"Respeitável público com vocês as Muriçocas do Miramar"


“Respeitável público com vocês as Muriçocas do Miramar!”. Abram alas que o bloco, que se tornou patrimônio imaterial do carnaval paraibano, vai passar pela avenida da folia nesta quarta-feira de fogo. O bloco de arrasto mais famoso da cidade de João Pessoa se concentra na Praça das Muriçocas, bairro do Miramar, onde um palco armado com várias atrações musicais prepara os foliões para saída do bloco de arrasto, considerado por muitos, como um dos maiores do mundo.

O Muriçocas do Miramar, que este ano rende homenagem ao circo, terá como atrações o pernambucano Antônio Nóbrega, os paraibanos Fúba, Diana Miranda, Gracinha Teles e Dadá Venceslau. A Muriçoca gigante, armada no Busto de Tamandaré, praia de Tambaú, este ano recebeu um nariz de palhaço, um dos símbolos do circo, que é o tema da 23ª edição do desfile.

No chão, na frente dos trios, saem as Escolas de Samba Malandros do Morro, Império do Samba e a Companhia de Teatro e Circo Lua Crescente. No palco principal se apresenta a Orquestra Metalúrgica Filipéia. No mini palco da Epitácio Pessoa se apresentam quatro pequenas orquestras e quatro grupo de circo. Este ano cerca de 12 trios elétricos oficiais e alternativos estarão animando os foliões no percurso da Via Folia Epitácio Pessoa.

O primeiro trio elétrico (Metrô) oficial do bloco vem sendo conduzido pelo puxador oficial do bloco, o cantor e compositor Flávio Eduardo (Fúba). O segundo (Balada) traz a cantora Diana Miranda, um pouco mais atrás o trio (Oxigênio) com o pernambucano Antônio Nóbrega, seguido do trio elétrico Raça conduzindo o ator e cantor Dadá Venceslau. Na sequência, trio Gladiador, com Regina Brown e a Orquestra Parahyba Pop e o trio Xaxá com a cantora Gracinha Teles.

Tem ainda os trios agregados conduzindo as bandas elétricas: Ala Ursa (Trio Treme Terra), Banda Daprazê (Trio Selva Nua), Beto e banda Movimento (Trio Arerê). Nos palcos da concentração e da praia de Tambaú haverá apresentação de artistas de circo (malabares, trapezistas, cuspidores de fogo, bailarinas, palhaços) e orquestras de frevo.


História do bloco

Muitos integrantes não imaginariam que uma festa de aniversário poderia se tornar o maior bloco pré-carnavalesco de arrasto do mundo. O aniversariante, o estudante Thiago de Lima, hoje maior de idade, filho da professora de literatura da UFCG, Maria Vitória Lima, e do empresário Antônio Gualberto atual diretor presidente do bloco.

Os convidados da festa nada mais eram que artistas da terra, professores e jornalistas. “Neste período a cidade ficava deserta e no bairro à noite ninguém conseguia dormir com uma quantidade muriçocas, devido às chuvas de verão que acomete a cidade nesta época do ano”, lembrou certa vez Vitória Lima.

A festa, alusiva ao carnaval, era temática, ou seja, com motivos de carnaval e os convidados fantasiados. O aniversariante vestiu-se de pirata e houve muita brincadeira. Foi quando todos decidiram ir para rua bater, panelas e latas para comemorar a data. Eram apenas 30 pessoas sendo conduzidas por uma carroça de burro com um pequeno som acoplado tocando frevos. Eram pessoas que saíam da capital paraibana durante o carnaval e queriam se encontrar antes dos festejos. No ano seguinte um estandarte foi confeccionado e mais gente para participar da festa. Foi quando os moradores saíram pelas ruas cantando frevos e batendo panelas. Nesta época o número de pessoas chegava a 200 pessoas.

No terceiro ano a participação popular era de aproximadamente mil foliões, e hoje é o que todo mundo conhece, criou-se um hino e surgiu a terminologia “Quarta-Feira de Fogo”, vinda música de autoria do cantor e compositor Flávio Eduardo (Fúba), uma referência ao evento que acontece todos os anos uma semana antes da quarta-feira de cinzas.

Os artistas plásticos Sérgio Lucena, Flávio Tavares, Alice Vinagre e Marlene Almeida foram alguns dos autores do estandarte do bloco que saem todos os anos no dia do desfile. Os estandartes podem ser vistos expostos na sede da agremiação, no bairro de Miramar.

Muriçocona

A “Muriçocona”, como ficou sendo chamada pela população, é uma estrutura metálica de quase vinte metros de altura, que faz parte do cenário da cidade nesta época do ano. A alegoria é confeccionada com revestimento em tecido sintético, resina e auto fortante. A empresa responsável pela montagem do boneco gigante é a mesma que produz o bloco do Galo da Madrugada, em Recife (PE).

A alegoria divide o mesmo espaço que o busto do Almirante Tamandaré, no final da Avenida Epitácio Pessoa, divisa entre as praias de Tambaú e Cabo Branco. Este ano o boneco Muriçocas surgiu com uma pinta vermelha no seu fino e alongado nariz, lembrando um nariz de palhaço, alusivo a temática deste ano.

A instalação da Muriçocona no Busto de Tamandaré é estratégica, pois é onde circula a maior parte da população neste período e onde o fluxo de turistas, devido ao verão, se intensifica.

ATRAÇÕES

Antônio Carlos Nóbrega


Assim como nos outros anos o bloco Muriçocas do Miramar dá preferência aos músicos da terra e traz apenas uma atração, que vai depender da verba disponibilizada pela captação de recursos financeiros.

Uma das atrações bastante esperadas é a do multicultural, Antônio Carlos Nóbrega, que sai no terceiro trio elétrico das Muriçocas do Miramar. Nóbrega é natural de Recife (PE) e conhecido por junto com Ariano Suassuna divulgar e consolidar o movimento Armorial, criado na década de 1970 com o objetivo de dar origem a uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste.

O seu repertório ele apresenta canções tradicionais eletrificadas com seu violino e rabeca. Além de cantar e tocar Nóbrega é conhecido por apresentar uma estética circense em cena, pois ele também dança, toca bateria, percussão e violão. Nos últimos anos ele vem sendo revelado e considerado um fenômeno por conseguir unir a arte popular e erudita com bastante sofisticação. O que garantiu a ele a montagem de espetáculos memoráveis no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Um dos espetáculos de Antônio Carlos Nóbrega de destaque foi Figural (1990) e o outro Brincante (1992), em ambos ele muda de roupa, faz performance teatral, coloca máscaras e faz o público sorrir. Em 2006, Antônio montou o espetáculo “9 de Frevereiro” (escrito assim mesmo) em três volumes (Frevo, Festim e Nove de Frevereiro). Está montagem é uma alusão ao carnaval de Pernambuco e um trocadilho ao frevo. Neste espetáculo ele explora as várias facetas de se dançar o ritmo pernambucano, ou seja, com apenas um dançarino (Nóbrega) em passos estilizados de dança moderna, com vários dançarinos em passos de frevo, com e sem sombrinha e até o público todo, em ciranda de frevo.

Antônio Carlos Nóbrega, que começou tocando em orquestra no Recife, fez parte do Quinteto Armorial, o que ajudou a compor o lado erudito do qual traz para dentro de suas montagens. Nóbrega é também pesquisador da cultura popular e tem vários CD´s gravados e um DVD intitulado “Lunário Perpétuo”, em que canta o romance de Riobaldo e Diadorim, extraído da obra Grande Sertão Veredas de autoria do escritor mineiro Guimarães Rosa. Um dos últimos trabalhos dele foi a edição em DVD de “Nove de Frevereiro”, que teve a direção de Walter Carvalho.

Atualmente mantém em São Paulo a Escola e Teatro Brincante, um centro cultural que promove eventos e cursos ligados à dança, música e arte circense.

Fúba

O puxador oficial do primeiro trio elétrico oficial do bloco Muriçocas do Miramar é o pessoense Flávio Eduardo Maroja Ribeiro (Fúba). O ex-vereador, apesar de nascer em João Pessoa, foi batizado na cidade de Mari e passou boa parte da infância em Campina Grande. Morou vários anos no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Ele é o autor do Hino das Muriçocas do Miramar e atual produtor do Projeto Seis e Meia, evento de música que acontece nas cidades de João Pessoa e Campina Grande, através da Acorde Produções. Bastante atuante na cena cultural paraibana ele é também escritor. Publicou, em 1981, o livreto “Apenas um dia...” e a “Estrela Satélitica” além de vários folhetos de cordel.

Em 2005, lançou o livro de crônica “Nas ruas de nossas cabeças” e no passado lançou o polêmico livro “Parahyba 1930: A verdade omitida”, em que levanta a polêmica sobre a mudança do nome da cidade de João Pessoa para Parahyba.

Fúba já foi redator e diretor de criação de várias agências de publicidade, diretor de Marketing da PBTUR, presidente da Associação Folia de Rua e é um dos fundadores, entre outros, do Bloco Muriçocas do Miramar, responsável pelo ressurgimento do carnaval de rua de João Pessoa. Na música tem cinco CD´s gravados e várias músicas interpretadas por artistas nacionais.

Diana Miranda

O segundo trio elétrico sairá à cantora paraibana Diana Miranda, atualmente radicada em Genebra da Suíça, que todos os anos retorna a cidade para férias. Diana estará em cima do trio Balada e promete desfilar com um figurino especial. A cantora é mais conhecida fora do Estado do que dentro dele. Surgiu na cena européia no Festival Jazz Festival (Suíça).

Lançou quatro discos e participou de vários festivais europeus: Cannes (França) - Mainz (Alemanha) - Roma Jazz Festival (Itália) - Lancaster (Inglaterra) - ao lado de Jimmy Cliff, Phill Collins, Naná Vasconcelos, Hermeto Paschoal, Carlinhos Brown, Margaret Menezes e Daniella Mercury. Em 2006, foi escolhida para cantar o hino da Campanha do Teleton, em Genebra, na Suíça.

No Brasil, fez vários shows Sesc Pompéia (São Paulo). Em 2007, fez uma temporada no Vinicius em Ipanema (Rio de Janeiro), lançando seu CD Bossa Nova Song Book. Logo após a temporada do Rio, retornou à Europa, em uma turnê, passando pelo Festival Latino-americano em Milão (Itália) e representando o Brasil com o Show One Tour ao Brasil, promovido pela ONU, sendo sempre convidada para Shows e participações especiais.

Regina Brown


Outra atração é a paraibana Regina Brown que vem em cima do trio elétrico Gladiador e traz consigo uma orquestra de frevo (Parahyba Pop). Regininha, como é carinhosamente chamada pelos paraibanos, é a grande representante da mistura negra e índia herdada dos avós. Começou na música como solista do coral da Igreja católica São Judas Tadeu, no bairro da Torre, onde nasceu e passou boa parte da adolescência e vida adulta.

Estudou canto lírico no Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba (Demús/UFPB). O canto popular trouxe na bagagem da família. Pisou no palco pela primeira vez aos 18 anos de idade como profissional e realizou apresentações em casas de shows de todo país.

Conhecida por sua voz exuberante Regina Borwn esteve a frente da banda Absurdos a cerca de sete anos, de onde saiu para seguir carreira solo. É vencedora por dois anos do prêmio melhor intérprete da Paraíba. Foi back vocal e abriu os shows de Rita Lee, Marisa Gata Mansa, Flávio Venturine, Shank, Soweto,100% e outros.

Ela dividiu shows com Elba Ramalho e Elimar Santos, e trabalhou com um grande nome da música Americana, o cantor David Byrne, da banda" Talking Heads" na Alemanha. Em 2001, fez as malas e partiu para Europa, onde se casou, teve filhos e fez muitas amizades. Retornou a Paraíba onde apresentou o show Jeito Soul Black Brasil, trazendo em sua bagagem uma sonoridade mais leve, solta, soul e black. Seu repertório de jeito de cantar ganham nova estética e sonoridade, e recebe muito mais influencias dos ritmos africanos presente no Brasil como o samba, afro-music, axé, bossa nova.

Profissionalmente Regina Brown atua mais na Alemenha que no Brasil. Se apresenta ao lado de nomes domo Celi Marrom, com shows em que unem samba, funk e bossa nova. Nesta sua apresentação nas Muriçocas do Miramar ela promete fazer uma mistura de tudo que já ouviu e aprendeu ao longo dos anos, como o samba pop, funk, maracatu, xote, reggae, black music, afoxé, baião e muito frevo.

A cantora vem acompanhada por músicos brasileiros e alemãos com duas guitarras, baixo, teclado, bateria, percussão e saxofone. No repertório músicas de sua autoria e canções feitas em parceria com compositores paraibanos.

Gracinha Teles e Dadá Venceslau

A cantora Gracinha Teles este ano sairá em cima do trio elétrico Xaxá. Gracinha é natural de Recife (PE), mas veio muito jovem para João Pessoa. Gracinha começou muito cedo, aos 10 de idade cantava em programas infantis. Montou uma banda aos 16 anos de idade para se apresentar nos teatros, bares e espaços alternativos de música da Capital paraibana, sempre cantando músicas de sua autoria.
Ela figura no cenário musical local desde a década de 1990, quando depois uma temporada em São Paulo, onde residiu por sete anos. Gracinha Teles fez parte de um dos movimentos artísticos e culturais mais conhecidos em São Paulo, a Virada Paulista, no Teatro Tuca, onde fizeram parte nomes representativos da música brasileira.

Gracinha, que é uma apaixonada pelo blues e sempre esteve presente nos eventos e festivais da cidade, a exemplo do Sesc e nos projetos Boca da Noite, Glória Vasconcelos, Folia de Rua e Festival Nacional de Arte (Fenart). Representou a Paraíba, em 2003, na cidade de Ovar, Portugal, levando o melhor da nossa boa música para as terras de além mar.

Outra super atração é o divertido Dadá Venceslau. Figura carismática e adorada por muitos Dadá Venceslau este ano vem em cima do trio elétrico Raça. Ele é natural de Patos, município localizado a cerca de 300 quilômetros da Capital João Pessoa. Formado em Educação Artística pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) trabalhou como artesão nas feiras típicas em Tambaú e no Rio de Janeiro, onde partir da década de 1980 começou a sua experiência com a arte circense, o teatro e as artes plásticas. Em 1985, voltou a Paraíba e criou a “Supimpa Produções Artísticas” e surgiu a Trupe Agitada Gang, onde arrebatou vários prêmios como ator, cenógrafo, figurinista e aderecista.

Com o personagem "O Palhaço Dadá" participa do carnaval de Rua, na confecção de estandartes e alegorias. Gravou o CD Canta Palhaço, resgatando as cantigas de roda do cancioneiro popular. Atualmente atua na Ong Folia Cidadã como Arte-Educador e é membro da Associart/PB.

Transmissão para o mundo

De acordo com a assessoria de imprensa do bloco Muriçocas do Miramar as imagens do 23º desfile do bloco Muriçocas de Miramar, no dia 18 deste mês, serão transmitidas para o mundo via Internet, capturadas via aparelhos celulares.

Várias câmeras serão posicionadas estrategicamente no percurso do bloco, desde a Rua Tito Silva, no bairro de Miramar, até a praia de Tambaú, captando cenas dos trios, camarotes e no meio da folia. Também pelo site www.muricocas.com.br os internautas poderão interagir em chat de bate-papo.

Nas últimas semanas, pessoas de todo o Brasil e de vários lugares do mundo procuraram informações sobre o bloco da internet. De acordo com o relatório do Google Analytics, o site www.muricocas.com.br já alcançou nas últimas semanas mais de mil visitas oriundas de vários países, entre eles Portugal, França, Itália, Peru, Reino Unido, Holanda, Angola,Senegal e Estados Unidos, além do Brasil, que com quase 70% dos acessos.

Escute o Hino das Muriçocas e acompanhe com a letra mais embaixo:





"MURIÇOCAS DO MIRAMAR"
Compositor: Mestre Fuba

Parahyba Sonha
Com o seu verde colorindo o azul do mar
E a cidade velha
Já se acorda
Com seu canto secular
São as Muriçocas
Abram alas que elas vão voar
Espalhando alegria
De Tambaú ao Rio Sanhauá
É um trê-lê-lê
É um Zum, zum, zum, zunindo
É um trê-lê-lê
Cuidado que elas vão te picar
Salve, salve sejam bem benvindas
As Muriçocas do Miramar
Coça, coça, coça
Que nesse frevo a gente se enrosca
Coça, coça, coça
Ninguém segura o carnaval das muriçocas
É fogo, é fogo, é fogo
É quarta-feira, é quarta-feira de fogo
É fogo, é fogo, é fogo
É o trê-lê-lê
É o zum, zum, zum de novo


Adriana Crisanto
Repórter
adrianacrisanto.pb@diariosassociados.com.br
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Fotos: Divulgação