Índios - A essência da cultura imateral da Paraíba

Potiguaras apoiados pelo projeto “Tropical Cultura Essência da Paraíba”

Com o objetivo de valorizar a cultura imaterial do povo paraibano a rede de hotéis Tropical Hotels na Paraíba lançou na semana passada o projeto “Tropical Cultura Essência da Paraíba”, que visa salvaguardar a cultura indígena no Estado, em especial os índios potiguaras conhecidos historicamente desde 1501 por ocuparem o território que se estendia pela costa do Nordeste, entre as cidades de Fortaleza (CE) até João Pessoa (PB).
“A intenção é que haja uma mudança no patamar da consciência em prol da cultura local”, disse o presidente da rede Tropical Hotels e Resorts Brasil, Adenias Gonçalves Filho, que esteve em João Pessoa na última quinta-feira para receber o Título de Cidadão Paraibano da Assembléia Legislativa.
O projeto dentre outras iniciativas pretende divulgar a cultura dos índios potiguaras por todo o país através de sua rede de hotéis, através da promoção de vídeo-documentário, registro fotográfico (já produzido pela Universidade Federal da Paraíba), folders e cartazes e em feiras, eventos turísticos no Brasil e no exterior, convidando o mundo conhecer o Estado. “Valorizamos o que tem de melhor o país tem. Foi por isso que escolhemos a Paraíba. Reconhecemos todo potencial cultural brasileiro que hoje está um pouco abalado pela globalização”, ressaltou o presidente Adenias Gonçalves Filho.

Os índios

Na Paraíba os índios potiguaras ocuparam todo o Vale do Rio Mamanguape, do litoral até a Serra da Raiz, na época Serra da Cupaoba. A Baía da Traição ficou assim conhecida porque foi o local onde aconteceram os primeiros contatos entre os europeus e os ameríndios de maneira singular. O navegador e biografo Américo Vespúcio narra em suas cartas que alguns marinheiros se aproximaram da costa paraibana e entraram no continente. Após algum tempo as índias, que estavam despidas, apareceram na praia, e um outro marinheiro, encantado com as nativas, aproximou-se delas e ali mesmo foi esquartejado e devorado, num verdadeiro ritual de antropofagia. O fato ficou conhecido e foi popularizado até os dias atuais.

O nome Potiguar foi à denominação dada aos povos de língua Tupi, indígenas que, no século XVI, habitaram o litoral Nordeste brasileiro. Até hoje os índios são conhecidos como guerreiros e sempre foram temidos pelos portugueses que tiveram que fazer várias viagens para conquistar a Paraíba. Dados historiográficos revelam que após a expulsão dos holandeses os índios que foram exterminados foram reunidos em torno de aldeias missionárias por todo litoral do Nordeste.

Dando num salto na história na segunda metade do século XIX os índios potiguaras estavam com suas terras ameaçadas e apelaram para o imperador Dom Pedro II que, numa das suas passagens pela Paraíba, em dezembro de 1859, de acordo com a memória indígena, “redoou” aos potiguaras 57.600 hectares de suas terras, nas dias sesmarias de São Miguel e Monte-Mór.

Na década de 1930 foi fundado o Posto Indígena (PI) entre os potiguaras, na aldeia São Francisco. Em 1942, o posto foi transferido pela a aldeia do Forte, com o nome de PI Nísia Brasileira, que permanece até hoje. Na década de 1960, o SPI foi extinto e substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Após a demarcação da Funai o território potiguar passou a ocupar uma área de 33.757 hectares, distribuídos em três áreas contínuas, nos municípios de Rio Tinto, Baía da Traição e Marcação. Os potiguares é hoje a maior população indígena do Nordeste etnográfico, uma das maiores populações do Brasil. Tem aproximadamente 12.115 habitantes que vivem em 29 aldeias, em três municípios.

Costumes e língua

As famílias dos potiguaras na Baía da Traição, na sua maioria, são extensas. A maioria é liderada pelos homens, mas, em muitos casos, a mulher assume essa atribuição. Nas últimas décadas houve um crescimento da população indígena e novas aldeias surgiram, em sua maioria constituída a partir de uma família que decide morar em uma área sem vizinhança.

A população potiguara fala o idioma português. O professor Eduardo Navarro, da Universidade de São Paulo (USP), interessado pela cultura língua tupi começou a desenvolver um estudo sobre o tupi antigo com um grupo de professores potiguaras. O tupi antigo foi trazido pelos jesuítas que aqui habitaram na área dos aldeamentos. Hoje o tupi antigo, que até então estava esquecido pela comunidade, começou a ser ensinado nos colégios e é um dos componentes curriculares do ensino fundamental nas escolas diferenciadas indígenas.

Território

A terra potigaura localiza-se em uma planície do litoral Norte da Paraíba e tem seus limites 75% cercado por água. Ao norte está o rio Camaratuba, ao sul, o rio Mamanguape e a leste o Oceano Atlântico. Possui belas praias de diferentes proporções e formas. Algumas mais extensas e outras menores, esculpidas junto às baías e o mar aberto. Existem ainda aquelas integradas as rochas desgastadas pela ação do tempo e das marés.

O território é rico em manancial de água doce, com muitas nascentes espalhadas ao longo dos vales, nas grutas, nos planaltos, formando dezenas de olhos d`água que jorram de verão a verão sem nenhuma vegetação ao seu redor. Nos cursos dos rios são encontrados paus (terrenos alagados), as camboas e os manguezais, formando um rico ecossistema tropical.

Variedade de biomas e fontes de renda

Existe no local uma diversidade de biomas que, associados ao clima, tipo de solo, índice pluviométrico, formam restingas altas e baixas, caatingas litorâneas, mata atlântica e o mangue. A pesca marítima, fluvial, o extrativismo vegetal são as atividades econômicas dos potiguaras, que consiste na colheita da mangaba, caju, castanha, dendê, batiputá e outros. Pode-se encontrar também no local uma variedade de árvores frutíferas com a manga, o mamão, o abacaxi, o cultivo de hortaliças, plantas medicinais, pequenas lavouras de mandioca nos terreiros das casas ou em seu entorno.

Nas várias aldeias o artesanato é o meio de sobrevivência de muitas famílias, como também é possível encontrar a criação pequena de bovinos, caprinos, muares, eqüinos, suínos, galinha, pato, guiné e peru; muito comum de ser encontrado no quintal das casas. Alguns índios sobrevivem do trabalho assalariado rural, do empreguismo público municipal e estadual e das aposentadorias dos idosos.

Educação

A escola desempenha um papel fundamental na formação dos índios potiguaras. Nos últimos anos as conquistas educacionais vem se desenvolvendo com a criação desde 2004 da Organização dos Professores Indígenas Potiguara (OPIP). Capacitação de professores estão sendo realizadas e em 2008 várias professores estão terminando o magistério indígena (ensino médio) promovido pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Paraíba.

A Universidade Federal de Campina Grande criou, através do Prolind, uma graduação a nível superior especifica para os indígenas, denominada de “Professor Intercultural” pretende iniciar uma formação semi-presencial.

Preservação dos rituais

O toré é um ritual indígena que solidifica são apenas as fronteiras étnicas, os sinais diacríticos, mas ser o oceano para onde confluem todas as águas do cotidiano potiguar, traduzidos em rituais sagrados de agradecimento, luta, festa, brincadeira, contestação, comemoração, dor, reinvidicação e esperanças.

Nos últimos anos os santuários indígenas têm sido violentados e destruídos devido aos interesses econômicos de grupos industriais que visam apenas o lucro. Algumas organizações estão tentando reverter o quadro de morte que vem sendo feito contra a etnia.

Adriana Crisanto
Repórter
adrianacrisanto@gmail.com
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Fotos: Divulgação do projeto