada, trazendo o som dos sambas -forrós do sertão Pernambuco para o cenário nacional, parceiro com a pesquisa e a voz do requintado forrozeiro Josildo Sá de Recife.

Tem quatro de seus trabalhos históricos reeditados pelo selo gravadora Biscoito Fino, relança em Cd os Sons de Caymmi enquanto a Atração Music inaugura a série Galeria com Hepteto, Quarteto e Fibra e a Livraria Fnac na Avenida Paulista em São Paulo.

Armando da Costa Macedo é mais conhecido por Armandinho. Ele começou a tocar aos 9 anos de idade e com 10 anos o pai Osmar Macedo, um dos criadores do trio elétrico, colocava os filhos para tocar em cima de um trio mirim. Aos 15 anos de idade grava seu primeiro disco ao vencer no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no programa A Grande Chance do apresentador Flávio Cavalcante e passa a ser revelação nacional do novo bandolim brasileiro.

No final da década de 1970 se juntou aos cariocas Dadi Carvalho (ex-novos baianos) e Maurício Magalhães de Carvalho (Mú) e formaram a banda A Cor do Som, juntamente com o baterista Gustavo Schroeter e o percussionista Ary Dias. A banda chegou ao fim, mas a carreira solo de Armandinho e suas apresentações em cima do Trio Elétrico Dodô e Osmar ajudou a solidificar ainda mais sua carreira, sendo posteriormente reconhecido nacional e internacionalmente como um virtuose no instrumento, sendo indicado aos prêmios Grammy Latino de 2004, com o CD Retocando o Choro ao Vivo, na categoria de melhor álbum instrumental.

Armandinho para quem não sabe é o pioneiro da 5ª corda do Pau Elétrico, instrumento musical que deu origem ao trio, que recebeu o nome de “Guitarra Baiana”. Foi o idealizador também do bandolim de 10 cordas, que só agora vem sendo usado pelos bandolinistas brasileiros.


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação.