Peleja de Inácio da Catingueira e Romano de Mãe D´água


Recentemente recebi de minha tia Jeanne Crisanto uma Peleja de Inácio da Catingueira e isso me fez novamente voltar ao passado e resolvi escrever.

Eu passei minha infância e adolescencia escutando falar das Pelejas de Inácio da Catingueira (município localizado a poucos quilômetros depois da cidade de Patos, no interior do Estado da Paraíba) e confesso que sempre revisito essas cantorias para fortalecer minhas origens. Catingueira é um município ainda muito pobre, com bolsões de pobreza gritantes, uma região árida, que chove muito pouco, onde a sobrevivência da população vem da agricultura e da criação de poucos animais. Uma região em que tem também um subsolo rico em minerais, como o quartzo, mas ainda não explorado. Lugar de uma beleza natural ímpar e com serra gigantesca que leva o nome da cidade, Serra da Catingueira. Cidade que ainda salvaguarda suas tradições, com uma rua que atravessa de um canto a outro, uma igreja, uma praça e algumas modernidades que já chegou por lá também.

As Pelejas de Inácio da Catingueira eram recitadas pelo avô materno (Antônio Crisanto Dantas), ou por seus amigos violeiros e cantadores que sempre vinham nos visitar na Fazenda Boa Vista, localizada neste município, para prozear, saborear uma buchada com farinha, um picadinho de bode, tomar um banho de açúde, tomar uma pinguinha servida pelo meu pai (Edson Monteiro da Silva), que não bebia, mas servia para os convidados a autêntica água ardente dos engenhos de cana-de-áçucar da Paraíba como honra da casa servir e oferecer o melhor a quem por lá chegasse.

Inácio da Catingueira era um escravo, que mais tarde foi apelidado de gênio escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feira da Vila de Patos, PB, em 1870. O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.

Diz a lenda popular, pois não sei se é verdade, que essa Peleja demorou vários dias, e que eles seguiram recitando em praça pública e juntou gente para ver isso. Meu avô, Antônio Crisanto Dantas, para resgatar a traição poética do lugar e fazer viver Inácio construiu em praça pública um monumento em homenagem ao poeta escravo. O evento, inauguração do monumento, teve presença de políticos importantes da época, como Ernani Sátyro, Tarcísio Burity e outros políticos da redondeza.

Antes o monumento era de cor Preta, pois Inácio era negro. Mais tarde o monumento foi pintado de branco...coitado de Inácio... deve ter revirado no túmulo a essa altura...mas, em seguida, veio outra administração municipal e pintou o corpo (braços e pés) de preto e a roupa de branco, pois ao que se dizia a época, o gênio escravo vestia-se de branco e tinha um sorriso matreiro.

Peleja, para quem não sabe, é um gênero poético popular dialogado, em que dois poetas compõem versos de improviso um contra o outro, caracterizando uma disputa verbal. Normalmente acompanhada de viola, a forma de composição da peleja se estrutura em estrofes de dez versos, ritmados como o martelo ou como o galope.

A história de Inácio da Catingueira pode ser vista no Portal eletrônico da cidade, no endereço http://www.catingueiraonline.com/2009/05/inacio-da-catingueira-de-escravo-genio.html.Mas, essa riqueza familiar, cultural do meu universo ninguém sentiu e poderá contar ou comprar.

Segue a Peleja de Inácio abaixo e a foto do monumento de Inácio da Catingueira abaixo que pode ser vista no Portal Catingueira On Line. Com a Peleja segue também o desafio para os cantadores e poetas deste tempo eletrônico e cibernético repetir a proeza de Inácio e Romano de Mãe D´Água de cantar por 24 horas.

Fotos:
Primeira - Álbum de família - Meu bisavô - Pai do meu avô era repentista e meio cego com uma viola de 12 cordas, ou como diria Zé Ramalho, meu Avôhai!
Segunda - Serra da Catingueira vista da Fazenda Boa Vista.
Terceira - Foto do monumento Inácio da Catingueira disponível no Portal Catingueira On Line.


Peleja entre Inácio da Catingueira e Romano do Teixeira

(Começa com Inácio, seguido por Romano e segue alternando)


Inácio

Senhores que aqui estão
Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.



Romano

Negro me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.


Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
Inácio da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.


Vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.


Eu vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de um doutor.


Que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.


Eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.


Deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?


Inaço da Catinguera
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.


Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.


É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.


O meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.


Eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.


Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.


Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu

Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acrediar.


Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão tabalhar.


Sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
eu Romano só tem um.


Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco


Meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo


Nego, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho


Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboco,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco


Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teoc-teco


Não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.


Nego se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.


Fazê isso
Tá arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá


Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia


A fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá


Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó

Carapina,


Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage


Olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.


Eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho


Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.

Eu penso que o panadiço
É dozinha impertinente;


Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente


Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...

Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.


Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,


O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação

Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,


Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.

Me parece,
Eu que não sou aprendido,


É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido


Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,


Moça nova sem namoro
E véia sem ser "titia".

Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!


O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...

Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:


Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.


Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,


Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...

Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:


Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.

Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...


Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê


O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.


Inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,


O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado

No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado


No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.

Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;


O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendero
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero


Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primero.

Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;


Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!

Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou


Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.

Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!


O que você faz de espada
Desmancho de canivete...

O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...


Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta

Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma conceira ardente


É um vexame tão grande
Que não há diabo que aguente.

Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,


Fica o corpo sem governo
E a alma vai-e-não-vai.

Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!


Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.

Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tante gente
Inda não foi pra cadeia!


Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...


Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...


Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...

O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,


O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...


Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.

Meu branco dou-lhe um conselho,


Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.

Fala como uma folhinha...


Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...

Eu pra cantá
Não preciso passaporte...


É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.

Se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,


Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.

Eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,


Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.


Inácio as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.


Não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.


Tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.


Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.


Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.


Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.


Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.


Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.


Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.


Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.


Meu Deus, o que tem Inácio
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.


Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está como medo de Inácio
Ou com vergonha da gente.


Tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?


Abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.


Ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.


Meu branco eu dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.


Inácio, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.


É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Catelo.


Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.


Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.


Antes de eu ir, oito dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!


Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.


Eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’Água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.


Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que replandesce
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.


Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.


Lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
Peça a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.


Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.


Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.


Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.


O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.


Eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.


Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.


Eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.


Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.


A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.


Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.


Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.


Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.


Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.


Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.


Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.


Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, oito e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.


Vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.


Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.


Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,


Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
Inácio desata, agora,
O nó que Romano deu.

Desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.

Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.