Homenagem a Vanildo Brito

A poesia e filosofia paraibana estão de luto. Faleceu em João Pessoa no dia 22 de julho o escritor Vanildo Brito. Ele tinha 71 anos de idade e teve falência múltipla dos órgãos. O escritor deixou cinco filhos e sua fiel companheira de todos os tempos, Inalda. O corpo do poeta foi sepultado por volta das 16h00 no Cemitério Senhor do Boa Sentença.

Quando ainda trabalhava no suplemento Estante do antigo Jornal A União tive a oportunidade de entrevistar Vanildo e conhecer os poetas da sua geração. A entrevista aconteceu no seu apartamento em Tambaú. Foram horas de bate papo sobre todas as questões. Publico aqui novamente a entrevista na integra que para mim foi uma das mais marcantes da minha carreira enquanto repórter de cultura.

Abertura
O poeta Vanildo Brito saiu do município de Monteiro, nos Cariris Velhos, com apenas dois anos de idade. A cidade fica a poucos quilômetros da Capital, João Pessoa. Mas, sempre levou consigo as lembranças do clima fino e puro da Serra da Borborema. Ele começou a escrever poesias em 1955. Publicou os primeiros poemas em 1956 nos jornais literários de João Pessoa e Recife. Vanildo Brito é criador do primeiro movimento literário, intitulado de Geração 59, que resultou na publicação de uma antologia com a participação de vários poetas brasileiros.

Professor de Filosofia aposentado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) ele passa os dias lendo e traduzindo, com muita dificuldade devido a sua saúde, a obra De Rerum Natura, uma interpretação do poeta latino Lucrécio, com várias notas elucidativas. No período áureo da literatura paraibana se tornou amigo do escritor pernambucano Mauro Motta, Carlos Pena Filho, Ascendino Leite, dentre outros. Ele é casado com Inalda Brito, sua musa inspiradora, com quem vive a 34 anos uma linda história de amor, que resultou no nascimento de cinco filhos e uma neta, sendo uma do seu primeiro casamento de apenas um ano.

Vanildo Brito dirigiu o suplemento literário A União nas Letras e nas Artes, no período de agosto de 1959 a maio de 1960. Na vida literária organizou e publicou a obra A Construção dos Mitos, republicado em 1982 com alguns acréscimos. Editou em 1985 o livro Memorial Poético, no ano seguinte publicou um livro duplo Sinal das Horas e Cantigas de Amor para Inalda. Passou cerca de 11 anos para lançar o livro A Sagração do Emblema e o Livro das Paisagens (1998).

Com uma grandeza de espírito e os olhos ainda apaixonados pela poesia ele escreveu Memorial Poético 1958/1985 (Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo de João Pessoa, 1985), em que metrifica perfeitamente sua visão sobre o exílio e metamorfoseia, no poema Metamorfhoseon, uma fábula que se desfaz e volta sobre o mar ensangüentado e embriagado entre as luzes das estrelas. “A fábula desfeita se refaz no encontro das memórias redivivas; volta o verde das chuvas, volta o aroma vegetal das espigas. Por sobre o mar a lua ensangüentada aderna lenta como nave bêbeda” (...) diz um trecho do poema.

Nos poemas Canção dos Astronautas, Geocosmos e Soneto Lunar, neste mesmo memorial de poesias, ele fala da ida do homem a lua, do universo e suas cavidades formadas por faces de múltiplas verdades. Na Canção dos Astronautas ele divide o poema em duas partes, em que ele fala de um mar antigo, infinito, profundo e ao mesmo tempo familiar que navegamos.

A Construção dos Mitos foi uma de suas maiores obras. Nela Vanildo Brito compõe versos clássicos na sua composição e no seu ritmo, sem se desligar do modernismo que disciplina sua formação lírica. “O meu eterno amor aos labirintos fez mim um noctâmbulo perdido, onde foi que eu deixei as minhas mãos e em que estrelas ficaram meus ouvidos?”, pergunta ele em um dos trechos. O amor a terra é também explicito pelo autor no Canto de Terra e em Ode ao Cabo Branco, este último poema dividido em três partes, em fala do mistério e magia natural que envolve o lugar feito de areias mansas, os corpos, o mistério do sexo, pedaços de mar e da solidão que se mistura ao lugar.

No livro duplo Sinal das Horas e Cantigas de Amor para Inalda (Edições 200 Livraria, João Pessoa, 1987), Vanildo Brito mergulha de corpo e alma nas profundezas de seu amor lírico. A obra contém ilustrações de Hermano José, prefaciado por sua grande amiga Ângela Bezerra de Castro, com considerações na contra-capa do professor e literato Hildeberto Barbosa Filho.

Trilhando os caminhos difíceis dos grandes poetas ele reflete toda a sua maturidade poética e estética no livro A Sagração do Emblema/O Livro das Paisagens (Editora Universitária, UFPB, João Pessoa, 1998). Nesta obra ele edita em seus 51 poemas, sendo 36 deles roteiros filosóficos mostrados por uma visão caracteristicamente Nietzschiana, na Sagração do Emblema. O livro é prefaciado pelo professor de literatura e comunicação social Hildeberto Barbosa que comenta sobre O Convalescente, do Assim Falava Zaratrusta, em que Nietzsche propõe a teoria do eterno retorno, em que assinalava: “Tudo vai, tudo torna, a roda da existência gira eternamente. Tudo morre, tudo torna a florescer, correm eternamente as estações da existência”.

Ainda na Sagração do Emblema Vanildo Brito fala visão distorcida com que o herói das histórias em quadrinhos Super-Homem foi criado. Na concepção do poeta a idéia do Super-Homem foi mal compreendida e interpretada, por vezes o homem munido de todos os poderes e protetor dos fracos deveria ter sido definido como Além-Homem e não Super-Homem. “Em torno do seu Zênite, o Além-Homem, envolto no seu nome, ei-lo que vem. Todos os símbolos refletem sua presença anunciada (...). E sua solidão é tão fecunda, que dadivoso sagra o seu emblema e nele se transnuda” (...), diz o poema 31.

Na parte que se destina ao Livro das Paisagens ele fala do sol, do rio, vento, campo, flora, brisa e tudo que envolve o cenário dos Cariris Velhos, sua terra natal. Na opinião de Hildeberto Babosa na parte das paisagens ele mostra uma configuração mais nítida de uma lírica mais plástica, musical e mais variada nos seus componentes retóricos. Ainda neste livro Vanildo Brito resgata suas memórias e as reinventa. O sol escaldante do nordeste é um dos astros do livro, um ícone de beleza e ao mesmo de castigo que ele o caracteriza como “o astro rei”, “monstruoso sagitário”, “besta-fera”, “tumor de fogo” e “sagitário cruel”.

Sem nunca ter concorrido, ganhado prêmios e honras literárias por suas obras, se locomovendo e escrevendo com alguma dificuldade ele abriu a porta de seu apartamento na praia de Tambaú, em João Pessoa, para falar sobre poesia e de sua vida para os leitores do caderno Estante. Nesta entrevista ele comentou como começou a se dedicar à poesia, das férias que passava na cidade de Areia e Guarabira, brejo paraibano, poesia paraibana, Nietzsche, mercado literário, filosofia oriental e o ensino universitário, além conversar sobre suas influências, música e os poetas paraibanos da nova geração. E como não poderia deixar de ser ele falou do movimento Geração 59 e da indignação que sentia quando observava que na época apenas os escritores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais eram destaques na literatura brasileira.

A Entrevista

O Início - Infância

Como o senhor começou a se dedicar à poesia? Eu comecei a escrever, me dedicar a poesia em 1956/1957. Antes eu tinha feito uns poemas isolados. Desde menino sempre tive interesse pela poesia. Eu lia na biblioteca do meu pai Guedes Monteiro e Antero de Quental. Sempre gostei muito de poesias portuguesas. Curiosamente eu fui ler Augusto dos Anjos muito tempo depois, como meus 22 para 23 anos de idade. Os poetas do meu início eram chamados de mestres. Eu gosto de dizer que eram mestres e hoje são meus irmãos.

Que lembranças mais agradáveis o senhor traz de sua infância poética?
Eu nasci na cidade de Monteiro, nos Cariris Velhos. Meu pai foi promotor público em Guarabira. Eu me lembro de uma parte da minha infância em Guarabira. Mas, eu sempre passava minhas férias, em Areia ou em São João do Cariri. Daí veio a minha fixação pela Borborema, minha paisagem de coração. É lindo o lugar. Você quando chega lá e respira sente um ar fino que vem da serra. Eu guardo poucas lembranças de Monteiro. Eu sai de lá com dois anos de idade. Eu fiz uma revisita a cidade para ver a casa onde nasci, mas, eu já estava grande. Porque para dizer uma coisa engraçada. Dizem que a pessoa só tem três idades: quando a gente é pequeno, quando é maior e quando é grande.

Geração de 1959

Professor do que consistiu o movimento Geração de 1959?
Quem inventou essa coisa toda fui eu mesmo. Na época eu era diretor do suplemento literário do jornal A União, reuni poetas e jovens escritores da minha geração em torno do suplemento literário. Agora o objetivo da geração de 59 era fazer aquilo que o João Lelis predicava no ensaio que ele publicou em 1950, chamado Maiores e Menores, que dizia que a literatura brasileira, por causa da multiplicidade e heterogeneidade cultural do Brasil, deveria se escrever a partir das literaturas regionais localizadas das províncias dos estados. Eu tinha horror quando via na época que a literatura brasileira só registrava poesias de autores do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. O resto do Brasil era ignorado, então o movimento da geração de 59 era uma espécie de Novo Nego. Um nego literário. Um nego aquela homogeneização. Só eram conhecidos os escritores do Rio de Janeiro ou quem fosse para lá. Foi o caso de Augusto dos Anjos, em que o Eu foi publicado no Rio de Janeiro, de José Lins do Rego e José Américo, que antes de ingressar na vida literária já era um homem político. E com a revolução de 1930, quando ele exerceu o cargo de ministro do governo de Getúlio Vargas, porque estava no Rio de Janeiro, estava no centro do poder. Eu discutia muito isso com o Mauro Motta e com Carlos Pena Filho, que eram de Pernambuco. E eles achavam que eu tinha razão. Tanto assim que hoje eu me sinto feliz. Porque eu observo que se publica em Pernambuco História da Literatura Pernambucana. O Hildeberto publicou há pouco tempo a História da Poesia Paraibana, quer dizer, no Rio Grande do Norte se faz igual coisa. Cada estado cuida de sua própria literatura. Futuramente essa história vai se agregar numa real história da literatura brasileira e não apenas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais como estava sendo.O movimento foi bastante criticado. Alguns diziam até que era muito parnasiano. Tinha bastante critica. Na verdade, a gente não se preocupava muito com a forma ou fórmula. O que a gente queria fazer era um movimento de autonomia literária. Agora realmente a forma predominou. Embora os sonetos fossem escritos sem rima havia uma certa literização, como também existiam autores que escreviam poesias, dita hoje moderna, sem métrica, sem rima.

Como foi reunir todos os poetas numa Antologia de Poetas Paraibanos?
Aquilo foi o primeiro suspiro do que se chamava de Geração de 59, é tanto que a obra ficou com este nome. Na época era moda chamar os grupos literários de gerações. A partir da Geração de 45, houve a geração de 48 e tantas outras. Então essa antologia foi o começo da história. Depois quando eu assumi a direção do suplemento Correio das Artes da União, que na época se chamava A União nas Letras e nas Artes, que tive um instrumento para veicular o movimento com este fito, com esta diretiva. Tanto assim que a gente provocava, dizia que a literatura do Rio de Janeiro era formalista, era falsa e a nossa era real. A gente provocava. Foi uma polêmica que se fez e que até hoje repercute. A geração de 59 foi para a Paraíba o que semana de 22 foi para o movimento modernista em São Paulo.

Professor do que consistiu o Clube do Silêncio?
O Clube do Silêncio na realidade foi um movimento de adolescência que queria chocar, chamar a atenção. Fizemos uma exposição surrealista, fazíamos rappinings, movimentos literários, fazíamos muito barulho. Então de vez em quando surgia o boato de que o Clube do Silêncio iria fazer uma exposição de arte, poesia, de objetos surrealistas. De silêncio não tinha nada, era mesmo para contrapor a idéia de barulho. Quem pôs esse nome me parece que foi o João Freitas, um pintor antigo, surrealista que tinha uma verdadeira obsessão pelo silêncio. Ele dizia que a poesia era palavra e por ser palavra era limitada. Todo mundo não podia entender uma língua, que a verdadeira arte era a pintura, porque a pintura era silenciosa e que era no silêncio que a pessoa atravessava as dimensões. Não foi nada de formal, foi uma brincadeira, uma marca de um movimento que não tinha de formal. Era o entusiasmo de adolescentes. O Clube do Silêncio foi anterior a Geração de 59 e tínhamos todos em torno de 20 anos de idade. Éramos muito jovens.

Após o movimento da geração de 59 que outro movimento literário o senhor destacaria?
O movimento da Geração Sanhauá, de Sérgio Castro Pinto, depois os poetas se cansaram dos movimentos ou então a moda dos movimentos passou e todo mundo faz o seu movimento pessoal. As coisas se individualizaram muito. Não existe mais um grupo. Esse modismo de movimento passou. Os poetas trabalham sozinhos.

Poesia Paraibana

Como o senhor definiria a poesia paraibana hoje?
É muito difícil encontrar uma definição. O que acho é que a poesia paraibana é muito rica, não só em quantidade, como também em qualidade. A idéia que eu tenho de poesia hoje é que ela não pode ser apenas palavra, não pode ser apenas beleza verbal. Ela tem que ter um sentido humano tem que ter uma sabedoria, perenidade e conteúdo humano. Os antigos falavam que deveria haver beleza, bondade, sabedoria e equilíbrio formal. Por que a música dos grandes mestres não morre? Porque tem isso tudo. O poema sobre o destino, sobre a morte, o sofrimento, os poemas da alegria são sentimentos humanos. Agora o que eu não gosto e nunca fiz meias palavras sobre isso é quanto à poesia somente pela formalidade. A poesia hermética para se brincar de palavras não leva nada. Pode ser uma experiência formal, mas, que é estérea, não fica. O grande crítico é o povo.

Quais os poetas paraibanos que lhe agradam?
Olha, existem muitos. E eu temo que o meu esquecimento seja injusto. Mas, os que mais me agradam são o Sérgio Castro Pinto, Otávio Sitônio, Rejane Sobreira, Luis Correia que está quase esquecido e que nada publicou na Paraíba. Tem muita gente. Eu prefiro não citar para não ser injusto. Além dos maiores como Augusto dos Anjos, que o nosso poeta de fundo, o Raul Machado e outros. Dessa nova geração tem o Hildeberto Barbosa Filho, Lúcio Lins, que são poetas de primeira água. Tem o Políbio Alves que é um poeta muito urbano e parece que foi o único que foi traduziu sua obra para o Espanhol e que teve sua obra publicada em Cuba. Eu tenho o livro que ele me dedicou.

Professor o senhor falou de Rejane Sobreira. Onde estão as poetisas de nosso Estado?
Realmente esta é uma boa pergunta. As poucas que escrevem não moram aqui. A Rejane Sobreira mora no Rio de Janeiro. A Eliana Mesquita em Pernambuco vivia aqui em João Pessoa, mas, vinha apenas no final dos meses, quando a gente fazia as reuniões. Ela fez parte da Antologia Geração de 59. A Rejane veio depois quanto à antologia havia sido publicada. Ultimamente ela publicou um livro que escreveu aqui na Paraíba, mas, lançou no Rio de Janeiro, chamado Aranha de Breu, que o professor Hildeberto Barbosa registrou um artigo sobre o livro dela. A obra dela está registrada na história da poesia paraibana.

Na sua opinião qual é o grande problema da poesia paraibana?
O problema da poesia paraibana é o silêncio. A gente não tem mais como publicar. Os espaços são poucos. Tem A União e só. E para publicar é caríssimo.

Sua obra, sua poesia

O que o senhor publicou depois da Antologia?

Depois eu publiquei o Memorial Poético, uma reunião de poesias que escrevi em 1985, onde consta Methamorfhoseon, O Espaço e a Palavra, em que se reflete exatamente uma poetização da conquista da lua, dos astronautas, que eram heróis daquele tempo e da Construção dos Mitos que eu selecionei alguns poemas. O curioso é que eu seleciono e reescrevo. Eu não guardo um poema meu depois que eu me abuso dele. Eu não acho que seja certo a gente registrar uma coisa só porque a gente escreveu. Eu não tenho essa vaidade de que tudo que eu escrevo possa ser registrado. Eu sou critico de mim próprio. Os amigos de literatura dizem que eu sou muito rigoroso com o que faço. É tanto que eu estou reescrevendo tudo, uma espécie de Memorial Poético de tudo que eu fiz. Depois veio O Sinal das Horas, onde eu reuni minhas elegias e As Cantigas de Amor para Inalda, que é minha mulher, meu amor antigo, minha inspiração lírica, todas as minhas poesias de amor foram para ela. O amor é uma coisa rara, é um milagre.

Em uma de suas obras o senhor traz uma certa concepção Nietzscheana. Como foi trazer Friedrich Nietzsche para dentro da poesia?
Eu quando era mais jovem tive um encontro, com todo mundo que escreve teve, com a obra de um grande autor. Engraçado é que Ariano Sussuana, em Assim falavam as Zaratrusta, falava também desse seu encontro. Zaratrusta é um poema filosófico, é uma fábula filosófica. Nele são defendidas três teses. A primeira é a tese da morte de Deus cristão, na realidade não se trata da morte de Deus, mas, da morte de uma noção de Deus, que era o Deus cristão. Depois fala do Super-Homem, que eu prefiro chamar de Além-Homem, porque a palavra ficou comprometida por causa daquele boneco americano que figurou nas histórias em quadrinhos. No meu caso eu tive a tentação de usar a própria palavra em alemão, mas, como pouca gente sabe alemão eu evitei usa-la. Então eu preferi criar outra. Eu a traduzi para Além-Homem. Porque nós temos diversas palavras feitas em português com “além-alguma coisa”, então eu preferi traduzir para Além-Homem. O que eu aproveito de Nietzsche é a poeticidade de certas teses dele que são realmente belas e poéticas. Eu prefiro o Nietzsche poético ao Nietzsche filosofo. O Nietzsche filósofo me parece muito inorgânico, muito desorganizado, porque existem inúmeras fases do pensamento nietzscheano, então ninguém sabe o que é o que não é Nietzsche. Depois ele levou uma carga muito grande, porque foi aproveitado pelo Nazismo de Ritler, como filosofo do nazismo, embora ele nunca o fosse. Ele ficou como nome comprometido, como se o Super-Homem tivesse alguma coisa haver com raça. Quando realmente não tem nada haver. O Super-Homem é o homem que se desgruda da massa, que vai além da massa, além do povo. É uma elite mais espiritual do que racial. Isso realmente não cabe dizer.

Quais são ou quais foram suas maiores influências?
Além de Guerra Junqueiro, Raul de Leoni, Antero de Quental também leio muito a Cecília Meireles, Jorge de Lima, da invenção de Orfeu, do livro de sonetos. Eu acho essa coisa de influências um tanto quanto equivocada, porque o que existe é uma certa continuidade. Virgílio quando escreveu a Eneida foi influenciado por Homero, que era um verdadeiro clone adaptado à história romana. As grandes obras, na realidade, são reescritas de outras, com raras exceções. Por exemplo, dizem que o Dom Quixote é absolutamente original o que não é. Aqueles lances anedóticos de Dom Quixote faziam parte do folclore e do humorismo que se criou ao redor dele.
Os da poesia mundial que mais me agradam são os clássicos, como Dante Alighieri com a Divina Comédia, Bodeller, entre outros franceses que li no original. Lendo no original a gente realmente ler. Tradução é tradução é recriação.

O senhor domina quantos idiomas?
Português, Inglês, Francês, Italiano, um pouco de Alemão, Esperanto, Interlíngua e estudo, porque ninguém domina, o Latim, porque se não eu não estaria fazendo a tradução de Lucrécio, que inclusive publiquei um trecho no Correio das Artes no ano passado. O curioso é que os romanos escreviam no Latim coloquial e todo mundo os entendia. O povo os recitava porque era latim normal, não era latim artificial. Eu acho muito difícil traduzir, porque no momento de publicar a tradução sempre acontecem problemas de digitação. Porque digitar em Latim é difícil e eu não tenho computador. Eu escrevo numa máquina elétrica.

O que o senhor está produzindo no momento?
No momento eu estou organizando a tradução do Lucrécio, fazendo a parte do Latim, porque eu quero ver se eu publico bilíngüe. Tem gente que acha que isso fica muito pedante. Mas, eu acho que não, porque o mesmo número de versos de Latim é o mesmo número de versos de minha tradução. Então quem duvidar da fidedignidade da tradução que vá para o latim e traduza. Eu estou fazendo com uma dificuldade imensa devido a minha saúde.

E quanto à poesia concreta?
Querer transformar a poesia em arte visual me parece pouco convincente. Parece-me um modismo que surgiu no final dos anos 60, começo dos anos 70. Apareceram miríades de movimentos concretos, neoconcretos, poesia pop e outros mais.

O senhor tem algum poema que foi musicado?
Não. Inclusive é fácil de musicar, porque muitos são metrificados e facilita muito a musicalidade. Os poemas das músicas de Chico Buarque são metrificados, porque ele é poeta também. Ele metrifica muito bem. As letras dele são perfeitas. É por isso que ele ainda está ai. A poesia dele é harmoniosa.

O que é senhor está lendo hoje e recomendaria para as pessoas?
Eu na verdade estou relendo. Porque a gente depois de certa idade a gente reler. Então eu estou relendo o que sempre gostei na minha vida que é a Filosofia Oriental, Indiana, ou seja, Xainismo, Budismo, Filosofia Sampia. Essas coisas me fascinam e que me parece que foi a primeira filosofia da humanidade e vai ser a derradeira. A Índia nunca teve interregnos na sua cultura. Veja bem, a Europa teve a idade média que destruiu a filosofia grego-latina e criou outra cultura. A Índia não. Nunca teve solução de continuidade. Eu tenho vaidade de dizer que implantei o estudo de filosofia oriental no curso de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. Quando eu me aposentei retiraram a disciplina. Um aluno meu foi fazer o doutorado na universidade de Nova Deli, na Índia, e quando voltou tinham tirado a disciplina filosofia oriental da grade curricular.

Mesmo de longe como o senhor observa o estudo da filosofia na universidade?
De longe não me parece convincente. O ensino universitário em geral tende para uma coisa chamada para a pré-especialização. Antes que o aluno termine o básico eles começam a se pré-especializar. Por exemplo, no campo da filosofia em vez de estudarem a filosofia antiga toda, inclusive a indiana e a chinesa eles escolhem Platão e Aristóteles e acabou-se.


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Marcos Russo e Olenildo Nascimento.