Trilha sonora das eleições


Hoje é dia de cumprir a obrigação eleitoral. O povo vai eleger prefeitos e vereadores. Em João Pessoa, ao que tudo indica, não haverá segundo turno. Sorte da população, pois tava sendo difícil caminhar pelas ruas da cidade sem dar de cara com carros de som nas alturas com aqueles jingles mal produzidos, sem criatividade e com jargões repetitivos. Sorte também dos vendedores de Cd´s piratas que agora não tem mais concorrentes a altura.

Fico pensando a que ponto chegou à música e seus produtores. Mas, o que esperar de letristas funkeiros que fazem ode ao adultério, que compõe músicas que transformam mulheres em frutas e chamam pessoas de éguas?

Venho de uma geração que se acostumou ouvir canções com letras expressivas e mensagens contundentes sobre a política brasileira. Uma das bandas que sempre teve uma visão política que conduziu muitos jovens foi a Legião Urbana. Uma das canções do grupo chama-se “Perfeição”. Nela o seu autor, Renato Russo, traz versos que falam em celebrar a fome, os mortos por falta de hospitais, o trabalho escravo e as epidemias. Celebrar a juventude sem escola, o país e sua "corja de covardes, estupradores e assassinos".

Sou do tempo de “Inútil” do Ultraje a Rigor, que já foi citada até no Congresso Nacional como um exemplo terrível de um país que não vai para frente. E como não lembrar da música, “Que país é esse?”, dos Paralamas do Sucesso, em que milhões de jovens repetiam em coro “é a porra do Brasil”, cada vez que Herbert Viana canta o refrão.

Cazuza assinou um belo hino de reflexão chamado “Brasil” e outro intitulado “O Tempo não pára”, duas canções mais significativas da última fase da carreira dele, quando abordou temas políticos. De Raul Seixas como esquecer de “Aluga-se”, a canção adotada pelo grupo Titãs nos shows que faz sacudir a multidão nos shows.

Ainda do Paralamas do Sucesso tem “Alagados” em que fala da pobreza abandonada do Brasil e da Jamaica. Da mesma banda tem “Selvagem”, o disco, ainda era LP, que marcou a mudança de sonoridade da banda e nos temas tratados por eles nas letras.

Revirando minha pequena biblioteca musical lembro-me de “Metrópole”, também da Legião Urbana, em que é contra a burocracia que ainda reina nos órgãos públicos do país e “Geração Coca Cola”, uma espécie de manifesto da juventude criada durante a ditadura militar que aprendeu a comer sanduíche com refrigerante. Outra que sai da gaveta é “Veraneio Vascaína”, do grupo Capital Inicial, em que fala sobre a brutalidade policial.

É hora de ir a urna pensando em todas essas letras e pensando na sua condição de trabalhador brasileiro que nunca passou a perna em ninguém, que paga imposto até na hora de caminhar pela calçada cheia de veículos, trabalhador que ainda busca emprego, trabalhador que deseja apenas que a justiça seja feita neste país tão discrepante socialmente falando. É hora de fazer o que propunha Renato Russo: “Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

Adriana Crisanto
Repórter
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