O homem que engarrafava nuvens


“O Homem que engarrafa nuvens” é a mais uma produção documental de Denise Dummont, com direção firme de Lírio Ferreira e fotografia de Walter Carvalho, em que narra sobre a vida e obra do compositor e advogado Humberto Teixeira (1915/1979), parceiro de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

O documentário começou a ser exibido na Estação Vivo Gávea, no Rio de Janeiro, mas só Deus sabe quando começa a circular nas salas de cinema ou de arte do Nordeste. O título do filme foi sacado de uma entrevista de Humberto Teixeira a Nirez. Para acompanhar a jornada emocional de Dummont, o diretor Lírio Ferreira tenta desvendar boa parte do véu que cobria o homem e o artista - este, aliás, nem sempre creditado como devido quando o assunto é o repertório áureo de Gonzaga.

A voz de Humberto Teixeira aparece em “off” extraída de um depoimento biográfico prestado pelo compositor no ano de 1977. Teixeira nasceu em Iguatu, interior do Ceará. Uma terra castiga pela seca onde o artista conviveu com Luiz Gonzaga, ouvindo em sua forma seminal as festas e cantorias nordestinas, do qual Teixeira levou consigo para o Rio de Janeiro com o intuito de virar médico.

O documentário conta que ele, na verdade, se tornou um advogado e que, anos depois, faria a viagem de volta como candidato a Deputado Federal no Ceará. Entre uma viagem e outra, Teixeira mostrou ao mundo como se dança e compõe o baião pela voz de Luiz Gonzaga. Mas somente depois de ter suas primeiras músicas rejeitadas por estrelas da época, como Carmen Miranda (1909 - 1955) e Orlando Silva (1915 - 1978).

A primeira música gravada por Teixeira foi Sinfonia do Café, que abriu caminho para o registro do samba “Deus me Perdoe”, sucesso na voz de Cyro Monteiro no Carnaval de 1945. Mas foi no baião que ele se identificou e estourou na primeira metade da década de 1950, e fez o Brasil descobrir a sanfona. A década, de acordo com os livros de música brasileira, foi a era de ouro do gênero, que coincide com a industrialização do Brasil, e começou a ser formatada em 1946 com a gravação de Baião pelo conjunto “Quatro Ases e Um Coringa”

O baião, de acordo com os cantores Fagner e Otto nos depoimentos inseridos no filme, era a música que expressava os sentimentos dos nordestinos saudosos que haviam migrado para o Sul para fugir da seca e da fome. "Ou você descia para São Paulo ou subia para São Pedro", diz o cearense Belchior.

“O Homem que engarrafa nuvens” mescla gravações antigas com registros contemporâneos feitos em estúdio por Caetano Veloso (Baião de Dois), Gal Costa (Adeus, Maria Fulô - com o auxílio luxuoso da sanfona de Sivuca) e Chico Buarque (Kalu, sucesso de Dalva de Oliveira que teve como musa inspiradora Mafalda, caso extra-conjugal de Teixeira). No filme também pode ser vistas imagens captadas na edição do Prêmio Rival de Música que homenageou Humberto Teixeira. Para dar uma mostra do alcance da música de Humberto, a canção Asa Branca é tocada também pelo norte-americano David Byrne.

A música “Assum Preto”, prima-irmã da Asa Branca, é ouvido na gravação de Gal Costa entre imagens de filme sobre a cantora feito pelo cineasta Antonio Carlos Fontoura. Agora quando o assunto são mulheres oficiais Humberto Teixeira mostra a face mais machista do compositor. A primeira mulher, Ivanira Teixeira, lembra como Humberto a fazia tirar qualquer maquiagem mais vistosa. A pianista Margarida Jatobá, mãe de Denise Dummont, vai mais fundo revela, em conversa emocionada com a filha, que foi impedida de criar, por ter largado Teixeira, após longo período de desentendimentos e opressão, para viver um amor com Luiz Jatobá. "Ele queria me transformar na 'mulherzinha de Humberto Teixeira'. Não deu", diz Margarida (falecida em 2007).

A atriz e filha, Denise Dummont, em depoimento final diz que só se sentiu mais próxima do pai as vésperas de sua morte, em 3 de outubro de 19779, pois a sociedade da época tratou de afastar a filha da mãe e a uniu ao pai. São depoimentos emocionados expõe o homem que foi Humberto Teixeira.

Adriana Crisanto
Repórter
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Fotos: Divulgação.