Dia Internacional do Folclore


Boitatá, pisadeira, mula-sem-cabeça, saci-pererê, reisado, boto, curupira são algumas lendas, mitos, danças e contos encontrados no folclore brasileiro que nesta sexta-feira, dia 22 de agosto, comemora o Dia Internacional do Folclore. A data foi criada no ano de 1965, através de um decreto federal. O termo foi criado por William John Thoms (1803-1885), um pesquisador da cultura européia que em 1846, publicou um artigo intitulado "Folk-lore". No Brasil, após a reforma ortográfica de 1934, que eliminou a letra k, a palavra perdeu também o hífen e tornou-se "folclore".
No entanto, muita gente confunde folclore com cultura popular. O folclore para a revista The Atheneum, Folk, em inglês, significa “povo” e lore, “conhecimento”. Folclore, então, seria um conhecimento emanado do povo. Na opinião da professora Lívia Merces, do Núcleo de Formação Cidadã da Universidade Metodista de São Paulo, folclore é a expressão cultural de um povo. “Esses tipos de manifestações se dão de maneira informal, são passadas de geração para geração de modos distintos, como, por exemplo, na forma de cantigas, contos, lendas, culinária ou artesanato”, disse.

As manifestações folclóricas podem ser identificadas em nosso dia-a-dia nas várias heranças que recebemos dos povos que nos colonizaram ou que já estavam aqui. Nas festas juninas, natalinas, na literatura de cordel, nas cantigas de roda, no costume de dormir em rede ou de tomar banho todos os dias, como faziam os indígenas, em todos estes hábitos é possível identificar aspectos de nosso folclore.

Para alguns estudiosos, o folclore vem, nos últimos tempos, enfraquecendo. A influência estrangeira e a difusão da cultura de massa pela mídia e as novas tecnologias podem levar à extinção ou a uma descaracterização do folclore típico brasileiro. Para Lívia Merces, a mídia pode atuar como vilã, mas também como heroína, pois pode sufocar a nossa cultura, importando produções de outros países, propiciando maior falta de informação da realidade e da cultura advinda do povo brasileiro. Mas, por outro lado, a mídia pode ser um veículo de difusão do nosso folclore. “Filmes, novelas, documentários de nossas lendas e histórias podem difundir nossa cultura. Ainda mais se considerarmos o fato de que a televisão chega desde os pampas gaúchos até as palafitas do Amazonas”, explicou.

Na Paraíba um dos grandes folcloristas foi o dramaturgo Altimar Pimentel (já falecido - foto) que escreveu sobre as principais manifestações folclóricas de nosso Estado. Um de seus últimos trabalhos foi uma coletânea editada com o apoio do Fundo de Cultura do Estado (FIC – Lei Augusto dos Anjos). Nela Altimar Pimentel descreve sobre as manifestações folclóricas, traz ilustrações dos lugares onde ela ainda resiste e trechos com as partituras das canções mais tocadas.

A cultura popular é uma arte anônima, espontânea, uma manifestação cultural que passa de pai para filho e é sempre repetida quase da mesma maneira. Dela deve-se sempre esperar fidelidade ao passado, sendo está fidelidade o indicador de maior ou menor autenticidade. Em alguns estudos a cultura popular é também conhecida como cultura de massa, cultura pop ou cultura vernacular, isto é, do povo, que existe numa sociedade moderna. Na enciclopédia eletrônica Wikipédia diz que o conteúdo da cultura popular é determinado em grande parte pelas indústrias que disseminam o material cultural, a exemplo das indústrias do cinema, televisão, música e editorais, bem como os veículos de divulgação de notícias. No entanto, a cultura popular não pode ser descrita como o produto conjunto dessas indústrias; pelo contrário, é o resultado de uma interação contínua entre aquelas e as pessoas pertencentes à sociedade que consome os seus produtos.

Folclore na educação

O folclore e a cultura popular sempre estiveram presentes nos programas e conteúdos escolares. Em algumas escolas a data é comemorada de um jeito formal ou de forma transversal, sempre há um espaço na educação para se tratar desse assunto.

Em um país como o Brasil, tão diverso, tão grande, com tantas expressões diferentes, com tantos jeitos de ser, de brincar, de conviver e rezar, que vão se modificando de lugar para lugar, e a toda hora, não podemos falar de uma única cultura, mas das muitas culturas que o formam. Foram muitos povos que por aqui se instalaram na colonização do país e fez com adquirimos a cultura que temos hoje.

“Será que já paramos para pensar, por exemplo, quantas nações indígenas nós temos? E das culturas africanas que para cá vieram não foi uma nação, mas foram muitas a formar o que chamamos de cultura afro-brasileira. E os portugueses, foram os únicos? Na verdade, foram muitos os povos europeus, cada um com suas tradições, línguas, expressões, jeito de ser e crer, que vieram para cá e, misturados aos diferentes povos indígenas e africanos, ajudaram a formar um país plural e de muitas culturas”, questionou a professora Aleuda Martins da escola Pequeno Príncipe.

Hoje é impossível pensar a educação sem os aspectos do folclore e da cultura popular. A cultura é o fermento que alimenta, dá forma e conteúdo à educação. Em sala de aula, experiências, vivências e singularidades estão reunidas. Alunos e professores trazem suas bagagens e histórias. Confrontos, trocas, negações e reafirmações de culturas pulsam o tempo todo nesse convívio. Se não houver um saber pronto e acabado a ensinar, a educação tem suas chances de sucesso ampliadas.

Comemorações

Várias comemorações ao Dia do Folclore acontecem em João Pessoa para recordar a data festiva. O Instituto dos Cegos promoverá nesta sexta-feira (22), a partir das 8h00, o dia do folclore com o tradicional Café Folclórico. O evento, que chega a sua 7ª edição, envolve alunos, pais e professores da entidade. A comemoração tem um valor especial para os estudantes, que participam ativamente de todos os preparativos e têm a oportunidade de adquirir novos conhecimentos sobre os costumes e tradições regionais, através das representações de personagens e apresentações de objetos folclóricos.

"Para os alunos que contam com uma visão saudável, as gravuras de livros e imagens de filmes facilitam o aprendizado, mas quem não enxerga precisa ser estimulado com o concreto, sentir os objetos, e os professores não mediram esforços para encontrar novidades e trazê-las para garotos", explicou a presidente do Instituto, Suzy Belarmino.

Ao som de músicas regionais, o evento terá início com um café da manhã tipicamente nordestino, tendo a participação de pais de alunos e professores na produção de aproximadamente 40 itens, entre bolos de mandioca, macaxeira e milho, sequilhos, coalhada, tapiocas e queijos. Após o café, todos serão encaminhados para as salas de aula, onde os alunos realizarão diversas atividades, com o objetivo de resgatar tradições regionais. Enquanto os estudantes do 1º ano apresentarão brinquedos folclóricos, a exemplo de peões, carrinhos de madeira, bonecas de pano e cavalos de pau, os estudantes do 2º ano mostrarão a execução de brincadeiras como o jogo do anel, trava língua, cobra cega e boca de forno.

Os alunos do 3º, 4º e 5º ano estarão devidamente caracterizados ao realizar apresentações sobre o folclore indígena, além de manifestações culturais africanas e européias, trazidas durante processo de colonização do Brasil.

O Instituto dos Cegos é uma Organização Não Governamental, de caráter filantrópico e assistencial, que ao longo dos seus 64 anos de existência já atendeu milhares de pessoas cegas, entre crianças, jovens e adultos. Lá, os alunos matriculados também passam por um currículo extra de estimulação, que abrange matérias específicas, como educação musical, iniciação desportiva, educação física, orientação e mobilidade, escrita cursiva, atividades da vida diária e iniciação à informática. Dos 100 estudantes atualmente atendidos pela ONG, 20 ficam em regime de internato, fazem as seis refeições diárias e dormem na instituição. Todos os livros didáticos em braile são reproduzidos no próprio Instituto, seguindo o padrão dos materiais adotados em escolas regulares, para onde os alunos são encaminhados quando se sentem preparados.

Outro local em que o Dia Internacional do Folclore é comemorado todos os anos é o Serviço Social do Comércio (Sesc). As comemorações este ano estão inseridas dentro do Projeto Glória Vasconcelos que terá como atração principal o cantador e declamador Oliveira de Panelas (foto ao lado).

O Projeto Glória Vasconcelos nesta sexta-feira (22) tem início às 18h00, e será na Praça do Coqueiral, no bairro de Mangabeira. Além de Oliveira de Panelas, o homenageado, se apresenta os cantadores Jatobá, Salvador Alcântara e Afrânio Ramalho. Logo após sobe ao palco o Grupo Folclórico Tenente Lucena e Mulheres do Cangaço do Sesc, além do Grupo Bultrim de Alagoa Nova e Quadrilha Junina Infantil Sanfona Branca.

O Grupo de Danças do Sesc, que completa este ano 39 anos de criação, é composto por 60 pessoas (comerciários, dependentes e usuários), entre eles, dançarinos e músicos. Em suas apresentações, constam danças de xote, camaleão, araruna, boi-de-reis, congos de pombal, côco de roda, quadrilha, galope, pau de fitas, cirandas, xaxado, entre outras, todas acompanhadas por interpretações musicais feitas pelo conjunto regional do grupo folclórico.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Foto: Tela do artista plástico paraibano Clovis Júnior.