Flor que se renova


“Última flor do Lácio, inculta e bela”, prenunciava o escritor Olavo Bilac no poema da “Língua Portuguesa”. Língua que neste 1º de janeiro de 2009 sofrerá sua terceira modificação. Trata-se do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que prevê uma única forma de escrever para os países que falam língua portuguesa, a exemplo de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

As mudanças só vão acontecer porque três dos oito membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ratificaram as regras gramaticais do documento proposto em 1990. Brasil e Cabo Verde já haviam assinado o acordo e esperavam a terceira adesão, que veio, em novembro do ano passado, por São Tomé e Príncipe.

Com isso, calcula-se que 0,45% das palavras brasileiras terão grafia alterada. Entre as mudanças, estão as extinções dos acentos circunflexos das paroxítonas terminadas em “o” duplo. Assim, "abençôo", "enjôo" ou "vôo" se transformam em "abençoo", "enjoo" e "voo". Fica extinto também o circunflexo das terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver", ficando correta a grafia "creem", "deem", "leem" e "veem". O trema, costumeiramente esquecido, será eliminado completamente.

“Haverá um período de quatro anos para que todas as pessoas se adaptem as novas mudanças”, disse o professor de língua portuguesa Francelino. Por outro lado, acrescentou ele, nenhum concurso público poderá exigir as novas regras. O que pode acontecer é vir citado dentro do exame uma questão em que diga: “Conforme a nova regra da língua portuguesa assinale a alternativa correta”, exemplificou.

O professor de Língua Latina e Filologia Românica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Centro Cultural Zarinha, Fabrício Possebon, considerou a percentagem de palavras alteradas pequena, todavia, esse número, de acordo com ele, não deve nos enganar, pois as palavras com nova ortografia são aquelas que têm uma freqüência relativamente alta. “É o caso, por exemplo, da palavra idéia, que perderá o acento. Ninguém deve imaginar que conseguirá continuar escrevendo pelo antigo sistema e ainda assim estará escrevendo corretamente”, comentou.

O novo alfabeto também ficará maior. Ele vai deixar de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação das letras "k", do "w" e do "y". Outra mudança que pode causar estranhamento é a eliminação do acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia".

Com as regras incorporadas ao idioma, inicia-se o período de transição, no qual ministérios da educação, associações e academias de Letras, editores e produtores de materiais didáticos recebem as novas regras ortográficas para, gradativamente, atualizar livros, dicionários, entre outros materiais.

O angolano Ondjaki vê com muita preocupação essa mudança, pois são oito países falando uma única língua. O também angolano Miguel Huurst também vê com preocupação, porque a língua portuguesa é uma das menos lidas no mundo. “Ela cresce muito pouco se compararmos com outras línguas”, disse.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) é um tratado internacional que tem como objetivo criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países que usam esta língua. Foi assinado pelos representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990, fruto de um longo trabalho desenvolvido pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras desde 1980. Timor-Leste aderiu ao Acordo em 2004. O acordo teve ainda a adesão da delegação de observadores da Galiza.

O escritor e professor de jornalismo do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba (Decom/UFPB), Edônio Alves, vê de forma positiva as mudanças, pois as línguas vão ter um mínimo de sinais possíveis. “A princípio deve acontecer um certo estranhamento das pessoas, principalmente os escritores e jornalistas que lidam cotidianamente com a escrita, mas com o tempo essas alterações serão facilmente adaptáveis”, comentou o dramaturgo e escritor Tarcísio Pereira. O poeta e escritor, Antônio Mariano, acredita que com as modificações jamais vão conseguir algemar a língua, pois a palavra poeticamente falando está subjacente à grafia.

Para Fabrício Possebon, as pessoas com hábitos de leitura não terão dificuldades com o novo sistema, pois irão se acostumar de modo imperceptível. “Os profissionais da área, como jornalistas e professores, terão o dever de aprender bem o sistema e aplicá-lo corretamente. Já as pessoas que muito raramente escrevem, provavelmente, não usarão o novo sistema e serão sempre reconhecidas por terem sido alfabetizadas pelo sistema antigo”, disse.

Atualmente o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cinqüenta milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial. Mesmo o castelhano apresenta dezenas de variações de pronúncia na Espanha e América hispânica, mas apenas uma ortografia.

O português Marco Oliveira, programador da rede de televisão Portuguesa RTP, e a jornalista e apresentadora, Luísa Sequeira, também da RTP, acreditam que essa seja principalmente uma medida de fundo econômico. Eles contaram que ficaram surpresos ao chegar no Brasil e encontrar tantas pessoas falando a língua portuguesa. Marco Oliveira observa essa unificação de forma positiva e confessou que têm uma certa dificuldade em entender o português brasileiro, devido, principalmente as gírias usadas cotidianamente.

O acordo possibilita, entre outras facilidades, a criação de normas ortográficas comuns para as variantes da língua portuguesa, facilita a difusão bibliográfica e de novas tecnologias, reduz o custo econômico e financeiro da produção de livros e documentos. O diretor da Editora Universitária da UFPB, José Luiz, disse que por um lado às modificações permite aprofundar a cooperação entre as nações que falam português (terceira língua ocidental mais falada no mundo, depois do inglês e do espanhol), aumentando o fluxo de livros e publicações em todas as áreas, além de favorecer a produção de materiais para a educação a distância.

O diretor José Luiz acredita que as editoras terão que realizar essas mudanças de forma gradual, substituindo-se, por exemplo, os materiais didáticos e dicionários à medida que for necessária sua reposição nas escolas da educação básica.

A editora Publifolha publicou recentemente o livro “Escrevendo pela Nova Ortografia” (136 p. R$ 19,90), de autoria do Instituto Antônio Houaiss e coordenado por José Carlos de Azeredo. O livro já pode ser encontrado para em alguns site da internet e em algumas livrarias da cidade. E a quem interessar possa basta entrar no Portal de Língua Portuguesa disponibiliza de uma forma imediata, acessível e simples um conjunto de recursos que permitem ao utilizador comum da Internet o acesso a informações relativas à língua portuguesa, nas suas diferentes variedades. É uma ferramenta de livre acesso, direcionada para alunos e professores, para profissionais de diversas áreas e, de um modo geral, para todos os que têm interesse e curiosidade pelo funcionamento da língua portuguesa. O endereço eletrônico é o http://www.portaldalinguaportuguesa.org

Adriana Crisanto
Repórter
adrianacrisanto@gmail.com
adrianacrisanto.pb@diariosassociados.com.br
Foto: Internet - Flick - autor desconhecido
*Matéria publicada no Jornal O NORTE.

O samba da favela


Com participações especiais de Arlindo Cruz, Leci Brandão e Seu Jorge acaba de chegar no mercado musical nordestino o CD e DVD “Favela Brasil” do carioca Leandro Sapucahy, considerado pelos especialistas como a revelação do samba moderno brasileiro.

O trabalho traz a maneirice do samba com elemento do hip hop, funk, forró e do rap, tão em voga na música do Rio Janeiro nos dias atuais. O DVD vem com 19 faixas e o CD tem 14 canções, a última é uma faixa bônus com participação de Seu Jorge, intitulado “Problema Social”. As letras, em sua maioria, remetem a situação social do país e a realidade da cidade maravilhosa tão ataca pelo tráfico de drogas e a prostituição. Logo na primeira faixa tem “Sujou (numa cidade muito longe daqui – polícia e bandido) assim mesmo tudo emendado.

O letrista Sérgio Meriti assina com outros parceiros quarto canções. Entre elas estão na lista: Mano Guta, com participação de Fernandinho Beatbox, Só faltou você (lado A lado B), Tá tranqüilo shock, Fui bandido e bicho solto.

Em entrevista por telefone Leandro Sapucahy disse que cresceu ouvindo música com a mãe, foi produtor de bandas de pagode, tocou percussão vários anos na banda com Marcelo D2 e se tornou parceiro de Meriti há algum tempo. Neste trabalho Sapuchay montou um pot-pourri com três sucessos de Bezerra da Silva (Se Não Fosse Samba, Malandragem dá um tempo e A Semente), no roteiro gravado ao vivo no dia 8 de maio na Fundição Progresso do Rio de Janeiro.

O samba de Sapucahy é antenado e não fere os ouvidos daqueles que veneram o samba de qualidade. O CD e DVD sairam pela Warner Music que investiu certo num artista que promete. A direção do trabalho em DVD é de Estevão Ciavatta, direção cênica de Regina Casé. O cenário leva a assinatura do artista plástico Zé Carratu que construiu uma mini favela no palco, do qual Sapucahy entra montado numa moto-taxi, meio de transporte comum nas periferias.

Pelo gênero rap ele gravou “Espírito Independente”, com a participação especial de Mc Marechal que está apenas no DVD. Com o Mc Marcinho ele reproduz os bailes da pesada das favelas cariocas. Na faixa 17 tem um medley com Almir Guineto (Insensato Destino, Conselho, Mel na boca). Ao lado de Leci Brandão gravou “O Dono e o Povo”, um samba para lá de social. “Fiz parte de uma geração que escutou muita coisa boa. Quero fazer uma carreira. Não quero fazer música descartável”, disse Sapuchay.

Da música nordestina, além do forró de Luiz Gonzaga, das canções de Elba e Zé Ramalho ele cita como referência Jackson do Pandeiro. As incursões pelo resto país com show Favela Brasil ainda não estão previstas. Por enquanto no dia 18 de dezembro ele se apresenta no Teatro Rival, faz alguns shows Sesc´s, e outros comprados em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo.

Serviço: Favela Brasil - CD / DVD
Artista: Leandro Sapucahy
Gravadora: Warner Music

Adriana Crisanto
adrianacrisanto@gmail.com
adrianacrisanto.pb@diariosassociados.com.br
Fotos: Divulgação (Júlio Moura).

Vick Cristina Barcelona


O novo filme de Woody Allen, Vick Cristina Barcelona, que estreou essa semana nas salas de cinema de João Pessoa parece ainda não ter despertado a curiosidade dos admiradores do cineasta na Paraíba, apesar da produtora do filme dizer que o filme foi visto por 96.265 espectadores, em seus três primeiros dias de exibição. Sem deixar de seguir as origens o filme mostra bem a fase madura de Allen, um dos cineastas mais polêmicos do cinema americano-europeu.

Vicky Cristina Barcelona conta a história de duas amigas Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson, de Scoop) que vão passar uma temporada em Barcelona (Espanha). Enquanto uma deseja um casamento seguro e uma vida tradicional ao lado de um marido com estabilidade financeira, a outra é aparentemente livre, sabe o que quer e o que não quer, ou seja, levar uma vida pequena burguesa e careta.

As duas acabam envolvidas com um artista plástico galanteador Javier Bardem, típico personagem latino sedutor (que não tem beleza nenhuma). O narigudo é casado e separado, ao mesmo tempo, com uma artística plástica completamente destemperada, para não dizer “maluca” e “doida”.

Como não podia deixar de ser o filme fala de comportamento humano, das relações conflituosas entre homens e mulheres. Mesmo com a narração em “off”, a trilha sonora chama bastante atenção por ser parecida com a de Frida Kahlo, o filme.

Outra leitura que o diretor tenta mostrar é a vida de vaidosa dos artistas plásticos. A atriz Penélope Cruz dá um show de destempero e encenação, o que beneficia muito sua atuação. É evidente que as amigas de Woody Allen, Rebecca e Scarlett também são marcantes.

Adriana Crisanto
Repórter
adrianacrisanto@gmail.com
adrianacrisanto.pb@diariosassociados.com.br
Foto: Imagem Filme